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XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A) 1 Rs 19, 9a. 11-13a; Sal 84; Rm 9, 1-5; Mt 14, 22-33COMENTÁRIOCom Cristo para caminha...
03/08/2026

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)
1 Rs 19, 9a. 11-13a; Sal 84; Rm 9, 1-5; Mt 14, 22-33

COMENTÁRIO

Com Cristo para caminhar de novo sobre o mar

Seguindo Jesus na Sua missão, segundo o que nos conta o evangelista S. Mateus, chegámos, com o Evangelho de hoje, a um episódio peculiar: Jesus caminha sobre as águas do mar revolto. Para além do carácter miraculoso do acontecimento em si, a narrativa evangélica parece querer transmitir-nos algumas mensagens importantes para a vida dos discípulos missionários de Cristo hoje. Para uma reflexão aprofundada, é preciso ter em conta pelo menos três pormenores significativos.

1. O contexto temporal na perspectiva pascal: o passeio no mar depois da multiplicação dos pães

Antes de mais, é preciso recordar o contexto temporal do episódio evangélico de hoje, indicado no Leccionário pela frase: «Depois de ter saciado a fome à multidão». O que é narrado imediatamente a seguir é, portanto, posterior à multiplicação dos pães. Note-se que esta sucessão de eventos é relatada não só nos evangelhos sinópticos (Mateus e Marcos), mas também no de João (que segue uma tradição diferente). E é precisamente este último que sublinha a perspectiva pascal da multiplicação dos pães, explicitando o contexto temporal do acontecimento: «Estava próxima a Páscoa» (Jo 6, 4). Deste modo, somos convidados a mergulhar no clima da Páscoa que celebra a saída do Povo de Deus do Egipto, através de grandes e terríveis sinais e prodígios, como o dom do maná no deserto e, naturalmente, a memorável travessia do Mar Vermelho, mais tarde cantada pelo Salmista com as inspiradas palavras indicativas: «Viram-Te as águas, ó Deus;/ viram-Te as águas e tremeram / e até os abismos do mar se agitaram./ Pelo mar foi o Teu caminho, / e o Teu percurso, pelas águas caudalosas...» (Sal 77, 17. 20). Acrescente-se que, segundo a tradição bíblico-judaica, só Deus é que domina o mar e caminha sobre as ondas (cf. Jb 9, 8).

Nesta perspectiva, o facto de Jesus caminhar sobre o lago de Genesaré (habitualmente também chamado mar [da Galileia] devido à sua grande dimensão, como no Evangelho de hoje [cf. Mt 4, 18; 15, 29]), deve ser contemplado precisamente como a actualização da manifestação de Deus omnipotente sobre as águas do mar durante o Êxodo do antigo povo eleito. Tanto assim é que Jesus tranquiliza os discípulos assustados com a frase «Tende confiança. Sou Eu. Não temais!», na qual a afirmação literal “Eu sou” (ego eimi, no original grego) parece não só afirmar a identidade de quem fala, mas também ecoar deliberadamente o próprio nome do Deus do Êxodo (cf. Ex 3, 14). A própria sequência das acções de Jesus parece indicar um movimento divino descendente (de cima para baixo): primeiro, Ele estava no monte, sozinho, para rezar (ou seja, estava com Deus) e depois, de lá, dirige-Se para junto dos discípulos no mar agitado. Tudo isto para sublinhar que agora, com Jesus, o Filho de Deus, e na Sua pessoa, se realiza para o Povo de Deus o novo caminho do Êxodo sobre o mar.

