Obras Missionárias Pontifícias - Portugal

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XI DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)Ex 19, 2-6a; Sal 99; 2 Rm 5, 6-11; Mt 9, 36 - 10,8COMENTÁRIOO primeiro chamamento dos p...
12/06/2026

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)
Ex 19, 2-6a; Sal 99; 2 Rm 5, 6-11; Mt 9, 36 - 10,8

COMENTÁRIO

O primeiro chamamento dos primeiros missionários

O Evangelho deste domingo convida-nos a reflectir sobre a constituição do grupo dos Doze discípulos-apóstolos de Cristo, para os enviar em missão. Trata-se do primeiro chamamento dos primeiros missionários e, como tal, o episódio é rico em pormenores que, ainda hoje, são signif**ativos numa perspectiva missionária. Meditemos sobre os três aspectos mais importantes.

1. «Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão.» O coração compassivo de Jesus na origem da missão

O primeiro aspecto do relato evangélico sobre o qual convém reflectir é precisamente a anotação do evangelista sobre o estado de espírito de Jesus, do qual derivam as Suas acções posteriores: «Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão.» Recorde-se que, imediatamente antes, o evangelista Mateus sublinha que «Jesus percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino, e curando todas as doenças e enfermidades» (Mt 9, 35). O “ver as multidões” da parte de Jesus, por isso, não é o de alguém que se senta num lugar e observa as pessoas, mas o de alguém que «percorre todas as cidades..., ensinando..., pregando..., e curando todas as doenças e enfermidades.» Por outras palavras, trata-se do ver e do sentir de um missionário que, consciente do Seu “ter saído/ter sido enviado por Deus Pai” (cf. Mc 1, 38), sai/vai sempre ao encontro das pessoas, coloca-Se no seu meio e mergulha na sua vida. Por isso, a compaixão de Jesus pelas multidões não é um sentimento passivo e distante, mas é uma compaixão activa, que se traduz em compromissos concretos e incansáveis, para fazer com que todos experimentem as realidades do Reino de Deus. Vemos aqui em Jesus um coração compassivo que está na origem da Sua missão. Este coração será também um modelo para os discípulos de Jesus, que mais tarde serão escolhidos e enviados por Ele para colaborar na mesma missão divina.

A propósito do coração de Jesus e da missão, o Papa Francisco deixou-nos uma reflexão durante a sua audiência aos participantes da Assembleia Geral das Obras Missionárias Pontifícias, no Sábado, do dia 3 de Junho 2023, com as palavras muito actuais que agora citamos para uma meditação mais aprofundada sobre o tema, especialmente para aqueles que trabalham com as OMP:

O Coração de Jesus e a missão. Em primeiro lugar, ao contemplarmos o Coração de Cristo, descobrimos a grandeza do projecto do Pai para a humanidade. De facto, «tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o Seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que n’Ele crê não se perca, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16). No Coração trespassado do Crucif**ado, podemos descobrir a medida infinita do amor do Pai: Ele ama-nos com um amor eterno; chama-nos a ser Seus filhos e a partilhar a Sua alegria; vem à nossa procura, quando estamos perdidos; levanta-nos, quando caímos e faz-nos renascer da morte. É assim que o próprio Jesus nos fala do amor do Pai, por exemplo, quando afirma: «A vontade d’Aquele que Me enviou é esta: que Eu não perca nenhum daqueles que Ele Me deu» (Jo 6, 39).

Irmãos caríssimos, foi isto que Jesus nos mostrou toda a Sua vida: na compaixão pelos que estavam feridos, na comoção à vista do sofrimento, na misericórdia com que ungia os pecadores, na Sua imolação pelo pecado do mundo. Ele manifestou-nos o coração de Deus, como o de um Pai que sempre está à nossa espera, nos avista de longe, vem ao nosso encontro de braços abertos; um Pai que não afasta ninguém, mas a todos acolhe; não exclui ninguém, mas a todos chama. […]

