18/02/2026
“Convertei-vos e acreditai no Evangelho.”
CINZAS: O LUGAR DO RECOMEÇO
Na Quarta-feira de Cinzas, há sempre um banco lá no fundo.
Na penumbra.
Entre o desejo de ficar escondido e a necessidade de estar perto.
Nas igrejas a última fila é sempre disputada.
Talvez porque ali aprendemos uma verdade simples: estamos longe… mas tão perto.
Aproximamo-nos para receber um gesto mínimo — uma cruz traçada com cinzas na testa.
Tão leve.
Tão frágil.
E, no entanto, tão verdadeira.
“Convertei-vos e acreditai no Evangelho.”
Cinzas são restos do que ardeu.
Ramos que um dia foram festa, agora reduzidos ao essencial.
O que ontem foi aplauso, hoje é pó.
O que ontem foi entusiasmo, hoje pede verdade.
E isso não é derrota.
É purificação.
Há a criança que vai rindo e volta em silêncio.
Há a idosa que regressa com um sorriso sereno, como quem já aprendeu que da brasa nasce luz. Há cada um de nós — com culpas, medos, cansaços, mas também com sede de recomeçar.
As cinzas lembram-nos que somos frágeis.
Mas também lembram que aquilo que passa pelo fogo é transformado.
Quaresma não é espetáculo.
Não é provar nada a Deus.
É deixar Deus provar-nos no amor.
Jejuar não é apenas deixar de comer —
é jejuar do julgamento, da dureza, da pressa.
É escolher a compaixão.
Dar esmola não é dar o que sobra —
é dar-se. É permitir que o coração se desinstale.
Rezar não é fugir da vida —
é mergulhar nela com os olhos de Cristo.
As cinzas marcam-nos, mas não nos condenam. Elas dizem: muda de caminho.
Troca o coração de pedra por um coração de carne. Permite que o fogo queime o que é velho, para que o Espírito sopre o novo.
Quero ficar nu, Senhor.
Nu de orgulho.
Nu de ressentimento.
Nu de falsas seguranças.
Quero que, quando a morte chegar —
ou quando a vida exigir coragem —
me encontre leve como cinza ao vento,
mas firme na esperança.
Porque das cinzas nasce a maturação.
Do despojamento nasce a liberdade.
Da cruz nasce a Vida.
E há um banco lá no fundo onde hoje Cristo sofre connosco para que amanhã possamos alegrar-nos com Ele.
Cinzas não são o fim.
São o começo do fogo certo.