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XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)Is 55, 6-9; Sl 144; Flp 1, 20c-24.27a; Mt 20, 1-16aCOMENTÁRIOA missão do generoso Dono...
16/09/2026

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)
Is 55, 6-9; Sl 144; Flp 1, 20c-24.27a; Mt 20, 1-16a

COMENTÁRIO
A missão do generoso Dono da Vinha

O Senhor Jesus, no Evangelho de hoje, continua a ensinar aos Seus discípulos a realidade nascente e transbordante do reino dos Céus. E volta a fazê-lo com uma linguagem parabólica sugestiva, através da fórmula introdutória fixa, «O reino dos Céus pode comparar-se a...», como já vimos no Domingo passado no ensinamento sobre a necessidade do perdão fraterno. Agora é posta em evidênica a generosidade de Deus em conceder o Seu prémio, a imagem da salvação, a todos aqueles que aceitaram trabalhar na Sua vinha, mesmo e sobretudo os das últimas horas. Este relato parabólico revela-se, por isso, e antes de mais, um anúncio de carácter cristológico: com e em Jesus, chegou o tempo final da salvação divina para a humanidade. Esta verdade da doação generosa de Deus em Cristo é considerada escandalosa para alguns que se fecham na estreiteza da sua lógica humana. A riqueza da parábola ouvida deve ser explorada ainda hoje, mas é necessário começar com uma devida nota sobre a maneira correcta de interpretar os pormenores da história.

1. Uma “advertência” necessária sobre a interpretação da parábola

É preciso lembrar que as parábolas não são alegorias em que cada pormenor deve corresponder a uma mensagem. São antes narrativas em que o autor quer transmitir uma mensagem principal que se torna assim a alavanca sobre a qual assenta toda a trama com os pormenores fictícios e por vezes até exagerados, “uma alavanca sobre a qual nos podemos apoiar”, para citar o famoso biblista italiano já falecido, Card. Carlo Maria Martini.

Assim, esta nota de abertura serve para clarificar o ponto central da nossa parábola que, com os seus múltiplos pormenores, teve várias interpretações ao longo dos séculos. Há quem veja nas múltiplas saídas do dono da vinha a acção de Deus na história humana desde o início do mundo (desde o “muito cedo” da história) até ao presente, desde o tempo de Adão até ao de Jesus. Alguns, por outro lado, vêem aqui, de forma mais sofisticada, a imagem do chamamento de Deus nas várias etapas da vida do homem: infância, adolescência, juventude, idade adulta, velhice (S. Gregório Magno), ou mesmo nas várias situações da mente humana (S. João Crisóstomo)! Todas estas interpretações, embora interessantes, mas discutíveis (quem sabe se terão estado na mente do autor do relato), não devem desviar a nossa atenção do ponto fulcral da parábola que Jesus quer transmitir: a generosidade “escandalosa” da salvação, oferecida por Deus em Cristo aos “últimos trabalhadores”, e que provocou a murmuração por parte dos (auto)considerados justos e defensores da justiça divina.

2. A dupla generosidade do Dono da Vinha

Em relação aos trabalhadores, o Dono é generoso em dois aspectos. Em primeiro lugar, a sua generosidade consiste no facto de sair incansavelmente de manhã cedo para oferecer trabalho aos interessados. Podemos logicamente imaginar que, durante todas as horas, de manhã à noite, o Dono convidou e acolheu na sua vinha todos os que quiseram . Ele foi generoso na sua paciência e dedicação para encontrar trabalhadores. Temos aqui uma bela representação do Deus que é grande no amor e que não Se cansa de sair a várias horas e de várias maneiras (cf. Heb 1, 1) para reunir os Seus filhos no Reino dos Céus.

Em segundo lugar, a generosidade do Dono revela-se particularmente em relação aos últimos trabalhadores, aos quais decidiu dar o salário do dia por inteiro. Por outras palavras, embora os da última hora (a décima primeira, segundo a divisão judaica do dia, que corresponde às nossas 17 horas) tenham trabalhado menos horas, receberam a mesma quantia de dinheiro que os outros que tinham trabalhado desde a manhã. Este pormenor incomodou muitos defensores de um Deus necessariamente justo nas Suas acções. Alguns tentaram, por isso, justificar a estranha e “injusta” decisão do Dono com o pressuposto de que, provavelmente, os trabalhadores das primeiras horas não tinham trabalhado bem e até tinham sido preguiçosos, desperdiçando o tempo do trabalho que lhe tinha sido atribuído (como vi num filme moderno)! Uma tal explicação “lógica” parece muito sugestiva, mas talvez deturpe totalmente toda a força provocadora da parábola que Jesus quis transmitir. Aqui já não existe a lógica da justiça distributiva humana, mas apenas a da magnanimidade divina, que permanece sempre um mistério insondável para a mente humana. É o próprio Deus que no-lo recorda através do profeta Isaías (ouvido na primeira leitura): «Os Meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os Meus. […] Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os Meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os Meus pensamentos» (Is 55, 8-9).

