Paróquia de Prado

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03/08/2026

No DIÁRIO DO MINHO de hoje...

Quando o pastor muda de rebanho

Há um rumor antigo que percorre povoações sempre que um padre muda de paróquias. É um rumor feito de palavras que cruzam as ruas e as praças, de versões que crescem, de suspeitas que se levantam e de razões que se inventam. É o rumor dos corações que sofrem porque amam ou o dos interesses que se sentem ameaçados. Nem é por acaso que, nestes casos, alguns que frequentam a Igreja ameaçam deixar de o fazer e outros que, alheados da Igreja, se manifestam, de forma quase sempre imprópria!
De facto, na hora de mudar, há lágrimas sinceras, mas também há murmúrios: uns exigem saber os motivos, outros procuram culpados, alguns julgam conhecer razões que nunca existiram. Erguem-se perguntas, receios, saudades antecipadas e expectativas tímidas. Uma passagem, ainda que apressada, pelas redes sociais digitais, transformadas em lavadouros públicos do nosso tempo, mostra que os comentários e as conversas se multiplicam como folhas levadas pelo vento, e nem sempre o vento leva verdade. Mas Deus escreve quase sempre em páginas que ainda não conseguimos ler.
As comunidades habituaram-se ao timbre daquela voz, ao ritmo daqueles passos, àquele modo de pronunciar o Evangelho e de partir o pão da Palavra ou até àquela forma única de erguer o cálice. Sem darem conta, fazem do pastor um pedaço da sua própria história, chegando até a confundir a tenda com o peregrino ou a embarcação com o marinheiro. E, quando chega o dia da despedida, parece que alguém deslocou uma pedra do alicerce da casa. Por haver uma geografia de afetos que se desloca, a mudança não se resolve só por decreto.
Todos os anos se repete este cenário, na sempre exigente e difícil tarefa de prover de pastor cada parcela do único rebanho de Cristo. Por mais que se alerte e forme a comunidade e dela o pastor viva suficientemente desprendido, as pessoas não estão preparadas para as mudanças, pelo que as reações talvez sugiram que estes assuntos sejam preparados com antecedência, num diálogo franco e sincero entre os agentes pastorais envolvidos, num posicionamento que será tanto mais sinodal e pedagógico quanto mais for transparente.
Mais ou menos pensado, tratado com tempo ou de forma mais apressada, o processo, a que alguém jocosamente designou de “engenharia eclesiástica”, não é fácil e, nalguns casos, afigura-se mesmo muito difícil. Aliás, a história testemunha que, quando se pretende evitar os problemas a montante, eles levantam-se inevitavelmente a jusante.
