06/08/2026
«Este é o meu Filho, o Eleito: escutai-O.» (Lucas 9, 35)
A festa da Transfiguração do Senhor tem raízes muito antigas na tradição da Igreja. Os testemunhos mais antigos da sua celebração remontam ao início do século VI, na liturgia siro-oriental, estando provavelmente ligada à dedicação da igreja edificada no Monte Tabor, lugar que a tradição identifica como o cenário da Transfiguração de Jesus.
No Ocidente, a sua celebração difundiu-se progressivamente a partir do século X. Em 1457, o Papa Calisto III estendeu-a a toda a Igreja Latina e, mais tarde, o Missal Romano de São Pio V fixou definitivamente a sua celebração no dia 6 de agosto.
A liturgia desta festa convida-nos a subir espiritualmente ao monte com Pedro, Tiago e João. Ali, por um breve instante, o véu é levantado e os discípulos contemplam a glória de Cristo. Não se trata apenas de uma manifestação extraordinária do poder de Deus, mas da revelação da verdadeira identidade de Jesus: o Filho amado do Pai, Aquele em quem toda a esperança da humanidade encontra o seu cumprimento.
Do coração da nuvem luminosa faz-se ouvir uma voz que atravessa os séculos e chega também até nós: «Este é o meu Filho, o Eleito: escutai-O.» Não é apenas uma declaração sobre quem é Jesus; é um convite dirigido a cada discípulo. Antes de falar, de agir ou de decidir, somos chamados a escutar. A vida cristã começa sempre por esta atitude humilde de quem faz silêncio para acolher a Palavra que salva.
Vivemos rodeados de vozes que reclamam a nossa atenção: as preocupações do quotidiano, a agitação do mundo, os nossos receios e projetos. No meio desse ruído, a voz do Pai continua a indicar um único caminho: escutar o Filho. Escutá-Lo na Sagrada Escritura, na oração, na liturgia, nos acontecimentos da vida e até no rosto daqueles que mais necessitam da nossa presença.
A luz da Transfiguração não elimina a Cruz. Pelo contrário, prepara os discípulos para a atravessarem sem perder a esperança. Antes de descerem para Jerusalém, Jesus permite-lhes contemplar a meta do caminho: a glória que nasce do amor levado até ao fim. Também nós necessitamos destes momentos de Tabor, onde Deus fortalece a nossa fé e nos recorda que a última palavra nunca pertence à dor, ao fracasso ou à morte, mas à vida que brota da Ressurreição.
O Tabor não é um lugar onde nos instalamos, mas um lugar de transformação. Depois da contemplação, há sempre uma descida ao encontro da realidade. A luz recebida na intimidade com Cristo deve refletir-se nas palavras que pronunciamos, nas escolhas que fazemos e na forma como amamos. Quem verdadeiramente escuta o Senhor torna-se, pouco a pouco, transparente à sua luz.
Que esta festa da Transfiguração renove em nós o desejo de subir diariamente ao monte da oração, de permanecer na presença de Cristo e de O escutar com um coração dócil. Só assim poderemos descer às planícies da vida levando connosco a serenidade, a esperança e a luz daquele que é o Filho amado do Pai.