Serviço Diocesano para a Pastoral Social - Diocese de Angra

Serviço Diocesano para a Pastoral Social - Diocese de Angra Açores

23/08/2026

Decorrida cerca de uma semana após a sua inesperada morte (12 de agosto), o 7MARGENS republica hoje a entrevista de Eugénio Fonseca ao programa 7MARGENS da Antena, 1 novembro de 2023, na qual comenta a mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial dos Pobres e nos fala sobre as questões da pobrez...

[Entre Margens]Missão na era da Inteligência ArtificialJosé Vieira | 11/06/2026Reprodutor de áudio O Papa Leão XIV publi...
12/06/2026

[Entre Margens]
Missão na era da Inteligência Artificial
José Vieira | 11/06/2026
Reprodutor de áudio



O Papa Leão XIV publicou recentemente a sua primeira carta encíclica com o título Magnifica humanitas (MH). Trata-se de um documento do âmbito da Doutrina Social da Igreja Católica, um hino que celebra a humanidade em todo o seu esplendor apesar dos desafios da cultura de poder (MH 188) que é feita de polarizações e violências (MH 185).

A missão, a dimensão fundamental e fundacional da vida cristã, não podia ficar de fora da encíclica «sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial», embora tratada circunstancialmente.



Poder ao serviço da missão

Na conclusão do segundo capítulo dedicado aos «Fundamentos e princípios da Doutrina social da Igreja», o papa americano faz uma reflexão sobre a Doutrina social da Igreja como teste e exame de consciência para a própria comunidade eclesial.

«A Doutrina social não é apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para a Igreja, casa e escola de comunhão, chamada sempre a averiguar se os princípios evocados neste capítulo são vividos, em primeiro lugar, dentro de si mesma» (MH 86), escreve.

A Igreja que ensina é também a Igreja que pratica, que quer ser laboratório dos próprios ensinamentos sobre a comunhão.

O Papa fala da subsidiariedade como «critério de governo e de vida pastoral, que reconhece e apoia a responsabilidade dos fiéis e dos organismos eclesiais intermédios, valorizando os carismas e as competências» (MH 87). Também afirma que a «a solidariedade encontra a sua fonte no mistério de Cristo e alimenta-se da Eucaristia» (MH 88).

A subsidiariedade e a solidariedade juntamente com o bem comum, o destino universal dos bens e a justiça social formam os cinco esteios da doutrina social católica (MH 46).

Sobre a vivência da justiça no contexto eclesial, Leão XIV escreve: «viver a justiça na Igreja significa melhorar as relações e as estruturas eclesiais, eliminando as distorções que geram desigualdades, opacidades e prevaricações» (MH 89). Para acrescentar que «a escuta das vítimas de abusos espirituais, económicos, institucionais, se***is, de poder e de consciência é parte integrante dum caminho de justiça, que inclui o reconhecimento do dano causado, a justa reparação e a prevenção» (MH 89).

Depois ajunta: «Todo o poder está ao serviço da comunhão e da missão. Toda a autoridade está ao serviço do povo de Deus» (MH 89). Estas duas frases redirecionam-me para o que o Papa Francisco de tão boa memória escreveu na Evangelii gaudium (EG), o documento programático que lançou o seu pontificado.

«Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação» (EG 27), escreveu o Papa argentino.

No pensamento de Leão, a missão qualifica também o modo do exercício eclesial do poder como serviço de comunhão e missão do povo de Deus.

Por outro lado, a Igreja que vive em estado permanente de missão deve ser uma Igreja em permanente exercício de discernimento para uma missão melhorada (MH 89).



Missão ao serviço dos mais pobres

Jovens e pobreza. Foto © Nicola Barts de Pexels
‘Na linha dos seus antecessores, Leão XIV recorda que a «opção ou amor preferencial pelos pobres» é caminho obrigatório da Igreja, critério de discernimento da linguagem evangélica (MH 14), fonte de evangelização da própria Igreja (MH 42) e a partilha de bens é caminho para a missão.’ Foto © Nicola Barts | Pexels

Na linha dos seus antecessores, Leão XIV recorda que a «opção ou amor preferencial pelos pobres» é caminho obrigatório da Igreja, critério de discernimento da linguagem evangélica (MH 14), fonte de evangelização da própria Igreja (MH 42) e a partilha de bens é caminho para a missão.

