24/03/2026
𝐇𝐨𝐦𝐞𝐧𝐬, 𝐬𝐚̃𝐨 𝐩𝐫𝐞𝐜𝐢𝐬𝐨𝐬!
Há 28 anos morreu D. António Ribeiro, Patriarca de Lisboa de 1971 a 1998, de uma doença que não era mortal, porque só atingia a dimensão corporal da vida, onde se manifesta a gloria de Deus. A Vida que não morre recebera-a no batismo e cultivou-a ao longo dos setenta anos. Nas vésperas de entrar no profundo silencio da morte, atualizou esse dom nos sacramentos da Igreja: na confissão dos pecados, na unção dos doentes e na eucaristia.
Alimentou-a cuidadamente no pasto religioso a que foi conduzido e de que se tornou pastor. Tinha a consciência clara que “a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus” (Sto. Ireneu). O homem Vivo é Cristo, e crer Nele é ter a Vida Eterna.
Implica corresponder: desenvolver os vários aspetos do ser homem, harmoniza-los no que de cada um depende segundo o projeto de Deus; implica perguntar o que quer o Criador de mim; implica cultivar a relação fiel com Deus e com os outros homens. Implicar servir, apagar-se para que brilhe Quem deve.
Na atual crise de identidade humana, porque só procurada no imediatismo em círculo fechado, fazem-nos falta homens que indiquem com a sua vida que a identidade vem Daquele à imagem de Quem fomos feitos;
Na crise inflacionista do palavreado, onde a palavra perde significado, força e duração, sob o império do politicamente correto, do agrado a clientelas;
Nesta crise de afetos, em que se procura reconhecimento, aplauso e satisfação empacotada;
Nesta explosão de violência, pessoal, coletiva, de povos e de poderes;
Na gritante crise de mestres, modelos, de líderes, políticos e religiosos;
Lembrar D. António faz-nos bem. Lembramos um Homem, um Cristão, um Padre. Os homens veem-se nestas horas, sem desculpas do difícil. Nas horas inovadoras do pós-concilio, perturbadoras do maio de 68 ou incertas de abril, tivemos um pastor, sem cedências à identidade humana; com domínio de si, valorizava a função e acreditava no eficaz serviço da Igreja, mais do que no agrado ou reconhecimento. Movia-o o que é reto, o que é verdadeiro, o que é justo encontrado no silêncio, e só isso justificava a palavra certa, no momento próprio.
Um cultor do silêncio. Neste silêncio, tão próprio deste tempo quaresmal, germina a Palavra escutada que se torna iluminadora e transformadora das realidades humanas. Saturam como enxurradas demolidoras as opiniões políticas, jornalísticas, comentaristas, eclesiásticas… faltam as palavras justas, poupadas… Faltam-nos Homens, precisam-se!