3. «Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?» O vício da inveja humana que deve ser controlado na vida e na missão

O final da parábola liga o anúncio principal da salvação generosa de Deus para os últimos com uma lição de carácter moral não menos importante: é preciso ter cuidado com o “vício” de murmurar contra o agir do bom Deus em favor dos outros por causa da inveja que se instala no nosso coração. A frase-chave é a pergunta do dono a um dos murmuradores: «Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?» (onde os olhos maus indicam “inveja” no coração). Para além do possível tom polémico contra os chefes religiosos de Israel que murmuravam perante o agir de Jesus, esta pergunta é também uma advertência perene a todos os “primeiros” beneficiários da salvação divina, perante a possível “sorte” dos últimos “trabalhadores”.

Devemos alegrar-nos com a generosidade gratuita de Deus para com todos, em vez de nos entristecermos com a alegada falta de apreço de Deus pelos nossos esforços. Trata-se sempre da gratuidade de Deus para com cada um de nós que, apesar dos nossos supostos ou reais “méritos”, somos sempre e em todo o caso indignos do Seu dom. Mesmo Israel foi escolhido por Deus sem qualquer mérito, como Seu povo eleito. Assim, Deus oferece a cada homem, sempre gratuitamente, a abundância da Sua redenção. E só nos resta alegrarmo-nos juntos, de acordo com o convite do pai ao filho mais velho na parábola do filho pródigo.

Por fim, vale a pena recordar o ensinamento conciso mas importante do Catecismo da Igreja Católica sobre a inveja, começando com uma observação forte:
2538 […] A inveja pode levar aos piores crimes (Cf. Gn 4, 3-8; 1 Rs 21, 1-29). «Foi pela inveja do demónio que a morte entrou no mundo» (Sb 2, 24). «Combatemo-nos uns aos outros e é a inveja que nos arma uns contra os outros [...]. Se todos se encarniçam assim a abalar o corpo de Cristo, onde chegaremos nós? Estamos a aniquilar o corpo de Cristo. [...] Declaramo-nos membros dum mesmo organismo e devoramo-nos como feras» (São João Crisóstomo, In epistulam II ad Corinthios, homilia 27, 3-4: PG 61, 588).
E ainda:
2539 A inveja é um vício capital. Designa a tristeza que se sente perante o bem alheio e o desejo imoderado de se apropriar dele, mesmo indevidamente. Se desejar ao próximo um mal grave, é pecado mortal. Santo Agostinho via na inveja «o pecado diabólico por excelência» (Santo Agostinho, De disciplina christiana, 7, 7: CCL 46, 214 [PL 40, 673]; Id., Epistula 108, 3, 8: CSEL 34, 620 [PL 33, 410]). «Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pelo mal do próximo e o desgosto causado pela sua prosperidade» (São Gregório Magno, Moralia in Job, 31, 45, 88: CCL 143b, 1610 [PL 76, 621]).
Assim,
2540 A inveja representa uma das formas da tristeza e, portanto, uma recusa da caridade; o baptizado lutará contra ela, opondo-lhe a benevolência. Muitas vezes, a inveja nasce do orgulho; o baptizado exercitar-se-á a viver na humildade: «Quereríeis ver Deus glorificado por vós? Pois bem, alegrai-vos com os progressos do vosso irmão e, assim, será por vós que Deus é glorificado. Deus será louvado, dir-se-á, pelo facto de o Seu servo ter sabido vencer a inveja, pondo a sua alegria nos méritos dos outros» (São João Crisóstomo, In epistulam as Romanos, homilia 7, 5: PG 60, 448).

Que assim seja na vida dos discípulos-missionários de Cristo, sobretudo, nas suas actividades missionárias. Amén.