2. «Jesus obrigou...». A acção significativa de Jesus para os discípulos

O contexto temporal apenas mencionado do episódio, com a sua perspectiva pascal global da missão de Jesus, ajuda-nos a compreender em profundidade uma acção aparentemente estranha de Jesus para com os discípulos, no início do relato, após a multiplicação dos pães: «Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-l’O na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão.» A partir do verbo “obrigar”, utilizado para definir este acto de Jesus, podemos imaginar que os discípulos quiseram permanecer no lugar “glorioso” da multiplicação dos pães, quando, segundo o relato do Evangelho de João, no final do milagre o povo queria proclamar Jesus como seu rei (Jo 6, 14-15). O comportamento de Jesus é, por isso, muito significativo naquele momento e altamente parenético para os discípulos chamados à mesma missão do Mestre. Por um lado, Jesus parece querer ensinar os Seus discípulos a ter bem claro o objectivo da missão, a Sua e a deles, que não é receber a glória terrena dos homens, mas cumprir simples e fielmente o plano divino para a salvação do mundo. Com efeito, o próprio Jesus, mais tarde, retira-se sozinho para o monte para rezar, ou seja, para louvar a Deus e voltar a consultá-l’O a Ele que é fonte e origem da Sua missão. Por outro lado, os discípulos tinham sido obrigados a subir de novo para o barco «e a esperá-l’O na outra margem». Assim, podemos vislumbrar uma importante mensagem espiritual numa perspectiva missionária: aos discípulos de Jesus é pedido que nunca se detenham nos vários “sucessos” missionários, mas que sigam sempre em frente, isto é, que continuem sempre a missão com coragem até à realização final da salvação de toda a humanidade nos mistérios pascais do Senhor. Não a glória terrena, mas o projecto divino. Nunca parar para regozijar-se com o que se conseguiu fazer, mas remar sempre em frente na missão, mesmo com o vento contrário, para realizar ainda mais o projecto de Deus em Cristo. E neste caminho dos discípulos, mesmo que por vezes, como neste caso no Mar da Galileia, o Senhor os deixe fisicamente sozinhos para “subir ao monte” e estar com Deus, Ele permanece misticamente junto deles com a mente e com o coração para os socorrer sempre atempadamente nas suas necessidades.

3. Um “primeiro plano” interessante de Jesus e Pedro no mar e uma lição de fé no meio das tempestades

Neste contexto teológico-espiritual insere-se o “primeiro plano” (close-up) de Jesus e Pedro, para usar uma expressão cinematográfica. É uma inserção original do evangelista Mateus, que quer assim deixar aos leitores/ouvintes de todos os tempos uma lição de fé no meio das tempestades. Pedro podia andar sobre as ondas, por vontade de Jesus, mas, curiosamente, «sentindo a violência do vento» começou a afundar-se. Enquanto Pedro não se importou com o vento que fazia e manteve o seu olhar fixo apenas em Jesus, para quem Pedro se dirigia, não houve problema. Pedro começou a afundar-se no momento em que prestou demasiada atenção ao vento que o rodeava e deixou de olhar para o seu Mestre. Esta é a lição de fé para todo o discípulo-missionário de Cristo no meio das tempestades: basta fixar o olhar em Jesus, para continuar a caminhar com Ele sobre as ondas revoltas que nos rodeiam. A recomendação do autor sagrado da Carta aos Hebreus aos primeiros cristãos, que estavam a viver um momento de crise, parece ir nesta linha:

Por conseguinte, também nós, que estamos envolvidos por uma tal nuvem de testemunhas, pondo de parte tudo o que nos estorva e o pecado que facilmente nos assedia, corramos com perseverança na prova que temos diante de nós, tendo os olhos postos em Jesus, que é a origem da nossa fé e quem leva à perfeição. Ele, renunciando à alegria que tinha ao Seu alcance, suportou a cruz, desprezando a ignomínia, e está sentado à direita do trono de Deus. Tende, pois, no vosso pensamento, Aquele que, por parte dos pecadores, tanta oposição suportou em relação a Si, a fim de que as vossas almas não se deixem abater pelo desânimo (Heb 12, 1-3).

O final deste “primeiro plano” do episódio evangélico sublinha mais uma vez a necessidade de olhar sempre para Jesus, sobretudo para aqueles que correm perigo de vida. Pedro, que começava a afundar-se, grita «Salva-me, Senhor!» e volta o olhar para o Seu Mestre e Salvador. Então, como diz o evangelista, «Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o.» Assim, a acção de Jesus reflecte o gesto poderoso de Deus que estende a Sua mão para salvar os necessitados que a Ele recorrem em situações desesperadas. E a repreensão de Jesus a Pedro, nesse momento, confirma a perspectiva de fé em que o evangelista insiste: «[Jesus] disse-lhe: “Homem de pouca fé, porque duvidaste?”»

Rezemos para que estas palavras de Jesus, bem como todo o relato evangélico, hoje, sejam uma constante recordação e uma lição para todos nós, actuais discípulos de Cristo, na vida de fé e no caminho da missão no mundo contemporâneo, onde os ventos contrários parecem intensificar-se cada vez mais. Tenhamos presente o que o Papa Francisco afirmou com fé na sua Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2023:

Hoje como então, o Senhor ressuscitado está próximo dos Seus discípulos missionários e caminha a par deles, sobretudo quando se sentem frustrados, desanimados, temerosos perante o mistério da iniquidade que os rodeia e quer sufocá-los. Por isso, «não deixemos que nos roubem a esperança!» (Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 86). O Senhor é maior do que os nossos problemas, sobretudo quando os encontramos ao anunciar o Evangelho ao mundo, porque esta missão, afinal, é d’Ele e nós somos simplesmente os Seus humildes colaboradores, «servos inúteis» (cf. Lc 17, 10).