«Esta diaconia manifesta-se não só na fé celebrada e vivida nos Sacramentos, e na aquisição de um estilo sinodal, mas também na partilha concreta dos bens: segundo o exemplo da Igreja primitiva, os recursos eclesiais são chamados a tornar-se verdadeiramente comuns, para que entre nós ninguém passe necessidade (cf. Atos 4, 34) e para que a sua administração apoie a missão de anúncio do Evangelho aos mais pobres» (MH 89).

Este é um ponto importante: a partilha dos recursos eclesiais – que são tantos e tão variados – passa pela sua comunização para que, à semelhança dos primeiros cristãos, sejam postos em comum para que todos tenham o necessário para viver e para que apoie a evangelização dos mais pobres – que passa também pela sua promoção humana através da escolaridade, da saúde e da promoção da mulher.



Mundo digital: novo continente a evangelizar

“Se a Inteligência Artificial (IA) superar os humanos, o que restará de distintivo na experiência humana?” Foto © Igor Omilaev | Unsplash
“Há uma geração inteira que mora no digital e que tem o direito de conhecer Jesus Cristo nesse espaço humano novo a que insistimos chamar de realidade virtual mas que, de facto, é o novo real para milhões de seres humanos.” Foto © Igor Omilaev | Unsplash

Na conclusão da encíclica, e refletindo sobre a educação como investimento necessário para enfrentar os desafios da Inteligência Artificial, o Papa Leão escreve: «Todos precisamos de nos formar para viver o mundo digital de forma humana, como parte integrante da educação na fé e na vida boa do Evangelho. Devemos educar-nos para considerar o mundo digital como um novo continente a ser evangelizado, e que requer missionários generosos e maduros na fé» (MH 238).

Há uma geração inteira que mora no digital e que tem o direito de conhecer Jesus Cristo nesse espaço humano novo a que insistimos chamar de realidade virtual mas que, de facto, é o novo real para milhões de seres humanos. O Papa afirma-o ao dizer que o digital é parte integrante da vida boa do Evangelho e que constitui o mundo novo a ser evangelizado por missionários provados.

A missão no digital tem de ir além dos tiktoks e das postagens bonitas e beatas sobre Jesus e a fé cristã. Urge facilitar aos nativos do digital a experiência da liturgia, comunhão, serviço e testemunho – os quatro elementos fundamentais do acontecimento cristão – lá onde vivem, no vasto e complicado mundo digital. A Igreja 3.1, a Igreja eletrónica, é uma dimensão fundamental da missão hoje e um direito dos nativos do digital.



José Vieira é padre católico dos Missionário Combonianos.

in:

O Papa Leão XIV publicou recentemente a sua primeira carta encíclica com o título Magnifica humanitas (MH). Trata-se de um documento do âmbito da Doutrina Social da Igreja Católica, um hino que celebra a humanidade em todo o seu esplendor apesar dos desafios da cultura de poder (MH 188) que é ...

06/05/2026
ENCONTRO DIOCESANO DA PASTORAL SOCIALDilexi Te - O amor para com os pobresCONCLUSÕESDia e local: 21/03/2026. Centro Past...
10/04/2026

ENCONTRO DIOCESANO DA PASTORAL SOCIAL
Dilexi Te - O amor para com os pobres

CONCLUSÕES

Dia e local: 21/03/2026. Centro Pastoral Pio XII. Ponta Delgada

9h30: Acolhimento dos participantes

9h45: Sessão de abertura

O Sr. Luís Silva Melo, tesoureiro do Serviço Diocesano da Pastoral Social (SDPS), deu
início aos trabalhos, dando a palavra ao Sr. Padre Victor Arruda (assistente espiritual
do SDPS).

Antes da oração inicial, o Sr. Padre Victor Arruda falou-nos no seguinte:

Os padres da Igreja e os pobres; Uma forma de acesso a Deus. Expressão concreta
da Fé.

Cuidado dos Vulneráveis: A Bíblia coloca órfãos, viúvas, forasteiros/estrangeiros,
prisioneiros como grupos protegidos e amados por Deus, exigindo justiça e cuidado
para com eles.

Obras de Misericórdia: Dar de comer, vestir, cuidar dos doentes e visitar prisioneiros),
frequentemente salientadas na vida dos Santos.