Citações úteis:
Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, Domingo, 24 de setembro de 2017

Na página evangélica de hoje (cf. Mt 20, 1-16) encontramos a parábola dos operários chamados a trabalhar ao dia, que Jesus narra para comunicar dois aspetos do Reino de Deus: o primeiro, que Deus quer chamar todos a trabalhar para o seu Reino; o segundo, que no final deseja oferecer a todos a mesma recompensa, ou seja, a salvação, a vida eterna. […]
A mensagem é esta: no Reino de Deus não existem desempregados, todos são chamados a desempenhar a sua parte; e no final haverá para todos a recompensa que deriva da justiça divina — não humana, por sorte! — ou seja, a salvação que Jesus Cristo nos conquistou com a sua morte e ressurreição. Uma salvação que não é merecida, mas concedida — a salvação é gratuita — e por isso, «os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (Mt 20, 16). […]
Jesus quer levar-nos a contemplar o olhar daquele senhor: o olhar com que vê cada um dos operários à espera de um trabalho, chamando-os para a sua vinha. Trata-se de um olhar cheio de atenção e de benevolência; é um olhar que chama, que convida a erguer-se, a pôr-se a caminho, porque deseja a vida para cada um de nós, quer uma vida plena, comprometida, resgatada do vazio e da inércia. Deus não exclui ninguém e quer que cada um alcance a sua plenitude. Este é o amor do nosso Deus, do nosso Deus que é Pai.

Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, Domingo, 20 de setembro de 2020

[…] Deus comporta-se desta forma: não olha para o tempo nem para os resultados, mas para a disponibilidade, olha para a generosidade com a qual nos colocamos ao Seu serviço. A sua ação é mais do que justa, no sentido de que vai além da justiça e manifesta-se na Graça. Tudo é Graça. A nossa salvação é Graça. A nossa santidade é Graça. Ao conceder-nos a Graça, Ele dá-nos mais do que merecemos. E assim, quem raciocina com lógica humana, isto é, a de mérito adquirido com a própria habilidade, de primeiro torna-se último. “Mas, trabalhei tanto, fiz tanto na Igreja, ajudei tanto, e sou pago da mesma forma que este que veio por último”. Recordemos quem foi o primeiro santo canonizado na Igreja: o Bom Ladrão. Ele “roubou” o Céu no último momento da sua vida: isto é Graça, assim é Deus. Também com todos nós. Por outro lado, aqueles que procuram pensar nos próprios méritos falham; aqueles que humildemente se confiam à misericórdia do Pai, de últimos, – como o Bom Ladrão – acabam por ser os primeiros (cf. v. 16).

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)Sir 27, 33-28,9; Sal 102; Rm 14, 7-9; Mt 18, 21-35COMENTÁRIOProclamar o Evangelho do ...
09/09/2026

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)
Sir 27, 33-28,9; Sal 102; Rm 14, 7-9; Mt 18, 21-35

COMENTÁRIO
Proclamar o Evangelho do perdão / Para um testemunho evangélico do perdão

Depois da instrução sobre a correcção fraterna, que ouvimos no Domingo passado, o Evangelho de Mateus prossegue com o ensinamento de Jesus sobre o perdão, a partir da pergunta do apóstolo Pedro sobre «quantas vezes» deveria perdoar ao irmão que o «ofender». O tema sobre o qual vamos reflectir agora está, por isso, em estreita ligação com o de há uma semana, como sugere também a semelhança da frase condicional inicial de Pedro («Se o meu irmão me ofender»), que, de facto, faz lembrar a de Jesus no início do Seu discurso anterior («Se o teu irmão te ofender»). Assim, entre os discípulos de Cristo, a correcção fraterna anda de mãos dadas com o perdão entre os irmãos, com a ênfase precisamente neste último, como sublinha o ensinamento de Jesus hoje através de uma afirmação e de uma parábola. Devemos, pois, escrutinar devidamente cada palavra de Jesus, para acolhermos a Sua mensagem para nós, Seus discípulos, num mundo cada vez mais marcado por guerras, conflitos e ódios.

1. «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.» O princípio evangélico do perdão “permanente”

A pergunta do apóstolo Pedro é, por si só, provocadora: «quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?» Todavia, ela deixa entrever que Pedro percebeu bem o fundamento do ensinamento de Jesus sobre a correcção fraterna, que deve ter sempre como objectivo o perdão e a reconciliação entre os irmãos. Por outro lado, esta pergunta exprime também a perplexidade do apóstolo quanto à forma de regular o caso da repetição das faltas recebidas. Sabendo que na tradição judaico-rabínica há uma recomendação para perdoar os irmãos até três vezes, podemos entender a “generosidade” de Pedro para aumentar a “tarifa” de perdão até sete vezes. Além disso, é preciso lembrar que o número sete na Bíblia simboliza a plenitude e a perfeição, pois corresponde aos dias da criação de tudo por Deus. Deste modo, o apóstolo Pedro quis perguntar, com alguma perplexidade, se se deve efectivamente perdoar quase sempre.

