22/08/2026
Faleceu o Pe. Frei Joaquim Cerqueira Gonçalves, Franciscano e Filósofo da Vida
Padre Frei Joaquim Cerqueira 1930-2026, OFM
(pelo confrade Fr. Isidro Lamelas)
Joaquim Cerqueira Gonçalves nasceu a 6 de abril de 1930, em Gaifar, Ponte de Lima, filho de José Gonçalves e de Rosa Cerqueira Taveira.
Nascido numa família de profundas convicções cristãs, o pequeno Joaquim habituou-se, desde menino, a apreciar as belezas desse verde Minho que nunca renegou. Pelo contrário, o seu percurso e pensamento manterão sempre um contacto profundo com a terra que fez «as delícias da [sua] infância», onde «correu, saltou, galgando campos e bosques, ultrapassando obstáculos, nunca sentidos como barreiras intransponíveis» (Em Louvor da vida e da morte, 9). Esta, a sua primeira “escola”.
Depois de ter completado os estudos primários na sua aldeia, entrou, em 1942, no Colégio de Montariol, na cidade de Braga. Montariol vai ser, desde agora, a sua casa de trabalho, oração e estudo. Começava a frequentar a “escola franciscana” da qual se veio também a tornar um mestre.
O adolescente Joaquim Cerqueira, acompanhado por umas dezenas de colegas, chega ao colégio e encontra espaços novos onde depressa se interessa por outros mundos: salas de aulas para aprender, escadas para subir, estudo para crescer e amadurecer, recreios para jogar e conviver, igreja para rezar.
Superadas as primeiras saudades, o jovem de Gaifar depressa encontrou nos livros da recheada biblioteca do seminário novos amigos, com os quais aprendeu a sonhar mundos novos. O gosto pela aprendizagem era incentivado pela facilidade com que assimilava tantas matérias novas que preenchiam o horário semanal do Colégio franciscano.
Chegara a hora de este jovem empenhado dar início ao novo capítulo da sua vida, que vai ter início nos finais de agosto de 1947, com o seu ingresso no “Real Convento de Varatojo”. Agora mais distante da sua terra e dos seus familiares, experimentava mais um afastamento das suas memórias e raízes. Depressa percebeu que quelas imponentes e vetustas pedras do secular convento guardam memórias e histórias de vidas e valores que se preparava para abraçar, agora de uma forma mais exigente. Cativava-o sobretudo a vida e o carisma do pobrezinho de Assis. Desde que vestiu o hábito de S. Francisco de Assis, nunca mais perdeu o amor e encanto pela sua pessoa e legado. Um legado de que se fará, desde cedo, seu competente pensador e propagador.
No dia 7 de setembro do mesmo ano, o jovem Joaquim Cerqueira recebe, das mãos do padre Provincial, Frei Manuel Taveira da Silva, o hábito de Irmão Menor. Passado o ano do noviciado, parte para Lisboa a fim de dar início a nova etapa da sua formação. No Seminário da Luz, em Lisboa, inicia os estudos filosóficos preparatórios da Teologia. Entra agora em novas áreas do saber que se anunciam de grande relevância para o seu futuro: estuda filosofia, psicologia, lógica, literatura, cultura clássica, sociologia, línguas. Em Lisboa não encontrou as belezas naturais do verde Minho, nem os recônditos bucólicos do ermitério varatojano, mas poderá continuar a lembrar-se de tudo isso, passeando pelos amplos espaços ajardinados que envolvem o Seminário do Largo da Luz. Até aos últimos dias da sua vida quis ter um quarto com janela voltada para o jardim, para poder continuar a contemplas as criaturas iluminadas pelo Irmão Sol.
Foi aqui que Frei Joaquim Cerqueira começou a afinar as notas do seu pensamento, escrevendo as primeiras páginas “filosóficas” na revista Escola Franciscana, órgão dos estudantes de filosofia do Seminário Franciscano.