Também o padre sofre com a mudança. Com o coração pendurado no campanário, não leva apenas livros e imagens ou paramentos. Leva rostos, confidências, funerais, batismos e casamentos, idosos cuja mão segurou no último suspiro e crianças que viu crescer na vida e na fé. Leva algo de si espalhado por caminhos de procissão, casas visitadas, mesas partilhadas e vidas orientadas. E nenhuma carrinha de mudanças consegue transportar tudo isso!
Mas parte, à semelhança de Abraão, de Moisés ou de Elias. E parte porque o Evangelho nunca permitiu aos discípulos construir moradas definitivas: Jesus passou de aldeia em aldeia, enviou os Doze sem bolsa nem sandálias de reserva, Pedro deixou as redes, Mateus o posto de cobrança e Paulo nunca pertenceu a uma única cidade. O Evangelho nunca se escreveu com pessoas imóveis e a Igreja aprendeu, desde cedo, que o Reino cresce mais por sementes lançadas à terra do que por raízes a ela acomodadas.
A mudança é uma pequena Páscoa. Há sempre algo que morre: hábitos, rotinas, afetos instalados, modos de fazer. Mas há também algo que ressuscita: o povo descobre novos dons, o sacerdote reencontra energias adormecidas. As comunidades aprendem que a sua unidade não depende de um homem, mas de Cristo, o único Pastor que nunca abandona o rebanho.
O novo padre não deveria chegar para apagar o anterior, nem o anterior deveria partir como um capítulo que se rasga do livro. Ambos pertencem à mesma história de salvação: um semeou, outro regará; um consolou, outro despertará; um abriu caminhos, outro alargará horizontes. Na pluralidade de temperamentos e formas de ser, Deus continua a fazer crescer.
Talvez seja precisamente esta a lição mais difícil: compreender que o pastor não é propriedade do rebanho, mas do Pastor que o envia; as comunidades não são donas dos seus padres e estes também o não são das suas comunidades. São antes companheiros de viagem, chamados a caminhar juntos, até que a voz do Senhor indique outra margem.
As despedidas doem porque houve amor. E isso é belo. Mas a fé ensina-nos que o amor verdadeiro não aprisiona, antes abençoa, agradece e envia. Por isso, quando um padre muda de paróquia, não apenas muda de residência ou de missão. É uma oportunidade para todos reaprenderem a confiar, menos nas seguranças humanas e mais na surpreendente fidelidade de Deus, que continua a escrever a sua história com mãos, vozes e corações diferentes.
A partida de um padre não fecha a porta da saudade, mas abre a janela da esperança. É tempo de agradecer o que se recebeu, de acolher quem chega e de acreditar que o Espírito Santo conhece melhor do que nós os caminhos por onde faz passar os seus pastores. No fim, permanece a certeza do que nenhuma transferência pode revogar: o pastor muda de rebanho, mas o Bom Pastor permanece sempre no meio do seu povo, a acompanhá-lo na estrada de Emaús e a conduzir cada comunidade pelos caminhos inesperados da graça.