A resposta de Jesus joga exactamente com o valor simbólico do número sete: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.» Ou seja, sempre, dez vezes sempre! É o perdão fraterno constante, permanente e sem limites que Jesus recomenda aos Seus discípulos. Por outras palavras, cada discípulo é chamado a perdoar sempre ao seu irmão, e a razão de tal “generosidade” reside precisamente no perdão generoso que Deus concede a cada pessoa na vida, como Jesus quis ensinar logo a seguir através de uma parábola.

2. Uma bela parábola, mas com um pequeno pormenor a aprofundar

A parábola que Jesus conta para ilustrar a necessidade de perdoar é comummente chamada “a parábola do servo impiedoso”. A mensagem do relato torna-se clara a partir das reacções contrastantes do rei e, mais tarde, do servo ao mesmo pedido comovente do devedor: «Concede-me um prazo e tudo te pagarei.» Enquanto o rei e senhor daquele servo, «cheio de compaixão, … deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida» de dez mil talentos, o servo, por seu lado, não quis perdoar ao companheiro a dívida de cem denários. Os números das dívidas das personagens parecem ter sido escolhidos propositadamente para realçar ainda mais a diferença entre a soma muito grande que o servo devia ao rei e a soma muito mais pequena que esse servo exigia ao seu companheiro. Assim, o absurdo da acção do servo impiedoso e ingrato torna-se ainda mais evidente.
A este propósito, se prestarmos mais atenção a um pormenor da parábola, podemos perceber uma mensagem mais profunda sobre o perdão exigido. É exactamente a soma de cem denários que o servo não queria perdoar. É uma quantia pequena sim, comparada com a de dez mil talentos, mas não parece tão pequena objectivamente, porque corresponde a cem dias de trabalho (cerca de um terço do salário anual). É significativo que Jesus não tenha apresentado um número mais pequeno, como por exemplo dez denários, para acentuar ainda mais o contraste. Em vez disso, manteve-Se num valor médio-pequeno. Esta soma podia ser ainda muito elevada para aquele servo, naquela altura, e, consequentemente, não era perdoável. Talvez se possa vislumbrar aqui uma lição subtil que o Senhor deixa em relação ao perdão. Por vezes, na vida, sofremos ofensas que nos pareceram muito grandes. Aliás, algumas “dívidas” que os outros têm para connosco são objectivamente tão grandes que não podemos perdoá-las, humanamente falando. O Senhor sabe-o e não o questiona. O que Ele pede é apenas que pensemos na nossa dívida, muito maior, para com o nosso Pai celeste, que no-la perdoou. Assim, teremos mais motivação e força para perdoar generosamente o nosso irmão, como fomos generosamente perdoados por Deus. Afinal, esta é a única invocação da oração do Pai Nosso, em que o nosso pedido a Deus Pai está ligado à promessa do nosso compromisso de perdoar a quem nos ofendeu. Neste contexto, em que rezamos no início para que venha o Seu Reino, o nosso perdão será também um sinal concreto da vinda do Reino entre nós. Esta parábola de Jesus sobre a necessidade do perdão é também a parábola do Reino, como o próprio Jesus a definiu logo no início do relato.

3. «Nisto saberão todos que sois Meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13, 35). O princípio da unidade no amor entre os discípulos para a credibilidade da missão de Cristo

Aqui chegados, é importante retomar aqui as ênfases do final da meditação de Domingo passado.

Com efeito, à luz do que foi dito, compreendemos ainda mais o significado “missionário” de cada acto de correcção e de reconciliação fraterna, baseada fundamentalmente sobre o perdão recíproco entre os irmãos. Trata-se de estar unidos no amor para a credibilidade da mesma missão de evangelização/reconciliação de Cristo e da Igreja-comunidade dos Seus discípulos-missionários. É por isso que Jesus insistiu tanto no amor mútuo entre os Seus, definindo-o como o Seu novo mandamento e sublinhando a importância deste como testemunho de pertença a Ele perante os homens: «Nisto saberão todos que sois Meus discípulos». Ele próprio rezou depois ao Pai por todos os Seus, tanto no presente como no futuro: «para que todos sejam um só; tal como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós, para que o mundo acredite que Tu Me enviaste» (Jo 17, 21). Que cada um de nós, Seus discípulos, sinta o coração de Cristo pela unidade no amor e tenha sempre presente, em cada acção, este desejo do Mestre! Isto é particularmente verdadeiro para a nossa acção de perdoar «de coração, cada um ao seu irmão», como o nosso Pai celeste nos perdoou.