Citações úteis:
PAPA LEÃO XIV, Viagem apostólica à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial (13-23 de abril de 2026), Homilia, Aeroporto de Yaoundé-Ville, Sábado, 18 de abril de 2026

[…] Para a tradição judaica, as “águas”, com a sua profundidade e o seu mistério, evocam frequentemente o mundo dos infernos, o caos, o perigo, a morte. Evocam, a par das trevas, as forças do mal, que o homem, por si só, não pode dominar. Ao mesmo tempo, porém, na memória dos prodígios do Êxodo, são também percebidas como um lugar de passagem, uma travessia através da qual Deus, com poder, liberta o seu povo da escravidão.
No seu navegar ao longo dos séculos, a Igreja enfrentou, tantas vezes, tempestades e “ventos contrários”; e também nós podemos identificar-nos com os sentimentos de medo e dúvida que os discípulos experimentaram durante a travessia do lago de Tiberíades. É o que sentimos nos momentos em que, oprimidos por forças adversas, nos parece que estamos a submergir, quando tudo parece ser sombrio e nos sentimos sozinhos e fracos. Mas não é assim. Jesus está sempre connosco, mais forte do que qualquer poder do mal; em cada tormenta, Ele chega até nós e repete: “Eu estou aqui contigo: não tenhas medo”. Por isso, levantamo-nos após cada queda e não nos deixamos deter por nenhuma tempestade, mas seguimos em frente, com coragem e confiança, sempre. E é graças a Ele que, como dizia o Papa Francisco, tantos «homens e mulheres […] honram o nosso povo, honram a nossa Igreja […]: fortes ao levar em frente a própria vida, a própria família, o seu trabalho, a sua fé» (Catequese, 14 de maio de 2014, 2). […].

PAPA FRANCISCO, Viagem Apostólica a Portugal por ocasião da ###VII Jornada Mundial da Juventude, Vésperas com os Bispos, os Sacerdotes, os Diáconos, os Consagrados, as Consagradas, os Seminaristas e os Agentes da Pastoral, Homilia, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, Quarta-feira, 2 de Agosto de 2023
[…] Como os jovens que aqui vêm de todo o mundo para desafiar as ondas gigantes, façamo-nos ao largo também nós sem medo. Sim! Não temamos enfrentar o mar alto, porque no meio da tempestade e dos ventos contrários, Jesus vem ao nosso encontro e diz: «Coragem, sou Eu, não temais!» (Mt 14, 27). Quantas vezes já tivemos esta experiência? Cada qual se interpele dentro de si mesmo. E se não a tivemos é porque algo falhou durante a tempestade. […]
Queridos irmãos e irmãs, digo a todos, leigos, religiosos, religiosas, sacerdotes, bispos, a todos, a todos: não tenhais medo, lançai as redes. Não vivais acusando «isto é pecado, isso aí não é pecado». Vinde todos… depois falamos. Mas, primeiro, devem sentir o convite de Jesus, depois virá o arrependimento e enfim a proximidade com Jesus. Por favor, não transformeis a Igreja numa alfândega: aqui entram os justos, os que cumprem as regras, os que estão bem casados… todos os outros ficam de fora. Não. A Igreja não é isto. Justos e pecadores, bons e maus, todos, todos, todos (têm lugar nela). O Senhor ajudar-nos-á depois a resolver este assunto. Mas (a Igreja é para) todos.
PAPA FRANCISCO, Mensagem para o 57° Dia Mundial de Oração pelas Vocações, (3 de Maio de 2020)
«As palavras da vocação»

Então escolhi quatro palavras-chave – tribulação, gratidão, coragem e louvor – para agradecer aos sacerdotes e apoiar o seu ministério. […]
Assim, a primeira palavra da vocação é gratidão. Navegar pela rota certa não é uma tarefa confiada só aos nossos esforços, nem depende apenas dos percursos que escolhemos fazer. […] pelo contrário, trata-se, antes de mais nada, da resposta a uma chamada que nos chega do Alto. É o Senhor que nos indica a margem para onde ir e, ainda antes disso, dá-nos a coragem de subir para o barco; e Ele, ao mesmo tempo que nos chama, faz-Se também nosso timoneiro para nos acompanhar, mostrar a direcção, impedir de encalhar nas rochas da indecisão e tornar-nos capazes até de caminhar sobre as águas tumultuosas. […]

Quando os discípulos vêem aproximar-Se Jesus caminhando sobre as águas, começam por pensar que se trata dum fantasma e assustam-se. Mas, Jesus imediatamente os tranquiliza com uma palavra que deve acompanhar sempre a nossa vida e o nosso caminho vocacional: «Coragem! Sou Eu! Não temais!» (Mt 14, 27). Esta é precisamente a segunda palavra que gostaria de vos deixar: coragem.