O supérfluo dos ricos pertence aos pobres. Agostinho argumentava que acumular
mais do que o necessário para a subsistência (o "supérfluo" ou excesso), enquanto
outros passam fome, é reter bens que pertencem, por direito de necessidade, aos
necessitados. Dar aos pobres não é apenas um ato de generosidade opcional, mas
uma restituição de justiça.

(Nota da redatora: Agostinho vivia numa época de grandes disparidades sociais no
Império Romano e insistia que o amor ao próximo exigia a partilha dos bens materiais,
vendo os pobres como membros de Cristo.)

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Seguiu-se a Oração de Invocação ao Espírito Santo. (Nota da redatora: É, antes de
mais, um pedido de transformação interior. Um clamor à Terceira Pessoa da
Santíssima Trindade, para que traga luz onde há trevas, coragem onde há medo, e
amor onde há frieza).

Ainda antes do início da Ordem de Trabalhos, o Sr. Bispo de Angra, D. Armando
Esteves Domingues deixou uma palavra aos presentes. Não obstante se encontrar a
participar para escutar, não quis deixar de saudar todos os participantes do Encontro.

À margem do livro do Cardeal Carlo Maria Martini, um dos mais eminentes estudiosos
da Bíblia do século XX, foi apresentada a seguinte questão: Como Jesus geria o seu
dia-a-dia?

E a resposta é que Jesus tinha 5 prioridades na vida. A 1.ª é o serviço aos pobres (em
saúde ou outra) e marginalizados; seguida da pregação do Reino e da oração.

Jesus não se desculpou por não ter tempo para os mais desvalidos da sociedade. Só
lamentou não chegar a tempo.

(Nota da redatora: O cardeal Martini defendia que a Igreja só se renova se for guiada
pela Palavra de Deus, lida no coração, e não apenas por regras externas. Para
Martini, Jesus priorizou o amor concreto e a comunhão com Deus, um modelo que ele
considerava essencial para a Igreja moderna.)

Terminou endereçando os agradecimentos à organização do Encontro e aos oradores
convidados.
Os oradores tomaram os seus lugares na mesa.

10h15: 1.ª oradora. Prof. Doutora Piedade Lalanda

A pobreza nos Açores. Uma questão estrutural

(Nota da redatora: Excelente preleção que nos apresenta as causas estruturais da
pobreza, fundamentada, com dados estatísticos, desde os inícios da colonização dos
Açores, para chegarmos às principais dimensões estruturais do problema).

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"Pobre sempre tereis, mas nem sempre sereis".

A caridade e o serviço aos pobres (que representam o próprio Jesus na Terra) é uma
missão permanente. A frase não é uma justificativa para a pobreza ou um descaso
com os necessitados, mas sim um apelo para reconhecer Cristo nos mais pobres e um
chamamento ao serviço constante.

À semelhança de todos os problemas estruturais (complexos/multidimensionais), para
que consigamos desconstruí-los temos de identificar as diversas dimensões que
contribuem para a realidade da pobreza. Nenhum problema estrutural poderá ser
resolvido se o pretendermos fazê-lo como um todo. É preciso desmontar o problema
em estratégias para conseguir uma intervenção mais eficaz.

"Felizes os pobres em espírito pois deles é o reino dos céus". A pobreza de interior
que nos faz ver além das aparências. Então, o que é que temos verdadeiramente de
ver na pobreza, enquanto fenómeno social?

O Papa Leão XIV ainda é recente. Sabemos ainda muito pouco do seu pensamento. O
pensamento do Papa Francisco ainda está muito presente e ecoa entre nós.

Contudo, o Papa Leão XIV disse-nos: "Os pobres não são um passatempo para a
Igreja, mas os irmãos e irmãs mais amados", (porque cada um deles, com a sua
existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a
tocar com as mãos a verdade do Evangelho).

O cidadão comum sente-se mais à vontade sem os pobres. Os pobres "atrapalham".
Obrigam-nos a reconhecer a fragilidade humana.
Como agir? Primeiro, libertando-nos do preconceito que naturaliza a condição de
pobre. Depois, estar próximo de quem vive na pobreza. Ou seja, responder na
proximidade e com solidariedade ativa.