Concluamos, por isiso, também hoje, com as palavras inspiradas de São Paulo aos fiéis de Tessalónica. São também o desejo do Senhor para todos nós, Seus discípulos-missionários, hoje, até no meio de várias correcções necessárias por causa das fraquezas humanas: «O Senhor vos faça crescer e abundar no amor de uns para com os outros e para com todos, tal como nós o temos tido para convosco, a fim de que os vossos corações se conservem irrepreensíveis na santidade, diante de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda de nosso Senhor Jesus, com todos os Seus santos». (1 Ts 3, 12-13).
Citações úteis:
Papa Leão XIV, Jubileu dos operadores de justiça, Praça de São Pedro, Sábado, 20 de septiembre de 2025

[…] A tradição ensina-nos que a justiça é, em primeiro lugar, uma virtude, ou seja, uma atitude firme e estável que guia o nosso procedimento segundo a razão e a fé. A virtude da justiça, em particular, consiste na «constante e firme vontade de dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido». Nessa perspetiva, para quem acredita, a justiça dispõe «a respeitar os direitos de cada qual e a estabelecer, nas relações humanas, a harmonia que promove a equidade em relação às pessoas e ao bem comum», objetivo que se torna garante de uma ordem que protege os fracos, aqueles que pedem justiça porque vítimas de opressão, excluídos ou ignorados.
Em muitos episódios evangélicos, a ação humana é avaliada por uma justiça capaz de derrotar o mal da prepotência, como lembra a insistência da viúva que leva o juiz a reencontrar o sentido do que é justo (cf. Lc 18, 1-8). Mas também uma justiça superior que paga ao trabalhador da última hora como ao que trabalha o dia inteiro (cf. Mt 20, 1-16); ou aquela que faz da misericórdia a chave de interpretação das relações e leva a perdoar, acolhendo o filho que estava perdido e foi reencontrado (cf. Lc 15, 11-32), ou, mais ainda, a perdoar não sete vezes, mas setenta vezes sete (cf. Mt 18, 21-35). É a força do perdão, própria do mandamento do amor, que surge como elemento constitutivo de uma justiça capaz de conjugar o sobrenatural com o humano.
A justiça evangélica, portanto, não se desvia da justiça humana, mas questiona-a e redesenha-a: leva-a a ir sempre mais além, porque a impulsiona à busca da reconciliação. O mal, na verdade, não deve apenas ser punido, mas reparado, e para isso é necessário um olhar profundo em relação ao bem das pessoas e ao bem comum. Tarefa árdua, mas não impossível para quem, consciente de desempenhar um serviço mais exigente do que outros, se compromete a manter uma conduta de vida irrepreensível. […]

Papa Leão XIV, Viagem Apostolica à Espanha (6-12 de junho de 2026), Encontro com as organizações de caridade e assistência da diocese, Discurso, Igreja de Santo Agostinho (Barcelona), Quarta-feira, 10 de junho de 2026
[…] Quanto à questão sobre se devemos sempre perdoar, Jesus diz-nos que sim. Um dia, Pedro perguntou-lhe: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar? Até sete vezes?» E Jesus respondeu-lhe: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete» (Mt 18, 21-22). Jesus queria dizer com isso: perdoa sempre. Mas é preciso compreender bem o que significa perdoar. Perdoar não significa dizer que o mal esteve certo, nem deixar que alguém continue a fazer o mal. Não significa esquecer à força, como se nada tivesse acontecido. Perdoar significa não deixar que o ódio se torne o dono do nosso coração. Jesus pede-nos que perdoemos porque é a única maneira de experimentar a paz de Deus e de curar feridas espirituais. Quando perdoamos, imitamos o exemplo de Jesus, que perdoou aos que o crucificavam. A nossa disposição para perdoar é condição para o perdão que recebemos de Deus. […]
Chamados a amar a Deus e, por amor a Ele, aos nossos irmãos, somos também enviados a ir ao encontro de todos. O cristão, além de bondoso e amável, há de ser compassivo, amar desinteressadamente e procurar o bem dos outros, sabendo que em cada irmão e irmã que sofre é o próprio Senhor quem pede e recebe, quem é acolhido ou rejeitado, amado ou desprezado.
A caridade evangélica, fundada em Jesus Cristo e alimentada pelo seu amor, molda e dá identidade à vida pessoal e comunitária de todo o cristão. Por isso, cada comunidade eclesial diocesana, movida pela caridade e instruída pelo Espírito Santo, é chamada a aproximar-se, segundo as suas possibilidades e capacidades, com discrição, delicadeza e perseverança, das feridas e necessidades dos pequenos e vulneráveis, para aliviar os seus sofrimentos e remediar a sua pobreza. […]