Frequentemente aquilo que nos impede de caminhar, crescer, escolher a estrada que o Senhor traça para nós são os fantasmas que pululam nos nossos corações. […]

O Senhor sabe que uma opção fundamental de vida – como casar-se ou consagrar-se de forma especial ao Seu serviço – exige coragem. Ele conhece as interrogações, as dúvidas e as dificuldades que agitam o barco do nosso coração e, por isso, nos tranquiliza: «Não tenhas medo! Eu estou contigo». […]

[…] Falei também da tribulação, que aqui gostaria de especificar concretamente como fadiga. Toda a vocação requer empenhamento. O Senhor chama-nos, porque nos quer tornar, como Pedro, capazes de «caminhar sobre as águas», isto é, pegar na nossa vida para a colocar ao serviço do Evangelho, nas formas concretas que Ele nos indica cada dia e, de modo especial, nas diferentes formas de vocação laical, presbiteral e de vida consagrada. À semelhança do Apóstolo, porém, sentimos desejo e ardor e, ao mesmo tempo, vemo-nos assinalados por fragilidades e temores.

Se nos deixarmos arrastar pelo pensamento das responsabilidades que nos esperam […] ou das adversidades que surgirão, bem depressa desviaremos o olhar de Jesus e, como Pedro, arriscamo-nos a afundar. Pelo contrário a fé permite-nos, apesar das nossas fragilidades e limitações, caminhar ao encontro do Senhor Ressuscitado e vencer as próprias tempestades. […]

Por fim, quando Jesus sobe para o barco, cessa o vento e aplacam-se as ondas. É uma bela imagem daquilo que o Senhor realiza na nossa vida e nos tumultos da história, especialmente quando estamos a braços com a tempestade: Ele ordena aos ventos contrários que se calem, e então as forças do mal, do medo, da resignação deixam de ter poder sobre nós. […]

E então a nossa vida, mesmo no meio das ondas, abre-se ao louvor. Esta é a última palavra da vocação, e pretende ser também o convite a cultivar a atitude interior de Maria Santíssima: agradecida pelo olhar que Deus pousou sobre Ela, superando na fé medos e perturbações, abraçando com coragem a vocação, Ela fez da sua vida um cântico eterno de louvor ao Senhor.

PAPA FRANCISCO, Angelus, Praça de São Pedro, Domingo, 13 de Agosto de 2017
[…] Esta narração do Evangelho contém um simbolismo rico e faz-nos reflectir sobre a nossa fé, quer como indivíduos quer como comunidade eclesial […] A barca é a vida de cada um de nós, mas é também a vida da Igreja; o vento contrário representa as dificuldades e as provações. A invocação de Pedro: «Senhor, manda-me ir ter contigo!» e o seu grito: «Salva-me, Senhor!» assemelham-se ao nosso desejo de sentir a proximidade do Senhor, mas também o medo e a angústia que acompanham os momentos mais difíceis da nossa vida e das nossas comunidades, marcadas por fragilidades internas e dificuldades externas.
Naquele momento a Pedro não foi suficiente a palavra segura de Jesus, que era como uma corda estendida na qual segurar-se para enfrentar as águas hostis e turbulentas. Isto pode acontecer também a nós. Quando não nos agarramos à palavra do Senhor […]. Significa que a fé não é tão firme. O Evangelho de hoje recorda-nos que a fé no Senhor e na sua palavra não nos abre um caminho onde tudo é fácil e tranquilo; não nos livra das tempestades da vida. A fé oferece-nos a segurança de uma Presença, a presença de Jesus, que nos impele a superar os temporais existenciais, a certeza de uma mão que nos segura a fim de nos ajudar a enfrentar as dificuldades, indicando-nos a estrada inclusive quando está escuro. A fé não é um subterfúgio para os problemas da vida, mas apoia no caminho, dando-lhe sentido. […]