Fomos enviados para continuar esta missão: ser sinal do Coração de Cristo e do amor do Pai, abraçando o mundo inteiro. Aqui encontramos a “coração” da missão evangelizadora da Igreja: chegar a todos com o dom do amor infinito de Deus, procurar a todos, acolher a todos, oferecer a vida por todos sem excluir ninguém. Todos. Esta é a palavra-chave. Quando o Senhor narra aquela festa de núpcias (cf. Mt 22, 1-14) que correu mal, porque os convidados não vieram: um, porque comprara uma vaca, outro porque tinha de viajar, o terceiro porque se tinha casado… Que diz o Senhor? Saí pelas encruzilhadas dos caminhos e convidai a todos, a todos: sãos e doentes, maus, bons, pecadores... todos. No coração da missão, está isto: aquele «todos». Sem excluir ninguém. Todos. Por conseguinte, cada uma das nossas missões nasce do Coração de Cristo, para deixar que Ele atraia todos a Si. Este é o espírito místico e missionário da Beata Paulina Maria Jaricot, fundadora da Obra da Propagação da Fé, que foi tão devota do Sagrado Coração de Jesus.

2. «Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua seara». A oração como primeira acção na missão

O segundo aspecto importante do Evangelho de hoje é precisamente a primeira recomendação de Jesus aos discípulos, quando sentiu compaixão pelas multidões «porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor»: «Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a Sua seara.» Mais uma vez f**a claro que a oração ocupa o primeiro lugar entre as actividades missionárias, como o Papa Francisco também reiterou na sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2022. Isto é mais do que lógico, porque Deus é “o Senhor da seara”, o dono da missão para a salvação da humanidade que Jesus realiza agora, na plenitude dos tempos, e depois confia aos Seus discípulos.

É de notar que a recomendação de rezar a Deus é dirigida aos discípulos e precede também a instituição dos doze “apóstolos”, ou seja, “enviados”. Isto parece realçar Deus como o verdadeiro protagonista de quem depende tudo na e da missão, incluindo a acção de Jesus de chamar os primeiros missionários, “trabalhadores para a Sua seara [de Deus]”. Por outro lado, enquanto os Doze são uma espécie de primícias dos discípulos-missionários, todos os discípulos de Jesus são convidados a participar na missão de Deus precisamente através da oração concreta pela “seara” e pela abundância de “operários”. Partilham, assim, a mesma preocupação, compaixão e paixão de Cristo pelo Reino, que é, na realidade, a do próprio Deus.

3. «Não sigais o caminho dos gentios... Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.» A preciosa primeira instrução missionária de Jesus e o Seu amor por Israel

Ao instituir os primeiros “apóstolos” e enviá-los em missão, Jesus dá-lhes a Sua primeira instrução missionária, que começa com uma recomendação surpreendente do ponto de vista da universalidade da missão: «Não sigais o caminho dos gentios... Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel.» Estas palavras devem ser entendidas no contexto global da Palavra de Deus na Escritura sobre o projecto divino de salvação para toda a humanidade. A vontade do Deus fiel e misericordioso é que «todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 4). O próprio Cristo, depois da ressurreição, enviará os Seus discípulos a todas as nações, a todos os povos (cf. Mt 18, 20), aliás, a todo o mundo para pregar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16, 15).