31/07/2026

O menino que queria ser padre

Havia um menino que pensava ter Deus o hábito de passar, de madrugada, pelas aldeias e, por isso, acordava muito cedo. Carlos, Diogo, Bruno? Não me recordo do seu nome!
Enquanto o mundo ainda bocejava, ele caminhava pelos campos, convencido de que as primeiras pegadas sobre o orvalho podiam muito bem ser as de Deus. Conversava com as oliveiras antigas, porque lhe pareciam profetas silenciosos. Perguntava às videiras como era possível que um tronco retorcido produzisse uvas tão doces. Gostava das figueiras, porque Jesus, um dia, lhes dirigira a palavra, como se tivessem ouvidos. Mas eram as amendoeiras as suas preferidas, porque floriam quando o inverno ainda parecia mandar em tudo e vestiam-se de branco quando as restantes árvores continuavam despidas.
Um dia, o seu pároco, que também era madrugador, encontrou-o e disse-lhe:
- Gosto das amendoeiras porque são as primeiras a acreditar na primavera.
O menino guardou aquela frase como quem guarda uma semente ou um tesouro.
Quando a professora perguntou a cada um o que deseja vir a ser, as respostas brotaram, de forma explosiva e muito variada. A desse menino, contudo, foi serena e firme:
- Quero ser padre!
Os colegas olharam para ele como os discípulos para Jesus, quando falou de dar de comer a uma multidão com cinco pães e dois peixes. Parecia uma ideia impossível.
- Tu tens uma família e gostas de estar em grupo. Não vais ter medo de viver sozinho?
- Só vive sozinho quem não tem amor para repartir e afetos para partilhar. Nunca vi a fonte beber da própria água ou a vela guardar a luz para si.
Ficaram todos em silêncio. Há respostas que não cabem nos manuais escolares e ninguém sabia como lhe nascera aquele sonho. No dia em que viu o pároco levantar o pão e o vinho com mãos tão humanas que pareciam tocar o céu? Ou na tarde em que o avô lhe ensinou que Deus fala baixinho, para que ninguém o confunda com o barulho? Só Deus sabe...
O menino tornou-se acólito, nem sempre com grande sucesso. Uma vez tropeçou nos degraus do altar e deixou cair as galhetas, outra fez soar as campainhas antes do tempo... O sacristão levava as mãos à cabeça, mas o pároco esboçava um sorriso e deixava andar.
Aos poucos, o menino foi percebendo que o Evangelho nunca começa pela perfeição, mas por um chamamento inusitado. Abraão era velho, Moisés gaguejava, Jeremias dizia-se demasiado novo, Jonas fugia, Pedro afundava-se e, apesar disso, Deus continuava a escrever histórias de salvação. Talvez porque o barro nunca impede o oleiro de sonhar.
Enquanto os outros corriam atrás da bola e das borboletas, ele passava tardes na igreja a escutar o silêncio, que não é ausência de palavras, mas uma espécie de ninho onde Deus choca promessas. Sentava-se diante do sacrário, não rezava muito, mas olhava fixamente. Aprendera que também os girassóis rezam sem abrir a boca, basta-lhes voltar-se para a luz.
Os anos passaram como passam os rios: sem fazer barulho. Chegaram as perguntas, as dúvidas, os medos e as noites em que Deus parecia esconder-Se atrás das nuvens. Num desses momentos, perguntou ao pároco:
- Senhor padre, como sei que é Deus quem chama?
O sacerdote pegou num grão de trigo, colocou-o na mão do menino e respondeu:
- Talvez vejas só um grão, mas podes ver muito mais: um campo, pão, crianças saciadas, Eucaristias que hão de acontecer.
Depois, fechando-lhe lentamente a mão, continuou:
- Deus não chama apenas aquilo que és, mas também o que podes vir a ser.
O menino gostou da resposta e guardou esse grão durante muitos anos. Quando entrou no seminário, ainda o tinha no meio da Bíblia. Não porque fosse um amuleto, mas porque lhe lembrava que nenhuma semente conhece a beleza da espiga se permanecer fechada sobre si.
No dia da sua ordenação sacerdotal, ao deitar-se por terra, durante a Ladainha dos Santos, lembrou-se das amendoeiras e do grão de trigo. Percebeu finalmente que a vocação nunca tinha sido uma árvore adulta, mas era um grão de trigo lançado à terra, disponível para germinar e destinado a produzir fruto. Começara como uma flor frágil, aberta em pleno inverno, quando ninguém acreditava que a primavera fosse possível.
No dia da sua missa nova, o filho de uns amigos aproximou-se e perguntou-lhe:
- Senhor padre, Será que Deus também me chama?
- Sim, Deus também te chama, mas não grita. Ele prefere a delicadeza das sementes que crescem devagar e em silêncio, até se tornarem plantas ou árvores.
E deu consigo a pensar que Deus continua a chamar, não com o estrondo do trovão que assusta, mas com a paciência da chuva que fecunda; não com a força que obriga, mas com a ternura que atrai. Como quem deixa cair uma semente no coração de um menino... e espera, sem pressa, que um dia ela dê sombra, pão e Evangelho.
Porque as grandes vocações começam do mesmo modo que o Reino de Deus: pequenas como um grão de mostarda, discretas como o fermento escondido na massa. Fora esse, aliás, o texto do evangelho proclamado no dia da sua ordenação!

22/06/2026

No DIÁRIO DO MINHO de hoje...