Os números (estatísticos) evidenciam a notável desigualdade na distribuição da
riqueza na Europa.

Coeficiente de Gini (Nota da redatora: medida estatística que avalia o grau de
desigualdade na distribuição de rendimento dentro de uma população; é usado

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mundialmente para comparar disparidades socioeconómicas). Nos Açores, o indicador
é 33,8% (o que revela maiores assimetrias entre os cidadãos do que no País).

(Nota da redatora: O rácio S80/S20 é um indicador de desigualdade que compara o
rendimento total dos 20% da população mais rica com os 20% mais pobres). Nos
Açores é 5,9%, o pior rácio do País.

A pobreza não é uma questão natural. É resultado do contexto social desfavorável em
que o pobre se encontra inserido. Logo, para reconhecer a pobreza é preciso não
esquecer como foi entregue a terra a poucos, para que outros (muitos) a
trabalhassem, ao tempo que remonta à nossa colonização.

Em 1970, dados como habitações com água canalizada, eletricidade ou mortalidade
infantil era, nos Açores, até 30 vezes pior do que em alguns países da Europa.

Novamente, para reconhecer é preciso olhar para as causas estruturais.

A) A pobreza é uma evidência quando olhamos a escolaridade da população.

Em 1970, 1/3 da população dos Açores era analfabeta. A taxa de escolarização do
País rondava os 25%. Um povo pouco instruído é mais fácil de manipular.

Em 2025, a taxa de abandono escolar precoce (que não termina o 12.º ano) é de
21,1% na Região, quando no País é de 6,1%. São jovens que saem do sistema
educativo sem ter completado o ensino obrigatório. Apesar de medidas como a Rede
Valorizar, esta franja terá muito maiores probabilidades de permanecer/vir a ser pobre
e excluído em adulto.
B) As famílias com crianças

Que tipo de famílias?

1. Famílias com crianças sofrem maior risco de pobreza. As crianças não são pobres.
A pobreza infantil revela que existem crianças que vivem em famílias que são pobres.

2. Famílias monoparentais. Os Açores têm a maior taxa de divórcio do País. Em 2025,
87,3% das famílias monoparentais são mulheres com filhos a seu cargo.

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3. Famílias numerosas, com 3 ou mais filhos a cargo.

C) Como vivem as famílias?

Em Portugal, habitações sobrelotadas, apresentam, frequentemente, severa privação
de condições estruturais e sanitárias, incluindo falta de casa de banho própria ou
digna, presença de humidade (infiltrações), falta de luz natural e incapacidade de
manter a casa aquecida. (Nota da redatora: Esta situação afeta a saúde, bem-estar e
conforto dos residentes).

D) A pobreza é uma evidência quando olhamos ao género de quem é pobre.

As mulheres são mais afetadas do que os homens por fenómenos de pobreza. E as
mulheres idosas estão ainda mais em risco de pobreza que as mulheres no geral.

E) A condição perante o trabalho e as condições de quem trabalha

A Região tem trabalhadores pobres (recebem menos de 632€/mês, que é o valor
monetário definido como limiar da pobreza em Portugal).

66% dos desempregados são pobres. (Nota da redatora: De entre os desempregados,
os que não recebem transferências sociais - subsídios - são os mais afetados).

Também a inatividade (domésticas, por exemplo) afeta a pobreza. (Nota da redatora:
A dedicação intensa a tarefas domésticas e ligadas ao cuidar, especialmente por
mulheres, é frequentemente apontada como uma das razões para a menor
participação no mercado de trabalho formal).
50% dos trabalhadores entre os 18 e os 24 anos têm contratos de trabalho precários
que não lhes garante estabilidade financeira futura para, por exemplo, constituir família
ou aumentar o número de filhos. Também são os mais pobres que trabalham mais.
Nalguns casos, 45h/semanais, mas com baixos rendimentos e muitas vezes de forma
descontínua, com períodos de inatividade (Nota da redatora: exemplo, os pescadores
quando as condições do mar não permitem trabalhar). 63% destes trabalhadores têm
uma escolaridade muito baixa. Também são os que têm profissões com mais riscos
laborais e doenças profissionais associadas.

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F) As condições habitacionais
A Região está acima da média nacional na sobrelotação das habitações, o que pode
ser um "subproduto" do turismo.