Por isso, a limitação das actividades dos apóstolos apenas às “ovelhas perdidas” de Israel, naquela primeira instrução missionária de Jesus, não pretende pôr limites à missão divina, mas antes sublinhar sobretudo a fidelidade absoluta e inabalável de Deus às promessas feitas ao Seu povo. Por outras palavras, no Seu inescrutável desígnio divino, prometido pelos profetas, Deus em Cristo, no fim dos tempos, ou seja, no tempo messiânico, vem salvar o Seu povo e, com ele, o mundo inteiro. Com efeito, Jesus reafirmará mais tarde a Sua clara consciência desta missão divina no diálogo com a mulher cananeia pagã (cf. Mt 15, 24: «Eu fui mandado somente às ovelhas perdidas do povo de Israel»), sem negar-lhe, porém, a graça divina que lhe foi concedida em resposta à sua fé. Israel estava, está e estará no coração de Deus, apesar de todos os seus pecados, infidelidades e rejeições, no passado, no presente e até no futuro (!), como Ele declarou com palavras verdadeiramente comoventes: «Amo-te com um amor eterno, e por isso, te outorguei os Meus favores. Reconstruir-te-ei, e serás restaurada, ó virgem de Israel» (Jer 31, 3-4; cf. também Is 49, 15: «Acaso pode uma mulher esquecer-se do menino que amamenta, não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela se esquecesse dele, Eu nunca te esqueceria.»).
Nesta perspectiva, os primeiros discípulos-apóstolos, ou seja, discípulos-missionários, são enviados a continuar a mesma missão de Jesus, que na realidade é a de Deus para a salvação do mundo, a partir de Israel. A eles, com efeito, é transferido o poder de Jesus sobre os espíritos e sobre “todas as doenças e enfermidades”, e são recomendadas as mesmas acções salvíf**as que Jesus, o Messias, realizou como sinal do tempo messiânico: «Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos e expulsai os demónios.» E tudo isto – volto a repeti-lo – deve ser feito tendo sempre presente no coração e na mente a preocupação pela salvação de Israel. A este propósito, eis o testemunho solene e ao mesmo tempo comovente de São Paulo, Apóstolo dos gentios: «Digo a verdade em Cristo, não minto, e disso me dá testemunho a minha consciência pelo Espírito Santo: tenho uma grande dor e um contínuo sofrimento no coração. Sim, eu gostaria de ser amaldiçoado e separado de Cristo em favor dos meus irmãos de raça e sangue. Eles são israelitas e possuem a adopção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; eles são os patriarcas e deles nasceu Cristo segundo a condição humana, que está acima de tudo. Deus seja bendito para sempre. Amén» (Rm 9, 1-5).
Que estas palavras encontrem eco e ressonância em cada discípulo-missionário de Cristo hoje. E que todos nós, discípulos modernos de Jesus, depois de reflectirmos sobre as Suas acções e recomendações no Evangelho de hoje, sintamos viva a solicitude divina pelos poucos trabalhadores nas Suas searas, para rezarmos mais e renovarmos a nossa vocação de continuar com maior zelo a missão de Deus em Cristo de levar o amor divino e a salvação a toda a humanidade, não esquecendo Israel, o povo eleito que Deus amou desde toda e por toda a eternidade.
Citações úteis:
Bento XVI, Mensagem para o 45° Dia Mundial de Oração pelas Vocações
13 DE ABRIL 2008 - IV DOMINGO DE PASCOA
Tema: «As vocações a serviço da Igreja-Missão»

Movia-se de compaixão pelo povo, porque, ao percorrer cidades e aldeias, via multidões cansadas e abatidas, “como ovelhas sem pastor” (cf Mt 9,36). Do seu olhar de amor brotava o convite aos discípulos: “Pedí ao Senhor da messe, que mande operários para sua messe” (Mt 9,38), enviando antes os Doze, com precisas instruções, “às velhas perdidas da casa de Israel”. Se nos detemos a meditar esta página do Evangelho de Mateus, conhecida comumente como “discurso missionário”, observamos todos aqueles aspectos que caracterizam a atividade missionária de uma comunidade cristã, que deseja ser fiel ao exemplo e ao ensinamento de Jesus. Corresponder ao chamado do Senhor supõe enfrentar cada perigo com prudência e simplicidade, e inclusive as perseguições, pois “um discípulo não é mais que seu mestre, nem um servo mais que o seu patrão” (Mt 10,24). Feitos uma coisa só com o Mestre, os discípulos não f**am sós para anunciar o Reino dos Céus, mas é o mesmo Jesus que age neles: “Quem vos acolhe, a mim acolhe; e quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou” (Mt 10, 40). Além disso, como verdadeiras testemunhas, “revestidos da força do alto” (Lc 24,49), estes pregam “a conversão e o perdão dos pecados” (Lc 24,47) a todos os povos.
3. Precisamente por terem sido enviados pelo Senhor, os Doze receberam o nome de “apóstolos”, chamados a percorrer os caminhos do mundo anunciando o Evangelho, como testemunhas da morte e ressurreição de Cristo. Escreve São Paulo aos cristãos de Corinto: “Nós – isto é os Apóstolos – anunciamos Cristo crucif**ado” (1Cor 1,23). Neste processo de evangelização, o Livro dos Atos dos Apóstolos considera também muito importante o papel de outros discípulos, cuja vocação missionária surge através circunstâncias provindenciais, às vezes dolorosas, como a expulsão da própria terra enquanto seguidores de Jesus (cf. 8,1-4). O Espírito Santo permite transformar esta prova em ocasião de graça, fazendo com que o nome do Senhor seja anunciado a outros povos, ampliando assim o círculo da comunidade cristã. Trata-se de homens e de mulheres que, como escreve Lucas no livro dos Atos, “arriscaram a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (15,26). O primeiro entre todos, chamado pelo Senhor mesmo para ser um verdadeiro Apóstolo, é, sem dúvida, Paulo de Tarso. A história de Paulo, o maior missionário de todos os tempos, descreve, em muitos aspectos, qual seja o nexo entre a vocação e a missão. Acusado pelos seus adversários de não ter sido autorizado para o apostolado, ele mesmo, repetidas vezes, apela ao chamado recebido diretamente pelo Senhor (cf. Rm 1,1; Gal 1,11-12.15-17).