PAPA FRANCISCO, Angelus, Praça de São Pedro, Domingo, 10 de Agosto de 2014
[…] Também a cena final é muito importante. «Assim que entraram no barco, o vento cessou. Então, aqueles que estavam no barco prostraram-se diante d’Ele e disseram: “Tu és verdadeiramente o Filho de Deus!”» (vv. 32-33). No barco encontram-se todos os discípulos, irmanados pela experiência da debilidade, da dúvida, do medo e da «pouca fé». No entanto, quando Jesus volta àquele barco, o clima muda imediatamente: todos se sentem unidos na fé que têm n’Ele. Todos, pequenos e medrosos, tornam-se grandes no momento em que se põem de joelhos, reconhecendo no Seu Mestre o Filho de Deus. Quantas vezes também connosco acontece a mesma coisa! Sem Jesus, longe de Jesus, sentimo-nos amedrontados e inadequados, e chegamos a pensar que não aguentaremos. Falta a fé! Mas Jesus está sempre ao nosso lado, talvez escondido, mas sempre presente e pronto para nos segurar.
Eis uma imagem eficaz da Igreja: um barco que deve enfrentar as tempestades e às vezes parece que está prestes a sucumbir. Aquilo que a salva não são as qualidades nem a coragem dos seus homens, mas a fé, que permite caminhar até no meio da escuridão, entre as dificuldades. A fé confere-nos a segurança da presença de Jesus sempre ao nosso lado, da sua mão que nos segura para nos proteger do perigo. Todos nós estamos neste barco, e aqui sentimo-nos seguros, não obstante os nossos limites e as nossas debilidades. […]

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)Is 55, 1-3; Sl 144; Rm 8, 35. 37-39; Mt 14, 13-21COMENTÁRIOO pão divino no caminho e...
30/07/2026

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)
Is 55, 1-3; Sl 144; Rm 8, 35. 37-39; Mt 14, 13-21

COMENTÁRIO

O pão divino no caminho e a Eucaristia celebrada

Neste tempo de férias, a Palavra de Deus deste domingo faz-nos voltar a escutar o relato da multiplicação dos pães segundo São Mateus, para recordar a cada um de nós esse supremo dom divino: o verdadeiro alimento que sempre nos acompanha e nos sustenta no caminho da vida, também nos dias do nosso descanso de verão. Meditando sobre o Evangelho de hoje, podemos deter-nos em três aspetos interessantes numa perspetiva missionária, seguindo o fio lógico de alguns detalhes característicos do relato evangélico.

1. O contexto «missionário» da multiplicação dos pães

O relato da multiplicação dos pães encontra-se nos quatro Evangelhos (sinal de uma antiga tradição comum) e representa uma espécie de «antecipação» da instituição da Eucaristia por parte de Jesus durante a Última Ceia, como sugerem os próprios evangelistas.
Todo o acontecimento se situa no contexto da missão de pregação e de cura de Jesus. Como sublinha São Mateus no início do relato, Jesus tinha previsto um tempo para se retirar «à parte», deixando entender que seria juntamente com os apóstolos. Contudo, perante as multidões que «O seguiram», Ele renunciou ao seu próprio descanso. Mais ainda, «cheio de compaixão, curou os seus doentes». A este respeito, vêm-me à mente as palavras do profeta de Deus, cheio de zelo pela salvação do povo: «Por amor de Sião não me calarei, / e por amor de Jerusalém não descansarei, / até que saia a sua justiça como um resplendor / e a sua salvação como uma tocha acesa» (Is 62, 1). Estas palavras encontram agora a sua plena realização em Jesus.

2. O pão “completo” oferecido por Jesus

A missão então de proclamar o Evangelho, mesmo num tempo “inoportuno”, para usar a expressão de São Paulo, continua, apesar do cansaço físico. A multiplicação dos pães é, assim, enquadrada neste contexto da incansável missão de Jesus em favor do Reino de Deus. E tudo começa com o belo gesto de acolhimento, sinal de amor sem limites, a ponto de Se esquecer de Si mesmo para servir os outros. Tanto é assim que a passagem paralela no Evangelho de Marcos explicita, como em São Mateus, que Jesus, «ao sair, viu uma numerosa multidão e compadeceu-Se profundamente deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor, e começou a ensinar-lhes muitas coisas» (Mc 6, 34).
Além disso, como é sublinhado no relato lucano, antes de alimentar o povo com pão, Jesus ensinou-lhes as coisas de Deus, até ao declinar do dia! Deste modo, naquele dia memorável, o pão que Ele partilhou com a multidão não era apenas o pão material de cevada ou de trigo, mas também e sobretudo o pão da Palavra de Deus. Jesus cuidou de modo “completo” do povo, dando-Se a Si próprio na missão.
O mesmo acontece com o “pão eucarístico” que Jesus oferece com a instituição da Eucaristia, quando chegou a Sua “hora”. Será o pão do Seu corpo e o sangue da Sua carne «pela vida do mundo» (Jo 6, 51), mas ao mesmo tempo será também o pão do Seu ensinamento, a Palavra de Deus, Ele que tem «palavras de vida eterna», como se vislumbra no longo Discurso Eucarístico de Jesus, após a multiplicação dos pães no Evangelho de João (cf. Jo 6, 26-58. 68). Este é o pão “completo” que Jesus amavelmente oferece para a salvação do mundo.

