04/04/2026
Homilia de Sábado Santo
Há uma noite que atravessa toda a Escritura. Uma noite longa, feita de promessas e quedas, de fidelidade de Deus e de infidelidade do homem. As leituras que escutámos são como fragmentos dessa história: Deus cria o mundo e confia-o ao homem, e o homem perde-se; Deus chama Abraão e pede-lhe confiança, e o coração humano oscila entre fé e medo; Deus abre o mar para libertar o seu povo, e, pouco depois, esse mesmo povo murmura, esquece, volta atrás. É sempre a mesma história: Deus permanece fiel… e o homem tantas vezes não.
Mas, apesar de tudo, há uma linha que nunca se quebra. Deus não desiste. Mesmo quando o homem falha, mesmo quando se afasta, mesmo quando se perde, Deus continua a procurar, a chamar, a abrir caminhos onde parecia não haver saída. E esta noite — a noite santa da Vigília Pascal — é o momento em que percebemos que toda essa história não era apenas um conjunto de episódios dispersos, mas um caminho que conduzia a um ponto decisivo: a ressurreição de Cristo.
E, no entanto, o Evangelho começa ainda no escuro. “Depois do sábado, ao romper do primeiro dia da semana…” Ainda é madrugada, ainda há silêncio, ainda há peso no coração. As mulheres vão ao túmulo não para encontrar vida, mas para cuidar de um corpo morto. Levam consigo o luto, a desilusão, o fim de uma esperança. Para elas, tudo acabou. E talvez este seja o primeiro ponto que nos aproxima profundamente deste Evangelho: também nós conhecemos momentos assim, momentos em que parece que tudo terminou, em que aquilo em que acreditávamos se desmoronou, em que a esperança se tornou frágil. E é precisamente aí que Deus intervém.
São Mateus fala de um grande terramoto. Não é apenas um fenómeno natural; é um sinal. Algo está a mudar radicalmente. O anjo desce, remove a pedra, senta-se sobre ela. Aquilo que parecia fechado, definitivo, irreversível — abre-se. E a primeira palavra que ecoa é esta: “Não tenhais medo.” Porque a ressurreição começa por tocar o lugar mais profundo do coração humano: o medo.
O anjo diz: “Sei que procurais Jesus, o crucif**ado. Não está aqui; ressuscitou.” Esta frase é essencial. Não diz apenas “Jesus vive”, como se fosse uma ideia vaga; diz: “o crucif**ado ressuscitou.” Ou seja, aquele que sofreu, aquele que foi rejeitado, aquele que morreu na cruz — é o mesmo que agora vive. A ressurreição não apaga a cruz; transforma-a. E isto é decisivo para a nossa fé: Deus não elimina o sofrimento como se nunca tivesse existido; entra nele e abre-o à vida.
As mulheres partem com uma mistura de sentimentos que o evangelista descreve com uma beleza rara: “com temor e grande alegria.” Não é uma alegria superficial, fácil; é uma alegria que nasce no meio do espanto, quase tremida, ainda a tentar compreender o que aconteceu. E, no caminho, acontece o inesperado: Jesus vem ao encontro delas. Não esperam, não procuram — Ele toma a iniciativa.
E a primeira palavra de Jesus é simples: “Alegrai-vos.” Não é uma ordem pesada, não é uma exigência moral; é um convite que nasce da realidade nova que Ele traz. Depois, diz: “Não temais.” Como se soubesse que o coração humano precisa de tempo para acreditar que a morte não tem a última palavra.
Elas aproximam-se, abraçam-Lhe os pés, prostram-se. Este gesto é profundamente concreto. Não é uma visão distante, não é uma experiência espiritual vaga. É um encontro real. Tocam, reconhecem, adoram. E aqui está o centro de tudo: o cristianismo não nasce de uma ideia, mas de um encontro com um vivo. E, no entanto, este encontro não f**a fechado nelas. Jesus envia-as: “Ide anunciar aos meus irmãos…” A ressurreição não é algo para guardar; é algo para comunicar. Porque quando a vida vence a morte, não pode f**ar em silêncio.
E agora, inevitavelmente, este Evangelho desce à nossa vida. Também nós trazemos connosco noites. Noites de cansaço, de dúvidas, de perdas, de feridas que parecem não fechar. Também nós, muitas vezes, caminhamos como aquelas mulheres: com gestos de fidelidade, sim, mas com o coração pesado, sem esperar grande coisa. E é precisamente aí que este Evangelho nos encontra.
“Não está aqui.” Isto não é apenas sobre um túmulo em Jerusalém. É sobre todas as situações da nossa vida onde pensamos que tudo acabou. É sobre todas as pedras que julgamos definitivas. Deus continua a abrir caminhos onde nós vemos apenas fim. Mas há algo ainda mais exigente: reconhecer que Aquele que ressuscita é o mesmo que foi crucif**ado. Ou seja, que as nossas feridas, as nossas quedas, os nossos fracassos não são apagados magicamente, mas podem ser transformados. Nada, absolutamente nada, é tão perdido que Deus não possa tocar e renovar.
Talvez, no fundo, a pergunta desta noite seja simples e decisiva: acreditamos que a vida pode nascer onde parecia impossível? Acreditamos que Deus continua a agir, mesmo quando não vemos, mesmo quando não sentimos? Porque a ressurreição não é apenas um acontecimento do passado. É uma possibilidade aberta no presente. Uma possibilidade de recomeço, de transformação, de vida nova. E talvez o maior milagre desta noite não seja apenas que Cristo ressuscitou, mas que Ele continua a vir ao nosso encontro, a dizer-nos, como às mulheres: “Não temais… alegrai-vos.”
Porque, no fim de tudo, é isto que f**a: Deus é mais fiel do que a nossa infidelidade, mais forte do que a morte, mais persistente do que qualquer noite. E quem se deixa encontrar por Ele descobre que a última palavra nunca é o fim… mas a vida.