Papa Francisco, Angelus, Praça São Pedro Domingo, 18 de julho de 2021

O estilo de Deus é proximidade, compaixão e ternura. Quantas vezes no Evangelho, na Bíblia, encontramos esta frase: “Teve compaixão”. Comovido, Jesus dedica-se às pessoas e recomeça a ensinar (cf. vv. 33-34). Parece uma contradição, mas na realidade não é. Na verdade, só o coração que não se deixa levar pela pressa é capaz de se comover, ou seja, de não se deixar arrebatar por si mesmo e pelas coisas a fazer, e de se dar conta dos outros, das suas feridas, das suas necessidades. A compaixão nasce da contemplação. Se aprendermos a descansar verdadeiramente, seremos capazes de autêntica compaixão; se cultivarmos um olhar contemplativo, levaremos a cabo as nossas atividades sem a atitude voraz de quem quer possuir e consumir tudo; se permanecermos em contacto com o Senhor e não anestesiarmos a parte mais profunda de nós mesmos, as coisas a fazer não terão o poder de nos tirar o fôlego nem de nos devorar. Necessitamos – prestai atenção a isto – necessitamos de uma “ecologia do coração”, que se compõe de descanso, contemplação e compaixão. Aproveitemos a temporada de verão para isto!

Bento XVI, Visita pastoral a Santa Maria di Leuca e Brindisi, Homilia, Domingo, 15 de Junho de 2008

Aos Doze ouvimo-lo Ele “deu o poder para expulsar os espíritos malignos e para curar qualquer espécie de doença e enfermidade” (Mt 10, 1). Os Doze deverão cooperar com Jesus na instauração do Reino de Deus, ou seja, o seu senhorio benéfico, portador de vida, e de vida em abundância para toda a humanidade. Em síntese a Igreja, como Cristo e juntamente com Ele, é chamada e enviada a instaurar o Reino da vida e a expulsar o domínio da morte, para que no mundo triunfe a vida de Deus, triunfe Deus que é Amor. Esta obra de Cristo é sempre silenciosa, não é espectacular; precisamente na humildade do ser Igreja, do viver o Evangelho todos os dias, cresce a frondosa árvore da verdadeira vida. Precisamente com estes inícios humildes o Senhor encoraja-nos porque, também na humildade da Igreja de hoje, na pobreza da nossa vida cristã, podemos ver a sua presença e ter assim a coragem de ir ao seu encontro e tornar presente nesta terra o seu amor, esta força de paz e de verdadeira vida.
Portanto, este é o desígnio de Deus: difundir na humanidade e no cosmos inteiro o seu amor gerador de vida. Não é um processo espectacular; é um processo humilde que, todavia, traz consigo a verdadeira força do futuro e da história. Por conseguinte, um projecto que o Senhor quer actuar no respeito pela nossa liberdade, porque o amor por sua natureza não pode ser imposto. Então a Igreja é, em Cristo, o espaço de acolhimento e de mediação do amor de Deus. Nesta perspectiva manifesta-se claramente como a santidade e a missionariedade da Igreja constituem dois lados da mesma medalha: somente enquanto santa, ou seja, repleta do amor divino, a Igreja pode cumprir a sua missão, e é precisamente em função de tal tarefa que Deus a escolheu e santificou como sua propriedade. Portanto, o nosso primeiro dever, precisamente para curar este mundo, é o de ser santos, em conformidade com Deus; deste modo, de nós emana uma força santif**adora e transformadora que age também sobre os outros, sobre a história. […]
A este respeito, é útil reflectir que os doze Apóstolos não eram homens perfeitos, escolhidos pela sua irrepreensibilidade moral e religiosa. Eram crentes, sim, cheios de entusiasmo e de zelo, mas ao mesmo tempo marcados pelos seus limites humanos, às vezes até graves. Portanto, Jesus não os chamou porque já eram santos, completos, perfeitos, mas para que tal se tornassem, para que fossem transformados, para mudar desse modo também a história. Tudo como para nós. Como para todos os cristãos. Na segunda Leitura, ouvimos a síntese do Apóstolo Paulo: “Deus demonstra o seu amor para connosco, porque Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5, 8). A Igreja é a comunidade dos pecadores que acreditam no amor de Deus e se deixam transformar por Ele, e assim tornam-se santos, santif**am o mundo. […]
Só pode ser a de Jesus: o estilo da “compaixão”. O Evangelista frisa-o, chamando a atenção para o olhar que Cristo dirige às multidões: “Vendo as multidões ele escreve Jesus teve compaixão, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9, 36). E, depois da chamada dos Doze, reaparece esta atitude no mandato que Ele lhes dá de se dirigirem “às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 10, 6). Nestas expressões sente-se o amor de Cristo pela sua gente, especialmente pelos pequeninos e pelos pobres. A compaixão cristã nada tem a ver com o pietismo, com o assistencialismo. Pelo contrário, é sinónimo de solidariedade e de partilha, e é animada pela esperança. Não nasce porventura da esperança a palavra que Jesus dirige aos Apóstolos: “Ide e anunciai: “O Reino do Céu está próximo”“ (Mt 10, 7)? É uma esperança que se fundamenta na vinda de Cristo, e que em última análise coincide com a sua Pessoa e com o seu mistério de salvação onde Ele é o Reino de Deus, é a novidade do mundo como bem recordava no título o quarto Congresso eclesial italiano, celebrado em Verona: Cristo ressuscitado é a “esperança do mundo”.

