31/07/2026
Quando as mãos tremem
Hoje presenciei um momento duro de aceitar e delicado de partilhar.
Um senhor, no altar dos seus 80 anos, entrou numa pastelaria. Perdido na panóplia de nomes da vitrine, ficou encurralado pela pressa do mundo. Com a alma metida no fundo de um copo vazio, desabafou: “Olhe, dê-me um qualquer. E uma meia de leite.”
O funcionário foi impecável. Mas as mãos daquele homem tremiam. Eram mãos incertas, onde o vidro não assentava bem. Ao tentar deitar o açúcar, o equilíbrio rompeu-se: a chávena tombou, tingindo a mesa e a sua roupa com a mistura morna de leite e café.
Poderia acontecer a qualquer um de nós.
Mas o que me rasgou por dentro foi o silêncio que se seguiu.
Ele olhou para aquela mancha, mediu a própria impotência e, sem dizer palavra, deixou escapar uma lágrima e um olhar amargurado.
Isso sim, espinha a alma.
Ver um idoso chorar, com o peso dos anos a esmagar-lhe os ombros e as mãos inquietas de quem já tanto segurou a vida, obriga-nos a parar.
Obriga-nos a repensar tudo.
Foi limpar-se à casa de banho.
Quando voltou, com a dignidade remendada, pediu: “Por favor, mais uma meia de leite”.
Diante daquele cenário,
e na certeza absoluta de que um dia também as minhas mãos hão de tremer,
venci a hesitação.
Aproximei-me, meio envergonhado, e perguntei: “Posso sentar-me consigo?
“Claro que sim”, retorquiu.
E conversámos sobre a vida.
Disse-lhe o meu nome, partilhei o que fazia.
Ele contou-me que a solidão tinha raízes profundas: era viúvo e a sua única filha já tinha partido antes dele.
Aquela confissão colou-me à cadeira.
Ficámos ali.
Duas vidas separadas por quarenta anos, a tentar encurtar a distância do mundo através das palavras.
Despedimo-nos com o nó na garganta de quem sabe que recebeu uma lição invisível.
Passei o resto do dia assombrado por esta pergunta: o que será de mim quando o tempo me cobrar o corpo?
Quando chegar a minha vez, haverá algum estranho que escolha sentar-se comigo à mesa?
Pe. Tiago Alves