16/07/2026
Jesus, o Poeta da Vida (PARTE I)
Jesus aproximava‑se das coisas com uma delicadeza firme, capaz de ver o que os outros não viam. Caminhava pela vida como quem lê um poema que só o coração entende. Via o que estava perdido, tocava o que estava ferido, dizia o que permanecia escondido. E dessa forma de ver — tão humana, tão divina — nascia a sua poesia.
Vem ver como Jesus via,
e deixa‑te acompanhar por este olhar.
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«Havia na personalidade de Jesus de Nazaré uma faceta de que os Evangelhos nunca falam explicitamente, mas que atravessa todas as suas páginas: o seu talento poético. Uma visão poética da vida, das coisas e até dos sentimentos aparece refletida nas parábolas, nas alegorias, nas comparações e, em geral, no modo sereno como lê os acontecimentos.
Neste Judeu da Galileia há muita ternura e, ao mesmo tempo, uma grande força temperamental. Se o poeta é aquele que sabe exprimir, por meio de palavras, o sentido oculto das coisas e os sentimentos mais profundos do ser humano, Jesus foi um grande poeta. Diria até que mais poeta do que místico — embora também o fosse, no sentido de saber contactar facilmente com as fontes do divino e com as experiências religiosas mais profundas. Foi um poeta intuitivo, que nem os discípulos mais próximos conseguiam acompanhar até ao fundo. Escapava‑lhes das mãos.
Não foi apenas o poeta da cruz — foi, sobretudo, o Poeta da Vida.
Contam que Jesus não suportava ver ninguém a sofrer: doentes, cegos, paralíticos, leprosos, endemoninhados — e que, por isso, “os curava a todos”.
Jesus não se revia, portanto, na futura teologia da cruz que alguns dos seus sucessores elaborariam, apesar de os seus gestos e palavras o terem conduzido infalivelmente ao patíbulo. Não era dos que pensavam que o sofrimento humano é algo de maravilhoso, que salva e redime por si mesmo.
Era radical, severo, despojado; não tinha casa onde dormir e pregava o desapego dos bens em favor da liberdade do espírito. Mas o seu caminho não passava pela vitimização. Era um poeta da vida e das coisas. Acusavam‑no de não impor jejuns nem sacrifícios corporais aos seus discípulos, como fazia João Batista. Ele gostava de desfrutar das pequenas coisas da vida, sem correr atrás da dor. Por isso lhes respondia que os que o seguiam teriam depois tempo para sofrer, já que a vida não é nenhuma festa. Como quem diz que não é preciso procurar a dor: ela encontra‑nos sempre.
Preocupava‑se tão pouco com ter aparência de asceta e homem de sacrifícios que chegaram a acusá‑lo de “bêbado e comilão”, porque não desdenhava partilhar cama e mesa com os amigos, alguns deles fariseus ricos. Gostava dos prazeres simples da vida.
São infinitos os pormenores de ternura do profeta judeu para com os enfermos, as pr******tas, as crianças e os outros marginalizados da sociedade. O seu modo de comunicar com todas as categorias desprezadas pelos poderosos do seu tempo é como um grande poema, lido devagar no brilho dos seus olhos. A parábola da dracma perdida, a da viúva pobre do Templo, a defesa da pr******ta que quebrou um frasco de essências para perfumar os seus pés de profeta itinerante, assim como a raiva com que expulsou os vendilhões do Templo — que estavam a transformar a casa de Deus num “covil de ladrões” — são como outras tantas poesias escritas sobre a pele da sua curta vida.
E que serão as “Bem‑aventuranças”, senão poesia — um desafio a todas as convenções da História? Não será esta poesia o oposto do grande poema de todos os tempos, que inveja e admira os ricos, os fartos, os violentos, os fortes, os que riem e os que se apoderam do mundo pela força? Não serão as “Bem‑aventuranças” a poesia que todos os párias da História sempre desejaram escrever e declamar?
E a oração do “Pai‑Nosso”? Não será a grande poesia que revoluciona a imagem tradicional do Deus vingador e juiz implacável, para se ajoelhar diante de um Deus Pai que não dará um escorpião a quem lhe peça pão e misericórdia, mas oferecerá compaixão e esperança? E também pão — pão autêntico, amassado no forno — para que ninguém tenha fome sobre a terra.
Sempre se disse que Jesus não escreveu nada com a sua própria mão. Na realidade, não é verdade. Fê‑lo pelo menos uma vez: escreveu palavras misteriosas sobre a poeira das lajes da entrada do Templo. A cena narrada pelo Evangelho de João ocorreu quando um grupo de doutores da lei lhe levou uma mulher surpreendida em adultério.
O que Jesus escreveu sobre as lajes seria dirigido aos acusadores da adúltera ou à mulher amedrontada lançada aos seus pés? Ninguém o poderá saber. Ou, melhor, sim: a única que pôde ler aquelas palavras — apagadas em seguida pelos pés dos fiéis que começavam a acorrer ao Templo — foi a mulher de rosto inclinado para o chão. E aqueles versos, os únicos escritos pelo profeta de Nazaré, morreram para sempre, docemente sepultados no coração da mulher. Não apenas o que Jesus escreveu, mas toda a cena da mulher adúltera é um poema de compaixão e de condenação da hipocrisia.»
Juan Arias, in "Jesus, Esse Grande Desconhecido" (adaptado)
➡ Continua amanhã. Na Parte II, entraremos no verso mais profundo da vida de Jesus.
Imagem: pax.valerie (Instagram)