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (ANO A) Dt 8, 2-3. 14b-16a; Sal 147; 1 Cor 10, 16-17; Jo 6, 51-58COMEN...
03/06/2026

SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO (ANO A)
Dt 8, 2-3. 14b-16a; Sal 147; 1 Cor 10, 16-17; Jo 6, 51-58

COMENTÁRIO
Eucaristia – “fonte e ápice da vida e da missão da Igreja”

«A festa do Corpus Christi convida-nos todos os anos a renovar o enlevo e a alegria por esta maravilhosa dádiva do Senhor, que é a Eucaristia», recordou-nos o Papa Francisco durante o Angelus, na Praça de S. Pedro, no Domingo, 23 de Junho de 2019. Celebramos, portanto, com alegria esta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, logo após a celebração da solenidade da Santíssima Trindade. Desta sequência emerge a Eucaristia como «dom gratuito da Santíssima Trindade», como o Papa Bento XVI escreveu na sua Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis precisamente “sobre a eucaristia fonte e ápice da vida e da missão da Igreja”, tal como expresso no título da exortação. Convido todos a relerem este belo documento para uma devida revisão e aprofundamento do mistério eucarístico (talvez consultando também o Catecismo da Igreja Católica a este respeito). Aqui, poderíamos deter-nos sobre três aspectos interessantes numa perspectiva missionária.