Em suma, a pobreza monetária nos Açores tem uma taxa de risco que é muito
suscetível às crises económicas. Além disso, não apresenta uma evolução contínua
de decréscimo, mas, pelo contrário, tem revelado constantes altos e baixos, pelo que
esta nova crise, derivada das guerras atualmente em curso, terá um forte impacto na
Região.

Acresce que as famílias, mesmo com rendimentos do trabalho, que não são
consideradas pobres, têm dificuldades em enfrentar uma despesa extra não prevista.

A situação seria muito agravada se não existissem as transferências sociais (Nota da
redatora: apoios sociais, subsídios, complementos e pensões) que minimizam as
consequências da pobreza. A taxa de risco de pobreza: é hoje de 17,3% mas se não
existissem apoios sociais seria de 40%.

Mas a nossa vulnerabilidade à pobreza reside na falta de solidariedade comunitária.

Mensagem final:
Quando fores trabalhar junto dos pobres não leveis nada a não ser uma enorme
capacidade de acolhimento... Tem de haver desprendimento... e não julgamento... a
caridade não se cobra...Não exige contrapartidas. Recebeste de graça, de graça dai.

10h40: 2.º orador. Padre José Júlio Rocha
(Nota da redatora: Quero destacar o quão impressionante foi, para mim, esta
apresentação. Nunca, até hoje, tinha presenciado um tão grande domínio da
autocrítica e da autoavaliação por parte de um clérigo da Igreja. De forma muito clara,
envolvente e genuína, a reflexão demonstrou maturidade, honestidade e um notável
espírito crítico.)

Bem vinda pobreza.

Existem dois tipos de pobreza, que distingue uma escolha existencial de uma condição
imposta. A diferenciação é crucial: a primeira é uma liberdade (uma escolha sobre

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como viver), enquanto a segunda é uma servidão (uma limitação da liberdade por
terceiros).

(Nota da redatora: Pobreza Voluntária (ou evangélica): É a escolha consciente de viver
com pouco, livre da "escravidão dos bens" materiais. Esta forma de pobreza é vista
como um modo de vida que liberta o ser humano da ganância e da dependência do
consumo, focando no que é essencial para a alma ou para a liberdade pessoal. E,
Pobreza Forçada (ou Pobreza como Exclusão): É a condição dos que são pobres por
falta de liberdade, vítimas da opressão, da exploração ou de estruturas sociais
injustas. Esta forma de pobreza é uma violação da dignidade humana, privando os
indivíduos de acesso a recursos básicos e oportunidades, transformando-os em
vítimas de um sistema).

Dilexi Te. Amar os pobres é o núcleo central da Igreja.

A figura de Jesus é o protótipo do pobre: sobriedade por escolha.

Também Jesus foi sem abrigo (quando Maria e José chegaram a Belém e Jesus
nasceu num estábulo porque não houve quem os acolhesse); foi refugiado no Egito e
foi imigrante.

Jesus resistiu às 3 tentações do deserto. Todas elas tentações de poder:
1.ª) Comprar seguidores pela sedução teria sido muito fácil.
2.ª) Milagre como espetáculo. Não fez milagres para que os crentes acreditassem,
mas os milagres aconteceram porque acreditaram.
3.ª) Poder da força. À tentação do poder pela imposição ao invés de pelo amor.
"Vim para servir; não para ser servido". E a importância dos "pequeninos" nos
Evangelhos.

Na última ceia, a encenação programática da sua Igreja. Como queria que fosse a
Igreja? Jesus ajoelhou-se e lavou os pés aos discípulos.

A Parábola do Juízo Final. (Nota da redatora: é uma das passagens mais solenes do
Novo Testamento, descrevendo a separação final entre justos ("ovelhas") e ímpios
("bodes") com base no amor prático e compaixão demonstrados aos necessitados.

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Esta passagem aborda o destino eterno, contrastando a vida eterna com o "castigo
eterno" ou "tormento eterno" (relatada em Mateus 25)).

"Pois eu tive fome, e vocês deram-me de comer; tive sede, e vocês deram-me de
beber; fui estrangeiro, e vocês me acolheram; necessitei de roupas, e vocês vestiram-
me; estive enfermo, e vocês cuidaram de mim; estive preso, e vocês visitaram-me". À
pergunta quando?, Jesus respondeu: "O que vocês fizeram a algum dos meus
menores irmãos, a mim o fizeram".