Dois mártires ingleses

Para além de S. Paulino de Nola , são dois os santos, de proveniência inglesa, que hoje também celebramos: S. João Fisher e S. Tomás Moro, ambos martirizados em 1535, por ordem de Henrique VIII. E são eles que hoje merecem a nossa atenção, porque, se, ao segundo, Erasmo de Roterdão dedicou o seu famoso livro Elogio da Loucura, do primeiro terá dito: “Não há homem mais sábio, não há prelado mais santo”.
João Fisher nasceu em 1469, no Yorkshire , região que ofereceu uma grande resistência à Reforma Protestante. Com apenas 14 anos, ingressou na universidade de Cambridge e depressa chegou a bacharel e a mestre em artes.
Foi ordenado sacerdote em 1494 e, dez anos depois, o rei nomeou-o bispo de Rochester, ao mesmo tempo que dirigia a universidade onde estudara. Bispo zeloso e fiel a Roma, opôs-se à Reforma protestante de Martinho Lutero, mas também denunciou a ambição, a cobiça e a luxúria da corte romana.
Quando, em 1533, Henrique VIII decidiu casar-se com Ana Bolena , João Fisher opôs-se firmemente, afirmando que o matrimónio “não podia ser dissolvido por nenhum poder divino ou humano”. Acrescentou que, como João Batista, estaria disposto a sacrificar a própria vida para defender o vínculo matrimonial. Em consequência disso, o rei mandou encarcerá-lo na Torre de Londres, um castelo que, à época, funcionava como prisão.
Dois anos mais tarde, o Papa Paulo III nomeou-o cardeal. Furioso, Henrique VIII condenou-o à morte e a execução aconteceu a 22 de junho de 1535. A sua cabeça esteve exposta 14 dias numa estaca, na ponte de Londres, juntamente com a dos mártires cartuxos, que haviam sido executados três dias antes.
Tomás Moro nasceu em Londres, decorria o ano 1478. Filho de um juiz, ingressou, aos 14 anos, na universidade de Oxford, voltando depois a Londres para estudar Direito. Tornou-se membro do Parlamento inglês e, em 1529, Grão Cancheler de Henrique VIII. Foi, durante esse período, um dos homens mais influentes do reino, mas veio a demitir-se do cargo em 16 de maio de 1532, por recusar-se a apoiar a separação da Igreja de Inglaterra da autoridade do Papa.
O seu livro mais famoso tem como título Utopia. Publicado em 1516, nele exara os seus sonhos, críticas e caricaturas da humanidade e da Inglaterra, em particular. Além disso, descreve uma sociedade imaginária baseada na igualdade, na justiça e na organização racional, adiantando algumas sugestões para um mundo melhor.
Por manter a sua fé e convicções e sobretudo pela sua fidelidade à Sé Apostólica Romana, Tomás Moro foi encarcerado, a 17 de abril de 1534, na Torre de Londres, e acusado de alta traição. Em 1535, foi condenado à morte, vindo a ser decapitado, no dia 6 de julho. Antes de morrer, terá afirmado: “Morro como servo fiel do rei, mas, primeiro, como servo de Deus”.
Ficou conhecido pela sua inteligência, sentido de justiça e defesa dos seus princípios. É, por isso, lembrado como um símbolo de integridade e coragem moral, para além de ter sido um importante humanista, escritor, jurista e político inglês. Homem íntegro e jovial, era um juiz justo e culto, muito estimado pelos humanistas europeus e muito amado pelo povo, em virtude da sua caridade. Ficou também conhecido pelo seu humor e fina inteligência, como se depreende do que escreveu e do modo como viveu, testemunhas de uma fé inabalável .
João Fisher e Tomás Moro foram beatificados em 1886 por Leão XIII e canonizados em 1935, por Pio XI. Estes dois mártires testemunham que não foi pacífico o processo de passagem da Inglaterra para a Igreja Anglicana. No meio de muita resistência, onde a repressão contra os opositores foi dura, a Igreja Anglicana só foi consolidada no reinado de Isabel I , depois de um processo longo, imposto pelo Estado e marcado por conflitos, mais do que por uma conversão espontânea da população.

No DIÁRIO DO MINHO de hoje...𝗖𝗼𝗺 𝗮 𝗦𝗲𝗻𝗵𝗼𝗿𝗮 𝗻𝗼 𝗼𝗹𝗵𝗮𝗿 𝗲 𝗝𝗲𝘀𝘂𝘀 𝗻𝗼 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼O Mateus é não apenas o encanto dos seus pais e ...
15/06/2026

No DIÁRIO DO MINHO de hoje...