1. «Eu sou o pão vivo que desceu do céu».
O pão “completo” oferecido por JesusEsta declaração de Jesus («Eu sou o pão vivo que desceu do céu») faz parte do seu longo discurso após a multiplicação dos pães. Deve ser lembrado que a multiplicação do pão é enquadrada no contexto da incansável missão de Jesus em favor do Reino de Deus. Tudo começa com a bela acção de acolhimento, um sinal de amor sem limites, ao ponto de Se esquecer de Si próprio para servir os outros (cf. Lc 9,10-11). Tanto é assim que a passagem paralela no Evangelho de Marcos explicita que, Jesus, «ao sair, viu uma numerosa multidão e compadeceu-Se profundamente deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas» (Mc 6, 34).Além disso, como é sublinhado no relato lucano, antes de alimentar o povo com pão, Jesus ensinou-lhes as coisas de Deus até ao declinar do dia! Deste modo, naquele dia memorável, o pão que Ele partilhou com a multidão não era apenas o pão material de cevada ou de trigo, mas também e sobretudo o pão da Palavra de Deus. Jesus cuidou de modo “completo” do povo, dando-Se a Si próprio na missão. O mesmo acontece com o “pão eucarístico” que Jesus oferece com a instituição da Eucaristia, quando chegou a sua “hora”. Será o pão do Seu corpo e o sangue da Sua carne «pela vida do mundo» (Jo 6, 51), mas ao mesmo tempo será também o pão do ensinamento d’Ele, a Palavra de Deus, que tem «palavras de vida eterna», como se vislumbra no longo Discurso Eucarístico de Jesus, após a multiplicação do pão no Evangelho de João (cf. Jo 6, 26-58. 68). Este é o pão “completo” que Jesus amavelmente oferece para a salvação do mundo.A este respeito, é indicativa a reflexão do Papa Bento XVI:Na Eucaristia, Jesus não dá «alguma coisa», mas dá-Se a Si mesmo; entrega o Seu corpo e derrama o Seu sangue. Deste modo dá a totalidade da Sua própria vida, manifestando a fonte originária deste amor: Ele é o Filho eterno que o Pai entregou por nós. Noutro passo do evangelho, depois de Jesus ter saciado a multidão pela multiplicação dos pães e dos peixes, ouvimo-l’O dizer aos interlocutores que vieram atrás d’Ele até à sinagoga de Cafarnaum: «Meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão que vem do céu. O pão de Deus é o que desce do céu para dar a vida ao mundo» (Jo 6, 32-33), acabando por identif**ar-Se Ele mesmo – a Sua própria carne e o Seu próprio sangue – com aquele pão: «Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne que Eu darei pela vida do mundo» (Jo 6, 51). Assim Jesus manifesta-Se como o pão da vida que o Pai eterno dá aos homens (Sacramentum Caritatis 7).

2. O Pão de Jesus e a missão da comunidade dos crentes.
Voltando ao relato evangélico da multiplicação do pão, notamos que a missão de Jesus foi uma missão partilhada com os apóstolos. Eles, que já colaboravam com Jesus na proclamação do Reino e no cuidado dos doentes, seriam também chamados a cooperar com Ele no milagre do pão no final do dia. Com efeito, quando quiseram mandar embora a multidão para ir “procurar alimento”, «Jesus disse-lhes: “Dai-lhes vós de comer.”» Além disso, os apóstolos são convidados a mandar sentar o povo “em grupos de cinquenta”, organizando-os tal como no momento da viagem do Povo de Deus no deserto (cf. Ex 18, 21. 25). Ainda mais importante, é que são precisamente os discípulos que receberão de Jesus os pães e os peixes para os distribuirem pela multidão: «Então Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou sobre eles a bênção. [literalmente, “abençoou-os”]. Depois partiu-os e deu-os aos discípulos, para eles os distribuírem pela multidão» (Lc 9, 16). Por fim, na menção de que «ainda recolheram doze cestos dos pedaços que sobraram», pode-se intuir que terão sido estes discípulos a recolhê-los (como explicitado no Evangelho de João [cf. Jo 6, 12-13]). Como na multiplicação do pão, Jesus envolveu os Seus discípulos, o mesmo aconteceu no Mistério Eucarístico com a ordem explícita: «Fazei isto em memória de Mim.» Aliás, esta recomendação é repetida duas vezes no relato de São Paulo sobre a instituição da Eucaristia, depois das palavras sobre o pão e das palavras sobre o vinho. Deste modo, São Paulo concluiu o seu relato conciso com uma observação valiosa sobre a dimensão da proclamação de Cristo que anda de mãos dadas com a participação na Eucaristia: «Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).E eis uma bela reflexão de Bento XVI precisamente sobre a Eucaristia e a missão da comunidade dos fiéis:Com efeito, não podemos reservar para nós o amor que celebramos neste sacramento [da Eucaristia]: por sua natureza, pede para ser comunicado a todos. Aquilo de que o mundo tem necessidade é do amor de Deus, é de encontrar Cristo e acreditar n’Ele. Por isso, a Eucaristia é fonte e ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão: «Uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária.» Havemos, também nós, de poder dizer com convicção aos nossos irmãos: «Nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos, para que estejais também em comunhão connosco» (1 Jo 1, 2-3). Verdadeiramente não há nada de mais belo do que encontrar e comunicar Cristo a todos! Aliás, a própria instituição da Eucaristia antecipa aquilo que constitui o cerne da missão de Jesus: Ele é o enviado do Pai para a redenção do mundo (Jo 3, 16-17; Rm 8, 32). Na Última Ceia, Jesus entrega aos Seus discípulos o sacramento que actualiza o sacrifício que Ele, em obediência ao Pai, fez de Si mesmo pela salvação de todos nós. Não podemos abeirar-nos da mesa eucarística sem nos deixarmos arrastar pelo movimento da missão que, partindo do próprio Coração de Deus, visa atingir todos os homens; assim, a tensão missionária é parte constitutiva da forma eucarística da existência cristã (Sacramentum Caritatis 84).