Papa Leão XIV, Viagem Apostolica à Espanha (6-12 de junho de 2026), Vigília de oração, Estádio Olímpico “Lluís Companys”, Terça-feira, 9 de junho de 2026

[…] Devemos aprender a considerar o perdão, esse poderoso remédio contra o mal, que cura as nossas feridas interiores, como algo que faz parte de um processo, de um caminho. O próprio Evangelho, se o lermos como um livro de instruções, mandamentos e deveres, corre o risco de nos causar muito desânimo e frustração, porque Jesus nos convida ao perdão e nós sentimos que não somos capazes. E, no entanto, não é assim. O perdão, primordialmente, deve ser invocado do Senhor; continuar a pedir – talvez durante toda a vida – que Ele amplie em nós o espaço do amor, chegando precisamente ali onde fomos feridos; que nos ajude a reconciliar-nos conosco mesmos e com essa parte da nossa história marcada pelo sofrimento; e que transforme lentamente o ressentimento em misericórdia e compaixão. É um longo caminho; um processo que exige muita paciência; um trabalho que devemos realizar conosco próprios, tanto a nível pessoal como através de outros itinerários de acompanhamento e também de reconciliação interior. E é preciso não desanimar: no perdão, avança-se a pequenos passos.. […]

Papa Francisco, Audiência Geral, quarta-feira, 24 de abril de 2019
Catequese sobre o “Pai Nosso”: 13

[…] Vimos que é próprio do homem ser devedor diante de Deus: d’Ele recebemos tudo, em termos de natureza e de graça. A nossa vida não só foi querida, mas foi amada por Deus. […]
A relação de benevolência vertical por parte de Deus desvia-se e é chamada a traduzir-se numa relação nova que vivemos com os nossos irmãos: uma relação horizontal. […]
Cada cristão sabe que existe para ele o perdão dos pecados, isto todos o sabemos: Deus perdoa tudo e perdoa sempre. Quando Jesus conta aos seus discípulos o rosto de Deus, esboça-o com expressões de terna misericórdia. Diz que há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por uma multidão de justos que não precisam de conversão (cf. Lc 15, 7-10). Nos Evangelhos nada deixa suspeitar que Deus não perdoa os pecados de quem está bem disposto e pede para ser reabraçado. […]
Encontramos aqui a ligação entre o amor a Deus e o amor ao próximo. Amor chama amor, perdão chama perdão. Ainda em Mateus encontramos outra parábola muito intensa dedicada ao perdão fraterno (cf. 18, 21-35). Ouçamo-la.
Havia um servo que tinha contraído uma dívida enorme com o seu rei: dez mil talentos! Uma quantia impossível de restituir; não sei quanto seria hoje, mas centenas de milhões. Mas aconteceu o milagre, e aquele servo não obtém um prazo mais longo para pagar, mas o perdão total. Uma graça inesperada! Mas eis que precisamente aquele servo, logo a seguir, se volta contra um seu irmão que lhe deve cem denários — pouca coisa — e, mesmo sendo esta uma quantia acessível, não aceita desculpas nem súplicas. Por isso, no final, o dono chama-o e condena-o. Pois se não te esforças por perdoar, não serás perdoado; se não te esforças por amar, também não serás amado.
Jesus insere nas relações humanas a força do perdão. Na vida nem tudo se resolve com a justiça. Não. Sobretudo onde se deve pôr um limite ao mal, alguém tem que amar além do devido, para recomeçar uma história de graça. […]
Deus concede a cada cristão a graça de escrever uma história de bem na vida dos seus irmãos, especialmente daqueles que fizeram algo desagradável e errado. Com uma palavra, um abraço, um sorriso, podemos transmitir aos outros aquilo que recebemos de mais precioso. Qual é a coisa preciosa que recebemos? O perdão, que devemos ser capazes de dar também aos demais.

Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, domingo, 13 de setembro de 2020

[…] O cerne da parábola é a indulgência que o senhor demonstra para com o servo que tem a dívida maior. O evangelista sublinha que «o senhor teve compaixão - nunca vos esqueçais desta palavra que é própria de Jesus: “teve compaixão”, Jesus teve sempre compaixão - [teve compaixão] daquele servo, deixou-o ir e perdoou-lhe a dívida». (v. 27). Uma dívida enorme, portanto um enorme perdão! Mas aquele servo, imediatamente a seguir, mostra-se implacável com o seu companheiro, que lhe deve uma modesta soma. […]
Na parábola, encontramos duas atitudes diferentes: a de Deus - representado pelo rei - que perdoa muito, porque Deus perdoa sempre, e a do homem. Na atitude divina, a justiça está impregnada de misericórdia, enquanto que a atitude humana se limita à justiça. Jesus exorta-nos a abrir-nos corajosamente à força do perdão, porque na vida, sabemos que nem tudo é resolvido pela justiça. Precisamos desse amor misericordioso, que é também a base da resposta do Senhor à pergunta de Pedro que precede a parábola. A pergunta de Pedro soa assim: «Senhor, se o meu irmão me ofender, quantas vezes lhe deverei perdoar?» (v. 21). E Jesus respondeu-lhe: «Não te digo sete vezes, mas setenta vezes sete» (v. 22). Na linguagem simbólica da Bíblia, isto significa que somos sempre chamados a perdoar! […]

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)Ez 33,7-9; Sal 94; Rm 13,8-10; Mt 18,15-20COMENTÁRIOA missão da reconciliação em Cri...
01/09/2026

XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)
Ez 33,7-9; Sal 94; Rm 13,8-10; Mt 18,15-20

COMENTÁRIO
A missão da reconciliação em Cristo

O Evangelho deste domingo oferece instruções sobre a correção fraterna entre os membros da comunidade dos fiéis em Cristo. Estas são as indicações concretas do chamado “Discurso da Igreja” (ou sobre a Igreja) do capítulo 18, no qual o evangelista São Mateus agrupa os ensinamentos de Jesus sobre a relação entre os irmãos e irmãs da comunidade. As palavras ouvidas hoje parecem muito claras e indicam os passos concretos a dar, quase como se fosse um manual de direito a aplicar num caso concreto «Se o teu irmão te ofender». Por isso, não devem ser ignoradas (seria muito complicado falar com alguém com quem já temos uma relação difícil!) nem adoptadas de forma incorrecta (utilizando-as para um ajuste de contas pessoal). Tudo deve ser interpretado de forma correcta, tendo em conta o contexto literário-espiritual destas indicações, a começar pela importantíssima afirmação de Jesus, no final da passagem, sobre a sua presença no meio dos discípulos reunidos em seu nome.

1. «Onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles». O princípio da presença constante de Cristo entre os seus discípulos.

Esta é a verdade teológica que Jesus recordou no final da sua instrução sobre a correção fraterna. Ela ilumina todo o processo que Jesus recomendou aos seus discípulos. Em si mesma, esta afirmação final de Jesus remete diretamente para as palavras do anjo a São José, no início do Evangelho de Mateus, sobre a identidade do Messias que iria nascer e que seria o Emanuel - Deus connosco. Por outro lado, remete também para a última afirmação de Jesus ressuscitado aos seus discípulos antes de subir ao Céu e depois de os enviar em missão pelo mundo inteiro: «E eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos tempos» (Mt 28,20b). Isto põe em evidência a presença mística constante de Cristo no meio dos discípulos, na sua vida e na sua missão, mesmo quando há apenas duas ou três pessoas reunidas em seu nome.
Para uma visão mais profunda, convém recordar aqui o ditado quase paralelo da tradição rabínica: «se dois estão juntos, ocupados nas palavras da Torah, a shekinah habita entre eles» (m.Abot 3,2), onde a shekinah indica a presença imanente de Deus no mundo e tem uma forte ligação com a visão bíblico-judaica da habitação divina entre o povo, desenvolvida mais tarde em tradições posteriores. A forma paralela dos dois ditos, o de Jesus e o dos rabinos, permite-nos traçar duas correspondências significativas em termos de conteúdo: Jesus com a Torah (a Lei) e a presença de Jesus com a presença divina. A afirmação coloca Jesus ao centro: é cristocêntrica, ao contrário da afirmação rabínica que é centrado na Torah e é teocêntrica.
A este respeito, esta afirmação de Jesus surge após a instrução de Mt 18,19-20 («se dois de vós, na terra, se puserem de acordo para pedir seja o que for, isso lhes será feito pelo meu Pai que está nos céus»). Esta última ilumina e esclarece, assim, especificamente, a presença prometida de Jesus. De facto, in primis, afirma a eficácia da oração em comum, ou seja, pelo menos numa comunidade de dois! A motivação é a já referida presença de Jesus no meio dos seus. Assim, a reunião de “dois ou três” refere-se aqui, em primeiro lugar, à reunião com o objetivo de “pedir ao Pai” ou, de um modo geral, de adorar, como sugere também a ênfase “em meu nome”. A presença de Jesus entre os que se reúnem em seu nome terá uma forte dimensão cúltica ou 'litúrgica' orientada para o Pai. Ele estará presente não tanto para recolher louvores e adoração, mas para rezar ao Pai juntamente com eles. É precisamente esta presença, e nada mais, que garante a escuta do Pai. É esta também a perspetiva de certas referências do Evangelho de João: «aquilo que pedirdes ao Pai no meu nome, Ele vo-lo dará» (cf. Jo 15,16; 16,23.24.26).
Não se trata, portanto, de uma presença estática, mas dinâmica. Como no caso da shekinah, Jesus estará presente no meio dos fiéis, mas agora com a missão precisa de caminhar com eles para lhes garantir a graça e a benevolência de Deus Pai. Este princípio da presença mística dinâmica de Jesus entre os os seus discípulos na sua vida e missão será fundamental, sobretudo para aquele que terá a delicada e nada fácil tarefa/dever de “corrigir” o seu irmão pela “falta” cometida. Quando eles, dois ou três ou toda a comunidade-igreja, se reúnem, fazem-no no nome d’Ele ou em seu próprio nome? Deixam que Jesus esteja realmente no meio deles e, assim, actue também neles?