3. O Pão de Jesus e a missão da comunidade dos crentes

Voltando ao relato evangélico da multiplicação dos pães, notamos que a missão de Jesus foi uma missão partilhada com os apóstolos. Eles, que já colaboravam com Jesus na proclamação do Reino e no cuidado dos doentes, seriam também chamados a cooperar com Ele no milagre do pão, no final do dia. Com efeito, quando quiseram mandar embora a multidão para ir “procurar alimento”, «Jesus disse-lhes: “Dai-lhes vós de comer.”». Ainda mais importante, são precisamente os discípulos que receberão de Jesus os pães e os peixes para os distribuírem à multidão. Por fim, na menção «dos pedaços que sobraram, encheram doze cestos», pode-se intuir que terão sido estes discípulos a recolhê-los (como explicitado no Evangelho de João [cf. Jo 6, 12-13]).
Como na multiplicação dos pães, Jesus envolveu os Seus discípulos, o mesmo aconteceu no Mistério Eucarístico com a ordem explícita: «Fazei isto em memória de Mim.» Aliás, esta recomendação é repetida duas vezes no relato de São Paulo, depois das palavras sobre o pão e das palavras sobre o vinho. Deste modo, São Paulo concluiu o seu relato conciso com uma observação valiosa sobre a dimensão da proclamação de Cristo que anda de mãos dadas com a participação na Eucaristia: «Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha» (1 Cor 11, 26).
E eis uma bela reflexão de Bento XVI precisamente sobre a Eucaristia e a missão da comunidade dos fiéis:

Com efeito, não podemos reservar para nós o amor que celebramos neste sacramento [da Eucaristia]: por sua natureza, pede para ser comunicado a todos. Aquilo de que o mundo tem necessidade é do amor de Deus, é de encontrar Cristo e acreditar n’Ele. Por isso, a Eucaristia é fonte e ápice não só da vida da Igreja, mas também da sua missão: «Uma Igreja autenticamente eucarística é uma Igreja missionária.» Havemos, também nós, de poder dizer com convicção aos nossos irmãos: «Nós vos anunciamos o que vimos e ouvimos, para que estejais também em comunhão connosco» (1 Jo 1, 2-3). Verdadeiramente não há nada de mais belo do que encontrar e comunicar Cristo a todos! Aliás, a própria instituição da Eucaristia antecipa aquilo que constitui o cerne da missão de Jesus: Ele é o enviado do Pai para a redenção do mundo (Jo 3, 16-17; Rm 8, 32). Na Última Ceia, Jesus entrega aos Seus discípulos o sacramento que actualiza o sacrifício que Ele, em obediência ao Pai, fez de Si mesmo pela salvação de todos nós. Não podemos abeirar-nos da mesa eucarística sem nos deixarmos arrastar pelo movimento da missão que, partindo do próprio Coração de Deus, visa atingir todos os homens; assim, a tensão missionária é parte constitutiva da forma eucarística da existência cristã (Sacramentum Caritatis, 84).

Tendo em conta as palavras de São Paulo aos Coríntios na segunda leitura, vale a pena recordar o importante esclarecimento do Papa sobre a natureza da proclamação cristã que parte da participação no Mistério Eucarístico:

Sublinhar a ligação intrínseca entre Eucaristia e missão faz-nos descobrir também o conteúdo supremo do nosso anúncio. Quanto mais vivo for o amor pela Eucaristia no coração do povo cristão, tanto mais clara lhe será a incumbência da missão: levar Cristo; não meramente uma ideia ou uma ética n’Ele inspirada, mas o dom da Sua própria Pessoa. Quem não comunica a verdade do Amor ao irmão, ainda não deu bastante. A Eucaristia enquanto sacramento da nossa salvação chama-nos assim, inevitavelmente, à unicidade de Cristo e da salvação por Ele realizada a preço do Seu sangue. Por isso, do mistério eucarístico acreditado e celebrado nasce a exigência de educar constantemente a todos para o trabalho missionário, cujo centro é o anúncio de Jesus, único Salvador. Isto impedirá de confinar, em chave meramente sociológica, a obra decisiva de promoção humana que todo o processo de evangelização autêntico sempre implica (Sacramentum Caritatis, 86).

Por fim, será também útil para nós uma outra reflexão do Pontífice no mesmo documento sobre a saudação de despedida no final da celebração eucarística:

Depois da bênção, o diácono ou o sacerdote despede o povo com as palavras «Ide em paz e o Senhor vos acompanhe», tradução aproximada da fórmula latina: Ite, missa est. Nesta saudação, podemos identificar a relação entre a Missa celebrada e a missão cristã no mundo. Na antiguidade, o termo «missa» significava simplesmente «despedida»; mas, no uso cristão, o mesmo foi ganhando um sentido cada vez mais profundo, tendo o termo «despedir» evoluído para «expedir em missão». Deste modo, a referida saudação exprime sinteticamente a natureza missionária da Igreja (Sacramentum Caritatis, 51).

