26/05/2026
Homilia no Aniversário do Achamento das relíquias de Santa Filomena em Basílica dos Mártires
A Virgem Santíssima e Santa Filomena
Irmãs e Irmãos
No dia 24 de maio de 1802, nas catacumbas de Santa Priscila, em Roma, um arqueólogo que trabalhava nas escavações em curso, descobriu ossos que se concluiu serem de uma menina com idade entre os 13 e os 15 anos. O achado foi comunicado a Mons. Ponzetti, então Guardião das Santas Relíquias, que de imediato ordenou a suspensão dos trabalhos. No dia seguinte, 25 de maio de 1802, acompanhado pelo Padre Filipo Ludovici, desceu às catacumbas para assistir à completa abertura da sepultura. Lá, além das ossadas, foram encontrados uma ânfora contendo aquilo que parecia ser sangue seco, e uma palma, símbolos do martírio. A sepultura estava delimitada por três placas com a seguinte inscrição: “Lumena” (a primeira placa); “Paxte” (a segunda placa); “Cumfi” (a terceira placa). Aplicando os critérios usados, a leitura da inscrição era clara: “Filomena, a paz esteja contigo”. Assim, o nome de Filomena foi oficialmente atribuído pela Igreja à menina a quem pertenciam os despojos descobertos que, em 8 de junho de 1805, que Mons. Ponzetti enviou à Diocese de Nola, na Itália.
A comemoração do aniversário da descoberta das relíquias de Santa Filomena, que passou a celebrar-se a 25 de maio, coincide este ano, por ser a segunda feira a seguir ao Pentecostes, com a Memória da “Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja”. Esta celebração acontece desde 2018 por decisão do Papa Francisco, para nos “recordar que a vida cristã, para crescer, deve ser ancorada no mistério da Cruz, na oblação de Cristo(no convite eucarístico e na Virgem oferente, Mãe do Redentor e dos redimidos". Assim refere o Decreto da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que determina esta Memória da Virgem Santa Maria.
O evangelho da celebração, que acabámos de escutar, é de São João e narra o "testamento da Cruz" (Jo 19,25-27). Referindo-se a este episódio evangélico, o decreto destaca que a Virgem Maria "aceitou o testamento do amor do seu Filho e acolheu todos os homens, personificados no discípulo amado, como filhos que cuidará como filhos de Deus, tornando-se a amorosa Mãe da Igreja, que Cristo gerou na cruz, entregando o Seu Espírito". "Por sua vez, no discípulo amado, Cristo fez de todos os discípulos herdeiros do Seu amor para com a Mãe, confiando-a a eles para que a acolham com amor filial".
A circunstância referida de se juntarem, na mesma celebração, Nossa Senhora e Santa Filomena, permite-nos refletir um pouco na relação entre ambas.
Se Jesus não fosse verdadeiro Homem e Deus verdadeiro, que sentido teria a veneração à Virgem Santa Maria? Os autores do Novo Testamento e os padres da Igreja nascente vivem focados em Cristo, no Seu ministério, na Sua missão salvífica, na Sua natureza divina e humana.. Porém, a Mãe de Jesus sempre teve um lugar destacado relativamente à generalidade dos discípulos.
A mais antiga referência histórica à devoção mariana vem das catacumbas… As inscrições e a decoração dos túmulos cristãos, onde, não raro, surgem testemunhos de uma grande afeição a Maria, da esperança na sua intercessão e da confiança que advém do lugar que Ela ocupa no Céu. Já no primeiro século da era cristã se começou a representar Maria em afrescos nas paredes das catacumbas romanas: Algumas vezes, a representação é a da Mãe com seu amado Filho; em outras ocasiões, aparece sozinha, as mais das vezes em postura de oração; aparecem ainda representações da Anunciação e na Natividade.
Um dos afrescos mais importantes encontra-se nas catacumbas de Santa Inês, em Roma: Maria aparece de pé entre São Pedro e São Paulo, com os braços estendidos para ambos. A posição proeminente de Maria entre os dois, faz crer a que a Igreja apostólica já a entendia como mãe da Igreja. Na verdade, os primeiros cristãos não reconhecem apenas a existência histórica da Mãe de Jesus, mas reconhecem-na já como protetora e intercessora. Olhando-a como Mãe da Igreja, entendiam que ela estava associada a todos os cristãos, fazendo o que faria qualquer boa mãe, protegendo-os, ensinando-os e ajudando com a sua oração.