Depois deste ano de intenso estudo, rumou, com seus colegas, às margens do Liz, em Leiria, cidade de longas tradições franciscanas, que tem como patrono eclesiástico S. Agostinho; duas figuras que serão fundamentais no pensamento do Pe. Cerqueira. A cidade de D. Dinis inspirou o nosso jovem religioso a continuar a valorização do seu currículo no estudo da filosofia e teologia. Terminados os três anos de estudo em Leiria, regressa à capital, para finalizar sua formação.
Ordenado sacerdote em 29 de junho de 1955, sabia que agora havia uma missão a cumprir. Sabia também que seu apostolado passará sobretudo pela pastoral da inteligência, servindo a ordem e a Igreja pela via da cultura. Para isso, sabe que necessitará de uma formação mais sólida. A Ordem Franciscana envia-o para Toulouse, em França, onde continua os estudos filosóficos. Em 1957, obtém o grau de licenciatura em Filosofia Escolástica, pelo Instituto de Toulouse (França). Após esta especialização filosófica, regressa à capital para continuar a formação superior na Faculdade de Letras. Na Universidade pública granjeará saber e amigos, convivendo com os melhores mestres que, em breve, serão colegas. Aprendeu com S. Francisco e S. Agostinho que a sabedoria se comunica melhor quando aliada à amizade. Também por isso, preferiu continuar o seu percurso académico em colo luso, podendo assim criar uma rede de amizades sólidas e frutíferas.
Nos anos letivos de 1957-1962, frequenta a Faculdade de Letras de Lisboa, concluindo a Licenciatura em Filosofia, com 18 valores. Para o efeito apresentou tese e prestou provas com uma dissertação sobre João Duns Escoto.
Prosseguindo as suas investigações, ao mesmo tempo que lecionava, concluiu, em 1970, o Doutoramento em Filosofia, na Faculdade de Letras de Lisboa, com 19 valores. Desta vez apresentou e defendeu uma dissertação intitulada Homem e Mundo em São Boaventura.
Da sua arte de ensinar a bem pensar beneficiaram sobretudo os alunos da Faculdade de Letras de Lisboa, aos quais dedicou o seu melhor tempo ao longo de anos (1963-2000). Mais tarde, também os discentes e docentes da Universidade Católica Portuguesa beneficiaram da sua generosa dedicação académica. Nestas, a ainda na faculdade de Letras do Porto ensinou disciplinas da sua área preferida: a filosofia medieval; mas não se ficou por aqui, tendo lecionado um vasto rol de cadeiras que vão desde a Ontologia à Hermenêutica, Filosofia da Linguagem, História da Filosofia, Antropologia Filosófica, Teoria da Educação, Ecologia. A sua filosofia partiu sempre da vida e permaneceu ligada a esta, mormente mediante um dos temas transversais de toda a sua obra e ação: a educação.
Nada amigo de viagens e aviões, em 1981-1982 abriu exceção para ir fazer um ano sabático na Universidade de São Boaventura de Nova Iorque. Com os pés bem assentes na terra, a sua viagem continuou, agora no Seminário da Luz, para onde se transferiu em 2017, depois do encerramento do Convento de S. José, da rua Silva Carvalho, onde, mui franciscanamente, viveu praticamente sempre.
Passou os últimos anos da sua vida, já como aposentado das academias e das correrias do mundo, no seu cenóbio do Seminário da Luz, colaborado com a sua Província e confrades, nunca deixando de ser um luzeiro de lucidez e discernimento para todos os que dele se abeiraram. Manteve, até ao fim um ritmo e disciplina de trabalho, sem jamais descurar a vida espiritual, sendo o primeiro e mais assíduo dos seus confrades no que toca à vida fraterna. Este voluntário “afastamento do mundo” não o impediu de manter as amizades e amigos que, por sua vez, corresponderam até aos derradeiros dias da sua vida.
Na madrugada de 22 de agosto despediu-se de todos, sem incomodar ninguém, com a serenidade de quem sabe que a morte é apenas o avesso da vida ou, melhor ainda, a sua “irmã” mais certa.