27/09/2026
«Filho, vai hoje trabalhar na vinha »
Jesus parte, no Evangelho deste domingo, duma experiência familiar que qualquer pai ou mãe de família pode observar no comportamento dos seus filhos. Diante duma ordem dada, dum pedido feito, duma sugestão, a reacção de cada um dos filhos é diferente e cada um comporta-se consoante o seu temperamento, a disposição do momento, o apego que tem a um dos pais, a educação recebida. A resposta a um pedido feito pode ser pronta ou divergir no momento da realização, ou ainda ser negativa. A cada filho a sua maneira de reagir, sinal da diferença que constrói a relação familiar entre pais e filhos, assim como do historial afectivo que rege os seus relacionamentos. Na parábola que Jesus conta, um pai pede aos seus dois filhos para irem trabalhar na sua vinha. Não é um trabalho de assalariado mas, uma vez que os filhos acabam por ser também proprietários da vinha, um dever de família implicando uma transmissão dos bens. O trabalho na vinha era uma maneira de apropriar-se do que lhes era próprio, como qualquer pai deseja que os filhos se afeiçoem às tarefas que vão receber como herança. O apelo do pai aos filhos era um ato de transmissão, uma forma de os responsabilizar pelo que também lhes pertencia. Porém, as disposições de cada um dos filhos são diferentes. O primeiro filho recusa-se a ir trabalhar na vinha e não apresenta as razões desta recusa. O segundo responde prontamente ao pai que irá trabalhar na vinha mas na realidade falta à sua palavra e mostra assim a sua duplicidade. Talvez queira agradar ao pai mas apenas com boas intenções, um propósito que na prática não tem fundamento porque não cumpre o que diz com clareza.
Jesus desafia os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo a julgar a atitude dos dois filhos: o primeiro, depois de um «não», arrependeu-se e foi trabalhar na vinha paterna; o segundo aceitou apenas por palavras a ordem do pai mas na prática não foi trabalhar na vinha. Há na atitude dos dois uma incoerência em relação ao pedido feito. Porém, a incoerência que foi sinal de conversão acaba por ser louvável porque mostrou uma humildade que não existia na resposta do outro filho. Este vivia de palavras e queria agradar, mas sem mostrar concretamente na sua vida as consequências do que dizia. Ele queria parecer bom mas sem o ser realmente. A pergunta de Jesus provoca o bom senso: «Qual dos dois fez a vontade do pai?». A resposta não poderia deixar de ser: «O primeiro», aquele que se tinha arrependido de ter dito não ao pai e decidido ir trabalhar na sua vinha. Sem se darem conta das consequências da sua resposta nem perceberem que se colocavam no lugar do segundo filho, uma vez que viam o que era justo mas não o cumpriam, os chefes do povo davam razão a Jesus: «Em verdade vos digo: os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o Reino dos céus». A razão para isso é que tiveram a coragem de se arrependerem, como o primeiro filho da parábola, porque ouviram o apelo de João Batista à conversão e se deixaram transformar por ele. Pelo contrário, «vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditado nele». A justiça verdadeira é a que leva ao arrependimento, à conversão. Ela nasce e transforma o coração e não é simplesmente um cumprimento exterior da lei. Ela conforma a palavra com
a vida e descobre que Deus é Pai que acolhe os filhos que se arrependem e se mostra reservado com os que se consideram já como justos.
Cº Vítor