12/09/2026
A Liberdade do Espírito: O Caminho dos Profetas Vivos
"A nossa maior ameaça é o medíocre pragmatismo da vida quotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo acontece com normalidade, mas na verdade a fé se vai desgastando e degenerando em mesquinhez".
(Cardeal Joseph Ratzinger)
«Jesus chorou sobre Jerusalém: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis reunir os teus filhos como a galinha reúne os seus pintainhos sob as asas, e tu não quiseste!" (Mt 23,37). Ele não chorou pela incredulidade, mas pela resistência; não pela ignorância, mas pelos corações endurecidos. Esse choro atravessa a história sempre que a Palavra é ouvida, mas não acolhida; sempre que se prefere a segurança do templo ao risco do Reino.
Os profetas foram enviados para dizer a verdade do presente; por isso, foram rejeitados. Jesus não teve meias palavras: "Ai de ti, Jerusalém, que matas os profetas" (Mt 23,37). E criticou severamente aqueles que «constroem sepulcros aos profetas», ao mesmo tempo que neutralizam a sua palavra viva (cf. Mt 23,29). O profeta morto não incomoda; o vivo, sim. É por isso que o honram quando já não pode falar.
Jesus não se refugiou em túmulos nem em memórias piedosas. Percorreu as estradas, tocou nos doentes, comeu com os excluídos e permitiu que a vida rompesse com a norma. Quando o acusaram de violar a lei, Ele respondeu com com uma frase que continua a interpelar todas as religiões: "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado" (Mc 2,27). Ali revelou-se o coração de Deus: tudo o que não dá vida não vem d’Ele.
Muitos crentes têm carregado, ao longo dos anos, fardos que não provêm do Evangelho. Jesus já o tinha denunciado: "Atam cargas pesadas e põem nas sobre os ombros dos outros" (Mt 23,4). Hoje, muitos procuram simplesmente o que Ele prometeu: "Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei" (Mt 11,28). Não procuram uma fé extraordinária, mas uma fé autêntica, capaz de sustentar a vida sem medo nem tutela permanente.
O profeta não clama de fora; escuta a partir de dentro. Recolhe-se em oração para discernir, não para fugir. O próprio Jesus, na noite decisiva, disse: "Não se faça a minha vontade, mas a Tua" (Lc 22,42). A oração verdadeira não adormece: desperta. E dessa escuta nasce uma palavra que ilumina o presente e o julga à luz do Reino.
Ao longo dos séculos, a Igreja foi-se acorrentando a grilhões que a impedem de se mover com a liberdade do Evangelho. Criou teorias e sistemas que, mais do que brotar da Escritura, parecem destinados a assegurar a própria continuidade. Jesus não morreu para apoiar uma instituição religiosa nem para apaziguar um Deus irado através de um sacrifício expiatório, mas tal como morreram os profetas: para dar testemunho da verdade. Foi fiel até ao fim, e essa fidelidade conduziu-o à cruz.
Não estava ocupado a fundar uma instituição, nem a instituir um sacerdócio separado, nem a consolidar estruturas sagradas como fins em si mesmas. Anunciou um Reino que ultrapassava todas as formas fechadas e colocava a pessoa no centro.
Jesus foi profundamente religioso — não no sentido cultual ou institucional, mas na profundidade de quem vive radicalmente voltado para Deus e para o ser humano. E, como tantos profetas antes e depois d'Ele, enfrentou a resistência de um sistema religioso que se defendia a si mesmo.
Hoje, a Igreja poderia, se quisesse, responder com coragem às urgências pastorais do seu povo. Poderia abrir novos caminhos. Mas não quer. Teima. Prefere preservar funções, controlos e seguranças, mesmo que o povo fique sem pão. E assim se repete a velha acusação profética: "Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim" (Is 29,13).
Aqui revela-se uma ferida antiga: a dificuldade da Igreja em confiar na ação de Deus na consciência dos crentes. No entanto, Jesus foi claro: "O Reino de Deus está dentro de vós" (Lc 17,21). E deu um passo decisivo ao afirmar: "Já não vos chamo servos… mas a vós chamei-vos amigos" (Jo 15,15). A amizade pressupõe confiança, diálogo e responsabilidade partilhada. A fé adulta não é rebeldia: é fruto do Espírito.
Quando a instituição se coloca acima do Evangelho, quando substitui a confiança pelo medo e o discernimento pelo controlo, deixa de escutar a voz que diz: «Não endureçais o vosso coração» (Sl 95,8). Então cumpre-se a advertência de Jesus: "Toda a planta que meu Pai não plantou será arrancada." (Mt 15,13). Não por castigo, mas porque o que não nasce do Espírito não pode dar fruto. "Pelos seus frutos os conhecereis." (Mt 7,16).
Hoje, mais do que nunca, percebe-se que um cristianismo clerical e paternalista está em declínio. A Igreja é, antes de mais, o povo de Deus, não os hierarcas que se consideram donos da fé e dos crentes. Estes fazem parte da Igreja, mas não são a Igreja, longe disso; a sua autoridade não pode substituir a liberdade e a consciência de todo o batizado...»
Excertos da carta de José Carlos Enríquez Díaz ao teólogo espanhol Andrés Torres Queiruga
(Traduzido e adaptado por Paulo Costa)
Fonte: https://www.facebook.com/20531316728/posts/10154009990506729/
Imagem: série "The Chosen"