Não respondeu foi como se o tivessem feito a mim; mas antes como se lhe tivessem
feito diretamente a Ele.

O Espírito Santo nos Açores, 200 anos antes da Revolução Francesa, já aplicava na
Região os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Coroavam os mais
vulneráveis: a criança, o enfermo e o prisioneiro. Uma total inversão dos valores do
poder.

Antes de Constantino, quando os cristãos eram perseguidos, não havia pobres porque
todos eram pobres por escolha. Mas este princípio foi quebrado. A Igreja perdeu os
pobres.

Nada mais contra o Evangelho do que nomear de príncipes os bispos da Igreja.

O Concílio de Niceia (325 d.C.) foi convocado pelo imperador Constantino para
garantir a unidade do Império, lidando com a primeira grande crise de identidade da
Igreja. O Concílio de Niceia, ao estruturar a Igreja, permitiu que ela centralizasse e
organizasse a esmola e a assistência aos necessitados, inserindo a prática no
calendário litúrgico e doutrinário cristão.

(Nota da redatora: O Concílio impactou a caridade de várias maneiras:
- Organização da Assistência: a Igreja tornou-se uma instituição central na distribuição
de recursos. Os bispos ficaram encarregados de administrar os bens da Igreja, parte
dos quais era destinada aos pobres, órfãos e estrangeiros.
- Conexão com a Quaresma: Niceia consagrou os 40 dias da Quaresma como tempo
de preparação para a Páscoa, intensificando práticas penitenciais que incluem,
tradicionalmente, a oração, o jejum e a esmola.

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- A Pobreza como questão teológica: Após Niceia, a defesa da doutrina trinitária
desenvolveu-se, influenciando, no período subsequente, teólogos como Basílio de
Cesareia, que viam o cuidado com os pobres como uma obrigação teológica e moral,
e não apenas filantrópica.)

Referência crítica a tendências atuais no surgimento dos neocatólicos evangélicos de
extrema direita.

Não há pobres bons e pobres maus. Há pobres de amor. E os pobres já não precisam,
além de todas as suas dificuldades, de mais ódio nas suas vidas.

A verdadeira pastoral social faz-se na comunhão e na partilha todos os dias. Cada um
de nós é um programa de pastoral social. Toda a Igreja se deve debruçar sobre os
pobres em vez de dar prioridade a outras pastorais, como a catequese e a liturgia,
detidos em ritos.... Temos de regressar à Igreja primitiva. A igreja é toda pastoral
social.

A Igreja debate-se com problemas. A Igreja precisa de uma conversão estrutural e não
está preparada para o fazer... estaremos disponíveis para acolher o pobre que está no
Campo de São Francisco, que rouba para se drogar e encontrar nele o altar sagrado?
Não estamos...porque não o acolhemos como irmão... precisaríamos de mais 40
papas Francisco. Hoje, século XXI, os padres continuam em cima... a sinodalidade é a
forma concreta de por em prática o concilio Vaticano II.

Passo importante na nossa conversão pessoal: servir a Deus.

A desigualdade está a aumentar. O pobre não pode ser o objeto da minha esmola.
Quanto esforço custará à igreja retornar... quando o pobre for o altar da Igreja e não o
barroco ou o incenso... O serviço não se faz de esmolas, mas na comunhão e na
partilha de todos os dias! Os pobres são a maior riqueza da Igreja.

11h05: 3.ª oradora. Dra. Verónica Rego

(Nota da Redatora: Estruturou a sua apresentação partindo do geral - a segurança
social na Região -, para o particular, exemplificando com casos práticos a atuação dos
interventores sociais. Enalteceu o trabalho dos profissionais, não obstante as

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dificuldades que também eles enfrentam na falta de respostas suficientes para tantos
problemas complexos com os quais lidam diariamente).

Apresentou a natureza jurídica do Instituto de Ação Social dos Açores (ISSA, IPRA),
como um instituto público com autonomia administrativa e financeira, cuja tutela é a
Secretaria Regional da Saúde e Segurança Social.