3. «Ite, missa est».
Vá levar Cristo a todos!Tendo em conta as palavras de São Paulo aos Coríntios na segunda leitura, vale a pena recordar o importante esclarecimento do Papa sobre a natureza da proclamação cristã que parte da participação no Mistério Eucarístico:Sublinhar a ligação intrínseca entre Eucaristia e missão faz-nos descobrir também o conteúdo supremo do nosso anúncio. Quanto mais vivo for o amor pela Eucaristia no coração do povo cristão, tanto mais clara lhe será a incumbência da missão: levar Cristo; não meramente uma ideia ou uma ética n’Ele inspirada, mas o dom da Sua própria Pessoa. Quem não comunica a verdade do Amor ao irmão, ainda não deu bastante. A Eucaristia enquanto sacramento da nossa salvação chama-nos assim, inevitavelmente, à unicidade de Cristo e da salvação por Ele realizada a preço do Seu sangue. Por isso, do mistério eucarístico acreditado e celebrado nasce a exigência de educar constantemente a todos para o trabalho missionário, cujo centro é o anúncio de Jesus, único Salvador. Isto impedirá de confinar, em chave meramente sociológica, a obra decisiva de promoção humana que todo o processo de evangelização autêntico sempre implica (Sacramentum Caritatis 86).Por fim, será também útil para nós uma outra reflexão do Pontífice no mesmo documento sobre a saudação de despedida no final da celebração eucarística:Depois da bênção, o diácono ou o sacerdote despede o povo com as palavras «Ide em paz e o Senhor vos acompanhe», tradução aproximada da fórmula latina: Ite, missa est. Nesta saudação, podemos identif**ar a relação entre a Missa celebrada e a missão cristã no mundo. Na antiguidade, o termo «missa» signif**ava simplesmente «despedida»; mas, no uso cristão, o mesmo foi ganhando um sentido cada vez mais profundo, tendo o termo «despedir» evoluído para «expedir em missão». Deste modo, a referida saudação exprime sinteticamente a natureza missionária da Igreja (Sacramentum Caritatis 51).Rezemos, pois, em conclusão, para que, tal como o Papa Bento XVI o expressou, «Por intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, o Espírito Santo acenda em nós o mesmo ardor que experimentaram os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) e renove na nossa vida o enlevo eucarístico pelo esplendor e a beleza que refulgem no rito litúrgico, sinal ef**az da própria beleza infinita do mistério santo de Deus» (Sacramentum Caritatis 97). Rezemos para que todos nós possamos acolher sempre com alegria e gratidão o dom do Pão “completo” que Jesus nos oferece em cada Celebração Eucarística, o Pão da Sua Palavra e do Seu Corpo e Sangue, a fim de o partilharmos com os outros na nossa vida, proclamando a morte e ressurreição do Senhor, «até que Ele venha».

