23/07/2026
Deixamos um texto que seria interessante os paroquianos lerem e refletirem, elaborado por um Padre dos nossos dias...
A DITADURA DO “PADRE PORREIRO”:
O MUNDANO A SERVIR-SE DO ALTAR
O catolicismo contemporâneo enfrenta uma crise silenciosa de identidade, visível na crescente predileção dos fiéis pelo chamado "padre porreiro". Este perfil de sacerdote, moldado pelo facilitismo e pela busca incessante de popularidade, inverte por completo a essência do sacerdócio. Se perguntássemos hoje aos fiéis qual é a missão da Igreja, e aos próprios padres se têm noção do que é essencial no seu ministério (salvar almas ou salvar o próprio pelo?), a resposta revelaria um abismo profundo entre a doutrina e a conveniência. Gosto de ler certos comentários elogiosos a estes sacerdotes: pela boca morre o peixe. São palavras que revelam a “qualidade espiritual” dos fiéis e põem a nu as verdadeiras prioridades do clero acomodado. O "padre porreiro" é aquele que abdica das orientações da diocese e da verdade evangélica para se transformar num mero prestador de serviços eufóricos, pautando-se por uma conduta clara:
BATISMOS À LA CARTE: O sacramento é reduzido a um ato burocrático e mercantil. Faz-se no dia e na hora que os pais querem. Porquê no Domingo, Dia do Senhor? “Os bispos andam malucos”. Chama-se "preparação" a uns meros quinze minutos de recolha de dados para o assento. Aceita-se todo o tipo de padrinhos sob a desculpa de "não julgar ninguém" ou recorrendo a declarações de honra vazias assinadas pelos próprios. É a atitude típica dos covardes que, apesar das orientações diocesanas claras, preferem ignorá-las. Importa apenas que, no fim, o serviço tenha rendido e as pessoas saiam satisfeitas.
CASAMENTOS COMO SALÕES DE FESTA: O templo é rebaixado a cenário fotográfico. Permite-se tudo: músicas vergonhosas e profanas, e convidados (sobretudo as senhoras) com indumentárias que desafiam o decoro, exibindo rachas que quase chegam à cabeça. Qualquer sujeito sobe ao ambão para proclamar a Palavra de Deus, porque o cuidado com os leitores não entra nas prioridades das festas sociais. Importa apenas que, no fim, o serviço tenha rendido e as pessoas saiam satisfeitas.
PROFANAÇÃO E MERCANTILIZAÇÃO DAS FESTAS: Os santos servem de pretexto para organizar arraiais profanos e sugar o dinheiro aos mais incautos. O "padre porreiro" despreza as normas da diocese para as festas religiosas. Aceita que indivíduos que não põem os pés na igreja o ano inteiro surjam a suar, de camisa aberta, a esganar-se debaixo de um andor como falsos mártires da fé. Não se importa que estoirem milhares de euros em foguetes e conjuntos musicais, desde que a sua parte financeira esteja garantida. O cúmulo do absurdo litúrgico atinge-se quando deixam o Santíssimo Sacramento exposto no altar para pegar num santo de madeira e ir para a rua cantar à Virgem. O Senhor espera e o povo adora. No fim, o sacerdote ainda agradece a "grande fé" daqueles festeiros (um desfile entre figurados e figurões), despedindo-se até ao ano seguinte. Um agradecimento hipócrita que serve apenas para justif**ar a percentagem que lhe cabe.
INDUSTRIALIZAÇÃO DA MISSA: Este perfil de sacerdote dispensa-se de celebrar à semana por falta de intenções pagas, resolvendo o problema ao acumular dezenas delas nas celebrações de sábado e domingo. Vale tudo, inclusive celebrar uma dezena de missas num único fim de semana sob o pretexto de que as pessoas não se podem deslocar à paróquia vizinha. E, pasme-se, o povo até tem pena do padre: “Coitadinho, trabalha tanto”. Não será antes “fatura tanto”! E trabalhar muito é trabalhar bem?
HOMILIAS VAZIAS E AUSÊNCIA DO EVANGELHO: O pecado, o Inferno, a vida eterna tornaram-se temas proibidos. Não se fala do Evangelho nem das suas exigências na vida dos discípulos de Cristo. Em vez disso, contam-se umas piadas para fazer rir o público e promovem-se celebrações "fora da caixa", em alguns casos divulgadas nas redes sociais! O pároco não se incomoda se as pessoas vivem em pecado permanente ou afastadas da vida cristã. Despacha-se o Mistério em 30 ou 40 minutos, até porque há outros clientes na fila de espera.
A hipocrisia deste sistema manifesta-se em toda a sua crueza quando se tenta restaurar a ordem. Se o Bispo cai na tentação ou na necessidade de mudar o "padre porreiro" para outra paróquia, a máscara da suposta religiosidade cai imediatamente. Num instante, aqueles "devotos" tão eufóricos transformam-se em lobos vorazes. Perdem a pressuposta fé, revoltam-se e atacam ferozmente o prelado, movidos pelo pânico de que o sucessor não seja tão “porreiro”. A sua fidelidade nunca foi a Cristo ou à Igreja, mas sim ao facilitismo que aquele homem lhes garantia.
Esta postura não representa zelo pastoral; é mundanismo puro. É a transformação da Igreja num balcão de negócios onde o sagrado é sacrif**ado em nome do entretenimento. Perante esta degradação, a resposta de quem recebeu o Sacramento da Ordem com retidão tem de ser firme e inequívoca: jamais serei um padre porreiro. Tenho plena consciência da minha missão e sinto vergonha daquilo em que a Igreja se está a transformar. Com este mundanismo espiritual, não contem comigo. Estou fora.
(P. António Magalhães Sousa)