Rezemos, pois, em conclusão, para que, tal como o Papa Bento XVI o expressou, «Por intercessão da bem-aventurada Virgem Maria, o Espírito Santo acenda em nós o mesmo ardor que experimentaram os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35) e renove na nossa vida o enlevo eucarístico pelo esplendor e a beleza que refulgem no rito litúrgico, sinal eficaz da própria beleza infinita do mistério santo de Deus» (Sacramentum Caritatis, 97). Rezemos para que todos nós possamos acolher sempre com alegria e gratidão o dom do Pão “completo” que Jesus nos oferece em cada Celebração Eucarística, o Pão da Sua Palavra e do Seu Corpo e Sangue, a fim de o partilharmos com os outros na nossa vida, proclamando a morte e ressurreição do Senhor, «até que Ele venha».

Citações úteis:
Leão XIV, Viagem apostólica à Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial (13-23 de abril de 2026), Homilia, “Japoma Stadium” (Douala), Sexta-feira, 17 de abril de 2026
[…] Um grave problema é resolvido abençoando a pouca comida que há e repartindo-a por todos os que têm fome. A multiplicação dos pães e dos peixes acontece na partilha: eis o milagre! Há pão para todos se for dado a todos. Há pão para todos se for tomado não com uma mão que se apodera, mas com uma mão que doa. Observemos bem o gesto de Jesus: quando o Filho de Deus toma o pão e os peixes, antes de mais nada dá graças. Agradece ao Pai por um bem que se torna dom e bênção para todo o povo.
Fazendo assim, a comida torna-se abundante: não é racionada por causa de uma emergência, não é roubada por causa de disputas, não é desperdiçada por quem se banqueteia diante daqueles que não têm nada para comer. Passando das mãos de Cristo para as dos seus discípulos, a comida aumenta para todos; mais ainda, sobra. […]
O milagre que Ele realizou é um sinal desse amor: mostra-nos não só como Deus alimenta a humanidade com o pão da vida, mas também como podemos levar esse alimento a todos os homens e mulheres que, tal como nós, têm fome de paz, liberdade e justiça. Cada gesto de solidariedade e perdão, cada iniciativa de bem é um pedaço de pão para a humanidade necessitada de cuidados. E, no entanto, isto não basta. Na verdade, ao alimento que nutre o corpo é necessário unir, com igual caridade, o alimento da alma, que nutre a nossa consciência, que nos sustenta na hora sombria do medo, nas trevas do sofrimento. Este alimento é Cristo, que sempre alimenta em abundância a sua Igreja e com o seu Corpo nos fortalece ao longo do caminho. […]