Citações úteis:
PAPA LEÃO XIV, Viagem Apostólica à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial (13 - 23 de abril de 2026), Santa Missa, Homilia, Estádio de Malabo, Quinta-feira, 23 de abril de 2026[…] Como afirma Cristo: «Só aquele que vem de Deus viu o Pai» (cf. Jo 6, 46). No Filho, o próprio Pai manifesta a sua glória: Deus deixa-se ver, ouvir e tocar. Através dos gestos de Jesus, o Redentor, Ele dá plenitude ao que sempre fez: dar vida. Ele cria o mundo, salva-o e ama-o para sempre. Aos que o escutam, Jesus recorda um sinal desta constante providência: «Os vossos pais comeram o maná no deserto, mas morreram» (v. 49). Refere-se desta forma à experiência do Êxodo: um caminho de libertação da escravidão, que se tornou, porém, uma errância extenuante, com duração de quarenta anos, porque o povo não acreditou na promessa do Senhor, chegando mesmo a sentir saudades do Egito (cf. Ex 16, 3). Sob o jugo do Faraó, realmente, o povo comia os frutos da terra; Deus, pelo contrário, condu-los ao deserto, onde o pão só pode vir da sua providência. O maná é, portanto, uma prova, uma bênção e uma promessa, que Jesus vem realizar. A esse antigo sinal sucede agora o sacramento da Aliança nova e eterna: a Eucaristia, pão consagrado por Aquele que desceu do céu para se tornar o nosso alimento. Se aqueles que comeram o maná «morreram» (Jo 6, 49), quem come este pão vive para sempre (cf. v. 51), porque Cristo está vivo! Ele é o Ressuscitado e continua a dar a sua vida por nós.Através do êxodo definitivo que é a Páscoa de Jesus, todos os povos são libertados da escravidão do mal. Enquanto celebramos este acontecimento de salvação, o Senhor chama-nos a uma escolha decisiva: «Aquele que crê tem a vida eterna» (v. 47). Em Jesus, é-nos dada uma possibilidade surpreendente: Deus entrega-se por nós. Creio que o seu amor é mais forte do que a minha morte? Ao decidir acreditar n’Ele, cada um de nós escolhe entre um desespero certo e uma esperança que Deus torna possível. Assim, a nossa fome de vida e justiça encontra saciedade na palavra de Jesus: «O pão que Eu hei de dar pela vida do mundo é a minha carne» (v. 51).Obrigado, Senhor! Nós vos louvamos e vos bendizemos, porque quisestes tornar-vos para nós Eucaristia, pão da vida eterna, para que pudéssemos viver para sempre. […]
PAPA FRANCISCO, Mensagem para o Dia Mundial das Missões de 2023, 22 de Outubro de 2023,Corações ardentes, pés ao caminho (cf. Lc 24, 13-15) 2. Olhos que «se abriram e O reconheceram» ao partir o pão. Jesus na Eucaristia é ápice e fonte da missão.Os corações ardentes pela Palavra de Deus impeliram os discípulos de Emaús a pedir ao misterioso Viandante que f**asse com eles ao cair da noite. E, encontrando-se ao redor da mesa, os seus olhos abriram-se e reconheceram-No, quando Ele partiu o pão. O elemento decisivo que abre os olhos dos discípulos é a sequência de ações efetuadas por Jesus: tomou o pão, pronunciou a bênção, partiu-o e deu-lho. São gestos comuns de qualquer chefe de família judia, mas, realizados por Jesus Cristo com a graça do Espírito Santo, renovam para os dois comensais o sinal da multiplicação dos pães e sobretudo da Eucaristia, o sacramento do Sacrifício da cruz. Mas, precisamente no momento em que reconhecem Jesus n’Aquele-que-parte-o-pão, «Ele desapareceu da sua presença» (Lc 24, 31). Este facto faz compreender uma realidade essencial da nossa fé: Cristo que parte o pão, torna-Se agora o Pão partido, partilhado com os discípulos e depois consumido por eles. Tornou-Se invisível, porque agora entrou dentro do coração dos discípulos para fazê-los arder ainda mais, impelindo-os a retomar sem demora o seu caminho para comunicar a todos a experiência única do encontro com o Ressuscitado! Assim, Cristo ressuscitado é Aquele-que-parte-o-pão e, simultaneamente, o Pão-partido-para-nós. E, por conseguinte, cada discípulo missionário é chamado a tornar-se, como Jesus e n’Ele, graças à ação do Espírito Santo, aquele-que-parte-o-pão e aquele-que-é-pão-partido para o mundo.A propósito, é preciso ter presente que, se o simples repartir o pão material com os famintos em nome de Cristo já é um acto cristão missionário, quanto mais o será o repartir o Pão eucarístico, que é o próprio Cristo? Trata-se da ação missionária por excelência, porque a Eucaristia é fonte e ápice da vida e missão da Igreja.[…]Para dar fruto, devemos permanecer unidos a Ele (cf. Jo 15, 4-9). E esta união realiza-se através da oração quotidiana, particularmente na adoração, no permanecer em silêncio diante do Senhor, que está connosco na Eucaristia. Cultivando amorosamente esta comunhão com Cristo, o discípulo missionário pode tornar-se um místico em acção. Que o nosso coração anele sempre pela companhia de Jesus, suspirando conforme o ardente pedido dos dois de Emaús, sobretudo ao entardecer: «Fica connosco, Senhor!» (cf. Lc 24, 29).

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