Os primeiros textos cristãos, incluindo alguns apócrifos, oferecem provas inequívocas sobre a veneração a Maria. O Protoevangelho de Tiago, escrito no século II, é um dos primeiros textos que faz referência à vida de Maria, descrevendo detalhadamente a sua infância, a consagração no Templo e o anúncio da sua virgindade. Ainda no século II, os padres da Igreja antiga começaram a apresentar Maria como "a nova Eva". São Justino Mártir (+165), o primeiro grande apologeta, usa aquela metáfora descrevendo Maria como a "virgem obediente" em contraposição a Eva, a "virgem desobediente": [O Filho de Deus] tornou-se homem por meio da Virgem, [para] que a desobediência instigada pela serpente pudesse ser destruída da mesma forma que foi originada... Eva, quando era uma virgem incorrupta, acreditou na mentira da serpente dizia; esse engano levou-a à desobediência e à morte. Por seu lado, a Virgem Maria cheia de fé e alegria, acreditou no feliz anúncio do Anjo Grabriel e, pelo Seu "sim", Cristo nasceu. Santo Irineu de Lyon (+202), outro grande defensor da ortodoxia cristã, também escreveu sobre Maria como a nova Eva que participou da obra salvífica de Cristo.
A mais antiga oração a Maria, remonta ao ano 250. É chamada de Sub tuum praesidium: "À vossa proteção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades; mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita. Amem."
Os primeiros cristãos sabiam que a mesma mulher que mimou o Menino Jesus, que O levantava quando caía e que segurou nos seus braços o Seu corpo crucificado, também os podia ajudar nas suas próprias tribulações espirituais e temporais. No período das perseguições do Império, Maria tornou-se, para os cristãos, um importante símbolo de resistência e esperança. A figura da Mãe que sofre pelo Filho crucificado ressoava profundamente entre os que estavam a enfrentar dificuldades. É vista como uma mãe que protege os seus filhos, por isso se recorre à sua intercessão; Aquela que esteve ao lado de Jesus na Paixão, também está presente junto daqueles que estão em provação; Maria é, enfim, um exemplo de força e a resiliência, encorajando os cristãos a permanecerem firmes na sua fé.
Santa Filomena terá nascido e sido martirizada na segunda metade do século terceiro. Na altura, ainda não havia igrejas erigidas em honra da Virgem Maria, ainda não se rezava o Terço, nem havia qualquer dogma mariano definido... Por certo, Filomena não conhecia os apócrifos, nem os escritos de São Justino e de Santo Ireneu; também não sabia de cor o Sub tuum praesidium... Mas amava muito Jesus a quem se havia consagrado. Por isso, no amor a Jesus, experimentava uma grande cumplicidade com Sua Mãe Santíssima. E Nossa Senhora não lhe faltou na provação... Na insalubre masmorra onde durante 40 dias esperou a consumação do Martírio, para ali jogada atada de pés e mãos, Santa Filomena teve a visão de Nossa Senhora com o Menino Jesus em seu colo que lhe disse:
"Minha filha, tu me és mais querida acima de todas, porque trazes o meu nome e o do meu Filho; Chamas-te Lumena; meu Filho e teu Esposo, chama-se Luz, Estrela, Sol; Eu chamo-me Aurora, Estrela, Luz, Sol. Serei o teu amparo. Agora é o momento transitório da fraqueza e da humilhação humanas; quando chegar, porém, a hora extrema do teu julgamento, da tua decisão ante os horríveis tormentos que te serão impostos, receberás a graça da divina força. Além do teu Anjo da Guarda, terás a teu lado o Arcanjo São Gabriel, cujo nome significa "Força do Senhor". Quando eu estava na terra era ele o meu protetor. Mandá-lo-ei agora àquela que é a minha mais querida filha".
A prova provada desta relação única entre Nossa Senhora e Santa Filomena têmo-la nós... Nossa Senhora dos Mártires, que quer por perto todos os seus amigos - entre os quais vós vos encontrais… - não descansou enquanto não trouxe para junto de si, Santa Filomena. Daqui, “a celestial Princesa”, através de nós, irradia para Portugal inteiro a devoção que ela espera dos amigos de Jesus e de Maria.
Depois dos tempos conturbados que, felizmente, já lá vão, "a devoção a Santa Filomena está viva e bem, e os peregrinos chegam em massa ao Santuário [de Mugnano del Cardinal] em certas datas significativas" reconhece o atual bispo de Nola, D. Francesco Marino, numa "Nota Pastoral sob o Culto a Santa Filomena", publicada no passado dia 20 de abril. Tão grande é o fluxo de devotos, que a "marca" Santa Filomena está de novo na moda; por isso estão a surgir um pouco por todo mundo, alguns de forma desordenada, congregações, confrarias e outros grupos que indevidamente se apropriam do nome de Santa Filomena, facto que na referida “Nota Pastoral” se lamenta, exigindo que, quem quer estar com a Igreja no apostolado de Santa Filomena, tenha o reconhecimento canónico da Diocese onde atua.
Sejamos nós, a partir da Basílica dos Mártires, sede espiritual do "Centro 10" da Arquiconfraria Universal de Santa Filomena, secular Instituição Pontifícia, no espírito do Santuário de Mugnano e de acordo com as orientações do bispo Francesco Marino, capazes de fomentar a devoção a Santa Filomena e congregar todos os devotos que o queiram fazer de uma forma organizada. Sabemos que neste apostolado podemos contar com a ajuda de Nossa Senhora… ou não se de Santa Filomena, a Filha querida de Jesus e Maria!
Basílica dos Mártires. 25 de maio de 2026
Cónego Armando Duarte