10/08/2026
« Tende confiança. Sou eu. Não temais »
O Evangelho deste domingo situa-se depois da multiplicação dos pães e dos peixes por Jesus, sinal de admiração sobretudo para os seus discípulos que tinham sido testemunhas dos escassos recursos que Ele tinha mandado distribuir pela multidão. Jesus manda-os agora à sua frente e eles sobem para o barco para dirigir-se à outra margem do lago. Certamente vinham com o coração cheio e também eles tinham f**ado saciados com os pães e os peixes que distribuíram pela multidão, conforme indicação do Mestre. Enquanto Ele despedia a multidão, os doze fazem uma travessia que vem a revelar-se difícil pois, como nota S. Mateus, o «barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário». Não seria propriamente uma tempestade mas um tempo agreste que exigia redobrados cuidados e uma vigilância de todos os momentos, tanto mais que o trajeto, que iniciara ao entardecer, continuava pela noite dentro. Compreendemos a apreensão dos discípulos em semelhante situação, mesmo supondo que já eram experimentados nas lides do lago como pescadores.
O Senhor que f**ara na margem a despedir-se da multidão aproxima-se deles caminhando sobre o mar. Se, no passado, Deus tinha aberto o mar para dar passagem ao seu povo saído do deserto, Jesus caminhava agora sobre o mar mostrando que era maior do que Moisés. Ele é o Senhor das águas agitadas pelos ventos, o Senhor das tempestades, a luz no meio da noite, a paz que acalma a inquietação. Como vencedor das águas turbulentas de outras tempestades, Ele avança de pé de tal modo que os discípulos julgam ver um fantasma. Como acontece com as aparições do ressuscitado, Jesus desfaz um primeiro momento de angústia com as suas palavras: «Tende confiança. Sou eu. Não temais». O apelo a não ter medo e a confiar são sinais de esperança e de força interior, de coragem para a travessia. São estas as palavras de Jesus no meio das dificuldades da nossa vida. Acolhamos a sua presença e, com ela, a paz que nos transmite. Reconhecendo-o, somos também chamados, como Pedro, a andar sobre as águas, a não nos deixarmos vencer pelas contrariedades e a partilharmos a vitória de Cristo que nos levanta para, com Ele, fazermos as muitas travessias da vida. Apreciemos este ímpeto de Pedro: «Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas» e acolhamos com alegria, como ele, a palavra de Jesus: «Vem». Fortalecido pelo chamamento, Pedro caminha por um momento sobre as águas partilhando, pela fé, a mesma confiança que Jesus depositara nele. Simplesmente, começando a afundar-se por causa da violência do vento, ele lança o grito que é também o nosso no meio dos combates: «Salva-me Senhor». Pedro sabe que não se pode gloriar de caminhar sobre as águas porque este é um dom que lhe foi concedido. Sabe, mais ainda, que não tem uma fé suficientemente forte nos momentos mais difíceis e que precisa de estar vigilante. Não deve ter medo de gritar, com todas as suas forças: «Salva-me Senhor» porque é nesta renúncia a si mesmo que ele encontra a mão do Senhor que o segura e conduz. Diz-lhe Jesus: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?». A dúvida de Pedro é o momento em que ele começa a afundar-se mas é também o sinal de que pode renovar a sua confiança nAquele que acalma as tempestades e estende a mão para reconduzir à barca que é a sua Igreja.
Cº Vítor