𝗖𝗼𝗺 𝗮 𝗦𝗲𝗻𝗵𝗼𝗿𝗮 𝗻𝗼 𝗼𝗹𝗵𝗮𝗿 𝗲 𝗝𝗲𝘀𝘂𝘀 𝗻𝗼 𝗰𝗼𝗿𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼

O Mateus é não apenas o encanto dos seus pais e avós, como também um dos meninos mais queridos da terra. Os vizinhos, a professora e a catequista gostam muito dele.
Há uns meses atrás, pediu ao Pároco que a imagem de Nossa Senhora fosse ao seu lugar. No ano anterior, o Mês de Maria tinha começado lá e, depois de ter ajudado nos adornos, assumiu, com um entusiasmo indescritível, a venda das velas. Como, neste ano, se impunha variar um pouco, não seria de lá que a Senhora partiria, mas por lá passaria, na conclusão do Mês. Quando soube, o Mateus ficou feliz e começou a sonhar com esse dia.
Liderados pela Filipa, os moradores do lugar prepararam uma receção simples, mas bonita e cheia de carinho. Era preciso limpar o largo, colocar flores e estender algumas fitas coloridas. Na manhã desse dia, ao ver a Filipa atarefada, o Mateus aproximou-se e perguntou:
- “Filipa, posso ajudar?”
Os olhos dela humedeceram-se, ao mesmo tempo que se iluminaram.
- “Claro que sim! Toda a ajuda é bem-vinda. E tu ainda mais, meu menino querido”.
Com criatividade e boa vontade, tudo ficou harmonioso. O Mateus colaborou, com alegria e devoção, imaginando a felicidade da Senhora, quando ali chegasse. Não o fazia para receber elogios nem para ser visto, mas porque sentia alegria em ajudar e sobretudo porque gosta muito da Senhora, cuja imagem, desde muito pequenino, o encanta.
Quando, na tarde desse dia, os moradores saíram à rua para esperar a Senhora, não viram a Filipa nem o Mateus. Perguntaram por eles e alguém lhes disse que tinham ido à Igreja. Pouco depois, a imagem chegou, num andor e aos ombros de seis jovens. O silêncio respeitoso envolveu a todos e as flores perfumavam o ambiente. A Filipa sorriu e segredou ao Mateus:
- “Sem o teu entusiasmo e a tua ajuda não estaria assim”.
O Mateus sorriu de volta. Sentia-se feliz! Olhava para a imagem e lembrava-se do que tinha aprendido na catequese: Maria tudo merece e os gestos de bondade, mesmo os mais pequenos, são uma forma de mostrar amor a Deus e aos outros.
Enquanto que os restantes meninos do lugar por lá ficaram, o Mateus acompanhou a Senhora até à Igreja Matriz, onde rezou e tirou uma foto, sentado no andor, junto da Senhora.
Naquela noite, custou-lhe a adormecer... a Senhora não lhe saía dos olhos. Imaginando-se já no dia da Primeira Comunhão, deu consigo a pensar que a preparação para receber Jesus não acontecia apenas nas sessões de catequese ou nas orações, mas também no caminhar e no cantar das procissões, bem como nas ações diárias, quando se ajuda com generosidade e alegria. No seu pensar de criança, intuía que estava a dar passos importante na preparação para tão grande dia.
Quinze dias se passaram e chegou o momento. O Mateus acordou antes do despertador. Sentia no peito uma agitação boa, parecida com a que tinha antes de abrir um presente de aniversário, mas diferente. Era como se estivesse à espera de alguém e não de alguma coisa!
Na catequese, tinham-lhe explicado que a Eucaristia não era apenas um símbolo vazio. “Quando recebemos Jesus”, dissera a catequista, “recebemos o próprio Cristo, que se dá a nós como alimento”. O Mateus pensou muito nisso. Não entendia tudo, claro, mas imaginava o coração como uma casa com janelas fechadas: receber Jesus era como abrir as portadas ao sol da manhã. A casa continuava a mesma, mas a luz mudava tudo o que há lá dentro.