Leão XIV, Homilia, Praça de São João de Latrão, Domingo, 22 de junho de 2025
[…] Justamente quando o Sol se põe e a fome aumenta, enquanto os próprios apóstolos pedem para despedir a multidão, Cristo surpreende-nos com a sua misericórdia. Ele tem compaixão do povo faminto e convida os seus discípulos a cuidar dele: a fome não é uma necessidade alheia ao anúncio do Reino e ao testemunho da salvação. Pelo contrário, esta fome diz respeito à nossa relação com Deus. Cinco pães e dois peixes, no entanto, não parecem suficientes para alimentar o povo: aparentemente razoáveis, os cálculos dos discípulos evidenciam, em vez disso, a sua falta de fé. Porque, na realidade, com Jesus há tudo o que é necessário para dar força e sentido à nossa vida.
Perante o brado da fome, Ele responde com o sinal da partilha: levanta os olhos, pronuncia a bênção, parte o pão e dá de comer a todos os presentes (cf. v. 16). Os gestos do Senhor não inauguram um complexo ritual mágico, mas testemunham com simplicidade a gratidão para com o Pai, a oração filial de Cristo e a comunhão fraterna que o Espírito Santo sustenta. Para multiplicar os pães e os peixes, Jesus divide os poucos que há, e assim mesmo são suficientes para todos, e ainda sobram. Depois de terem comido – e terem comido até ficarem saciados –, recolheram doze cestos (cf. v. 17).
Esta é a lógica que salva o povo faminto: Jesus age segundo o estilo de Deus, ensinando a fazer o mesmo. Hoje, no lugar das multidões recordadas no Evangelho estão povos inteiros, humilhados pela ganância alheia mais ainda do que pela própria fome. Diante da miséria de muitos, a acumulação de poucos é sinal de uma soberba indiferente, que produz dor e injustiça. Em vez de partilhar, a opulência desperdiça os frutos da terra e do trabalho do homem. Especialmente neste ano jubilar, o exemplo do Senhor continua a ser para nós um critério urgente de ação e serviço: partilhar o pão, para multiplicar a esperança, proclama o advento do Reino de Deus.
Ao salvar as multidões da fome, Jesus anuncia que salvará todos da morte. Este é o mistério da fé, que celebramos no sacramento da Eucaristia. Assim como a fome é sinal da nossa radical indigência de vida, assim também partir o pão é sinal do dom divino de salvação.
Caríssimos, Cristo é a resposta de Deus à fome do homem, porque o seu corpo é o pão da vida eterna: tomai todos e comei! O convite de Jesus abrange a nossa experiência quotidiana: para viver, precisamos nos alimentar da vida, tirando-a das plantas e dos animais. No entanto, comer algo morto lembra-nos que, por mais que comamos, também nós morreremos. Porém, quando nos alimentamos de Jesus, pão vivo e verdadeiro, vivemos por Ele. Oferecendo-se totalmente, o Crucificado Ressuscitado entrega-se a nós, que assim descobrimos que fomos feitos para nos alimentarmos de Deus. A nossa natureza faminta traz o sinal de uma indigência que é saciada pela graça da Eucaristia. Como escreve Santo Agostinho, Cristo é verdadeiramente «panis qui reficit, et non deficit; panis qui sumi potest, consumi non potest» (Sermo 130, 2): um pão que alimenta e não falta; um pão que se pode comer, mas não se esgota. Com efeito, a Eucaristia é a presença verdadeira, real e substancial do Salvador (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1413), que transforma o pão em si mesmo, para nos transformar n’Ele. O Corpus Domini, vivo e vivificante, torna-nos a nós, isto é, a própria Igreja, corpo do Senhor. […]

Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, Domingo, 2 de agosto de 2020
O Evangelho deste Domingo apresenta-nos o prodígio da multiplicação dos pães (cf. Mt 14, 13-21). A cena verifica-se num lugar deserto, onde Jesus se tinha retirado com os seus discípulos. Mas as pessoas vão procuram-no para o ouvir e ser curadas: de facto as suas palavras e gestos curam e dão esperança. Ao pôr do sol, as multidões ainda lá estão, e os discípulos, homens práticos, convidam Jesus a despedi-las para que possam ir buscar comida. Mas Ele responde: «Dai-lhes vós de comer» (v. 16). Imaginemos os rostos dos discípulos! Jesus sabe muito bem o que está prestes a fazer, mas quer mudar a atitude deles: não diz “despedi-os, que se desenrasquem, que encontrem sozinhos de comer”, não, mas “o que nos oferece a Providência para partilhar? Duas atitudes contrárias. E Jesus quer levá-los à segunda atitude, porque a primeira proposta é a proposta de um homem prático, mas não é generosa: “despedi-os, deixai que vão, que se arranjem”. Jesus pensa de outra forma. Jesus, através desta situação, quer educar os seus amigos de ontem e de hoje na lógica de Deus. E qual é a lógica de Deus que vemos aqui? A lógica de cuidar do próximo. A lógica de não lavar as mãos, a lógica de não olhar para o outro lado. A lógica de cuidar do outro. “Que se arranjem” não faz parte do vocabulário cristão.
Assim que um dos Doze diz, com realismo: «Mas não temos aqui senão cinco pães e dois peixes», Jesus responde: «Trazei-mos cá». (vv. 17-18). Toma essa comida nas suas mãos, levanta os olhos ao céu, recita a bênção e começa a partir e dá as porções aos discípulos para distribuir. E esses pães e peixes não se esgotam, são suficientes para satisfazer milhares de pessoas.
Com este gesto Jesus manifesta o seu poder, não de uma forma espetacular, mas como um sinal da caridade, da generosidade de Deus Pai para com os seus filhos cansados e oprimidos. Está imerso na vida do seu povo, compreende o seu cansaço, compreende os seus limites, mas não deixa que ninguém se perca ou desfaleça: alimenta com a sua Palavra e dá comida abundante para o sustento.
Nesta narração evangélica percebe-se também a referência à Eucaristia, especialmente quando descreve a bênção, o partir do pão, a entrega aos discípulos, a distribuição ao povo (v. 19). E deve notar-se quão estreita é a ligação entre o pão eucarístico, alimento para a vida eterna, e o pão quotidiano, necessário para a vida terrena. Antes de se oferecer ao Pai como Pão de salvação, Jesus ocupa-se da comida para aqueles que O seguem e que, para estar com Ele, se esqueceram de tomar providências. […]

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