14/05/2026
“O Chefe Jorge partiu…”
A notícia chegou noite dentro, quando estávamos numa reunião de escuteiros. A maioria dos presentes já ouvira falar do seu nome, mas nunca tivera o privilégio de partilhar de perto com ele.
O Chefe Jorge Manuel das Neves Rosa, foi um dos quatro fundadores do Agrupamento de Escuteiros de S. Vicente de Sangalhos, tendo sido chefe do mesmo durante 15 anos, entre 1982 e 1997.
A par do ciclismo, os escuteiros tornaram-se numa das suas paixões.
Naquele tempo, há mais de 40 anos, Sangalhos tinha poucas ofertas de formação para crianças e jovens. O sonho de tornar o Agrupamento numa verdadeira mola para o crescimento saudável e cristão para elas passou a ser a sua tarefa diária, como de uma verdadeira profissão se tratasse.
Não descansou enquanto não mobilizou um número suficiente de adultos que pudessem aderir à tarefa de educadores, enquanto dirigentes, para que o escutismo em Sangalhos ganhasse asas e singrasse numa terra tão avessa à novidade.
As limitações físicas que desde cedo o apouquentaram, não foram impedimento de realizar com escuteiros todas as propostas válidas. Uma delas consistiu em visitar, de bicicleta, com uma equipa de escuteiros, os 15 agrupamentos existentes da Região de Aveiro, para os convidar pessoalmente a estarem presentes na cerimónia de investidura de novos escuteiros em Sangalhos. Esta iniciativa foi o rastilho para uma série de actividades que se seguiram e que permitiram consolidar o crescimento do Agrupamento.
Uma das mais emblemáticas actividades que acarinhou e patrocinou foi o “Jamboree do Ar”, com realização anual, e, que consistia em contactar escuteiros de todo o mundo com a ajuda e colaboração dos seus amigos radioamadores. Estávamos muito longe de imaginar o advento da Internet, mas era uma maravilha ouvir todas as línguas do mundo. A Sangalhos, ocorriam escuteiros de todo o lado para verem e participarem neste evento.
Sempre atento, assim como a esposa Maria Carolina (também ela dirigente), às dificuldades dos escuteiros das famílias mais carenciadas, desenvolveu protocolos com a Junta de Freguesia de Sangalhos, para que pudessem ser obtidos fundos através da limpeza e conservação de alguns espaços públicos como o Mercado ou o Cemitério pelos escuteiros.
Foi o impulsionador e o negociador para que os escuteiros pudessem ter um campo dedicado às actividades ao ar livre, nascendo assim o CAE - Centro de Actividades Escutistas, no lugar das Fontanheiras, hoje um exemplo de infra-estrutura no seio do Corpo Nacional de Escutas.
Foi intransigente com o poder local para que ao Agrupamento de Sangalhos fossem concedidas instalações condignas, um feito que lhe reservou dissabores que nunca aceitou enquanto esteve no activo.
Para que o essencial não faltasse, custeou a suas expensas a aquisição de materiais e bens que um Agrupamento jovem necessitava para bem executar o seu trabalho.
Com o sentimento que é preciso transformar o sonho em realidade, desde cedo transformou parte da sua casa em espaço para que os escuteiros pudessem ter o seu estaleiro, oficina, ponto de acolhimento e de reunião.
A mesma casa, que sem portão, tinha sempre a porta aberta, um prato a mais na mesa, uma sala para serões infindáveis e espaço para o sonho crescer.
Quando saíamos de lá, vínhamos mais compreendidos, mais entusiasmados, e prontos para um novo desafio, uma nova missão.
Para que o escutismo singrasse na Região de Aveiro, dedicou-se durante mais de 10 anos a servir a mesma como presidente da mesa do conselho eleitoral.
Enquanto comunidade e Agrupamento teremos para com ele uma dívida de gratidão, que só pode ser paga, fazendo cumprir o seu sonho no desafio de “estar sempre alerta” para o outro, especialmente para as crianças e jovens.
Obrigado por tudo, Chefe Jorge!