Vestiu-se devagar, para não amarrotar a camisa. Entretanto, a mãe perguntou-lhe:
- “Nervoso? Quando chegares ao altar, isso passa”.
No caminho para a igreja, as ruas pareciam-lhe mais claras do que o habitual. Quando entrou na Igreja, a luz e o cheiro das flores envolveram-no como o abraço de um amigo.
A Missa começou. O Mateus escutava com atenção e respondia às orações. O momento aproximava-se e ele sentia-o no corpo inteiro, como se cada batida do coração fosse um passo até ao altar. Chegou, então, a hora de comungar. Caminhou pelo corredor central, focado apenas no sacerdote e no brilho dourado da píxide. Estendeu as mãos, pequenas e cuidadosas, e recebeu a hóstia consagrada. Levou-a à boca e, por um instante, tudo à volta parecia abrandar: os movimentos das pessoas e o próprio pensamento.
Voltou para o banco, ajoelhou-se e fechou os olhos. A alegria chegou devagar, como a claridade que cresce antes do nascer do sol. Não era uma explosão, mas uma paz luminosa. Abstraído de tudo, lembrou-se dos avós a rezar, da mãe a consolá-lo quando chorava, do pai a ajudá-lo a aprender a andar de bicicleta, dos colegas com quem, às vezes, brigava e depois fazia as pazes. Percebeu que Jesus não entra no coração como um visitante que ocupa espaço, mas como a água em terra seca: sem fazer barulho e mudando tudo por dentro.
Depois da Missa, toda a gente queria fotografias. Os primos corriam à volta das flores do adro e o avô Vítor enxugava os olhos, fingindo que tinha entrado pó. O Mateus sorria, mas guardava consigo aquele instante diante do altar, como quem protege uma chama do vento.
Na festa, houve boa comida, bolo, risos e barulho. Quando tudo acabou, o Mateus voltou a casa, cansado, mas feliz. Saiu sozinho para o quintal, sentou-se num degrau e pensou:
- “Hoje Jesus veio até mim. Não porque eu seja perfeito, mas porque me ama”.
Sentiu, então, uma vontade enorme de fazer coisas boas: pedir desculpa ao colega com quem implicara na escola, ajudar mais em casa, rezar pelos amigos, visitar quem está só. Compreendeu que a alegria da Comunhão não é um troféu para guardar numa caixa, mas uma semente para lançar à terra. E as sementes, quando encontram terra boa, começam a crescer.
A primeira estrela aparecia já sobre os telhados. O Mateus voltou a casa, levando no coração uma certeza tranquila: aquele dia estava a acabar, mas começava já a dar frutos. Intuiu que, quando se celebra um dia especial, todos os dias devem tornar-se especiais. E, desde então, tem vivido feliz, com a Senhora no olhar e Jesus no coração.

Conto escrito pelo Sr Padre João Alberto Sousa Correia, Pároco da Paróquia de Prado (Santa Maria).

A música tem o dom de elevar a alma e aproximar os corações.No próximo sábado, dia 13 de junho, às 21h, a nossa Igreja P...
08/06/2026

A música tem o dom de elevar a alma e aproximar os corações.

No próximo sábado, dia 13 de junho, às 21h, a nossa Igreja Paroquial acolhe o Concerto Botho, pelo Coro Ars Vocalis da Escola Coral de Esposende.

Será um belo momento de cultura, arte e espiritualidade, aberto a toda a comunidade.

Convidamo-vos a estarem presentes e a partilharem connosco esta noite especial.

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