Fez uma breve abordagem às atribuições gerais (prevista no Decreto Regulamentar
Regional n.º 2/2014/A, de 24 de janeiro), nomeadamente:
h) Assegurar o desenvolvimento de ações de natureza preventiva, terapêutica e
promocional, numa perspetiva integrada e tendencialmente personalizada para a
consecução dos objetivos da ação social;
i) Promover a mobilização de recursos da própria comunidade na prossecução das
ações a que se refere a alínea anterior;
j) Colaborar no estudo de medidas de política e intervenção social;
k) Celebrar acordos, contratos ou protocolos de cooperação;

Mostrou a estrutura orgânica do ISSA, IPRA e, em particular, do Departamento de
Ação Social (Dep.AS) cuja intervenção tem por destinatários o público alvo em análise;
bem como as competências do Dep.AS, as quais agregou nas seguintes dimensões:
Conhecer/Proteger/Integrar.

Falou-nos nas dificuldades na inserção de públicos em situação de exclusão.

Destacou, os pilares de intervenção, junto de indivíduos (crianças, jovens, adultos),
famílias e comunidades, seguintes:
- Saúde
- Educação
- Emprego
- Habitação
- Ação Social

A intervenção procura assegurar o acesso a um conjunto de direitos aos públicos mais
excluídos.

Terminou apresentando um conjunto de projetos e boas práticas locais (no concelho
da Ribeira Grande, onde exerce a sua atividade profissional), nomeadamente:

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- Sabes que dia é hoje?
- Oficinas de parentalidade positiva;
- Campos de férias com jovens;
- Ser para ter;
- ECOS;
- Despertares;
- Rede escolar de promoção da segurança infantojuvenil (REPSI).

"Enquanto a pobreza, a injustiça e a desigualdade persistirem, nenhum de nós pode,
verdadeiramente, descansar" (Nelson Mandela). (Nota da Redatora: Esta é uma
citação célebre de Nelson Mandela, proferida durante o seu discurso na Praça
Trafalgar, em Londres, em 2005. A frase sublinha a responsabilidade coletiva na luta
contra as injustiças sociais, destacando que a verdadeira paz e descanso só serão
possíveis quando a pobreza e a desigualdade forem erradicadas.)

11h30: Intervalo

11h40: Debate

(Nota da redatora: Respostas dos oradores às questões colocadas pela ausiência).

Padre José Júlio Rocha: "Vivemos o mundo que descartou para as periferias aquilo
que nos faz mal: os hospitais , as prisões, os sem abrigo... todos são a metáfora do
nosso comportamento... Falou de um cristianismo burguês... uma igreja ideal não
precisa de um serviço para a pastoral social... a Igreja tem um serviço da pastoral
social porque não está a fazer o que deve, cumprir o evangelho de Mateus 25... as
obras de misericórdia... todos os batizados deveriam ser especialistas... não somos
profissionais da pastoral social... A pobreza é uma dor. O que dói na dor é não ter um
ombro para chorar a dor. A nossa indiferença carrega mais..."

Prof. Doutora Piedade Lalanda: "Recuperou a imagem da Igreja que tinha os
benfeitores...A igreja que dava primazia aos mais ricos existiu e continua a existir mas
não combate a pobreza... a Igreja está presa a formas de estar em que a esmola
eleva-nos ao Céu... Se um empresário, um professor, um enfermeiro e um agente
social agir de forma diferente... Não podemos mudar o mundo. Mas olhar e ver.
Quebrar a barreira do formalismo. Não podemos apagar a nossa história, feita de
coisas boas e más, mas temos de iluminar o presente... Sentir o mundo e ser a

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resposta para alguém. Educar na arte de educar... Ter as antenas no ar... o que eu
sou capaz de fazer a diferença... os tais alguéns que não pedem ajuda... como nós
que muitas vezes...Isto não é pobreza envergonhada... é orgulho e pudor de expor as
fragilidades."

12h05: Encerramento pela Sra. Diretora do SDPS, Prof.ª Aldina Gamboa

A gratidão pela presença e a vossa presença é um pilar e um sinal de primavera...
brotar deste Encontro uma vida nova para a pastoral social e um novo compromisso...
saibamos estender a mão e abrir o coração... o mundo está a precisar de afeto e ele
não deve impedir-nos de intervir... Terminou salientando a riqueza do debate como um
grande contributo para a Pastoral Social.

12h15: Os trabalhos foram dados como encerrados.

Endereço

Ponta Delgada
9500

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