2. «Se te escutar, terás ganho o teu irmão». A correção fraterna dentro da missão da reconciliação em Cristo

Como já mencionámos é-nos aqui mostrado o verdadeiro espírito com que devem ser aplicados os passos concretos da correção fraterna. Deve ser feita, quando for necessário, mas sempre como Cristo bom pastor, isto é, com amor, doçura e mansidão (não é por acaso que a parábola do bom pastor é citada pelo evangelista Mateus imediatamente antes das indicações sobre a correção fraterna que ouvimos!). S. Paulo será ainda mais explícito, mencionando a mansidão entre os frutos do Espírito na vida nova e sugerindo aos fiéis Gálatas: «Irmãos, se alguém for apanhado em alguma transgressão, vós que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão - mas vigiando-te a ti mesmo, não aconteça que sejas também tu tentado! Carregai os fardos uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo». (Gl 6,1-2).
Na mesma linha vai o ensinamento do mesmo Apóstolo aos fiéis de Roma em Rm 13,8-10 (que ouvimos na segunda leitura): «Irmãos: Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros, pois, quem ama o próximo, cumpre a lei». E conclui com palavras esclarecedoras para a nossa reflexão: «A caridade não faz mal ao próximo. A caridade é o pleno cumprimento da lei». Portanto, a correção fraterna, isto é, entre irmãos em Cristo, não tem nem deve ter outra motivação que não seja a caridade fraterna. Ela não quer e não deve ir além dessa caridade fraterna que «não faz mal ao próximo».
Desta forma, a correção fraterna realiza-se no âmbito da reconciliação em Cristo. Por outras palavras, a correção entre irmãos faz-se no contexto amplo da reconciliação constante com Deus em Cristo, porque a reconciliação com os irmãos está intrinsecamente ligada à reconciliação com Deus. É também a missão de reconciliação para todo o mundo, para a qual Cristo enviou os seus discípulos-missionários. Cada discípulo de Cristo, quer seja aquele que corrige, quer seja aquele que é corrigido, deve então escutar de novo e levar a peito esta profunda reflexão, acompanhada por um último e premente convite de São Paulo Apóstolo: «Pois era Deus que em Cristo reconciliava o mundo consigo, não imputando aos homens as suas transgressões, e que em nós depositou a palavra da reconciliação. Somos, portanto, embaixadores de Cristo, já que é Deus quem exorta por nosso intermédio. É por Cristo que vos pedimos: deixai-vos reconciliar com Deus» (2 Cor 5,19-20).

3. «Nisto saberão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns ara com os outros» (Jo 13,35). O princípio da unidade no amor entre os discípulos para a credibilidade da missão de Cristo

Nesta perspetiva, compreendemos ainda mais o significado “missionário” de cada ato de correção e de reconciliação fraterna. Trata-se de estar unidos no amor para a credibilidade da mesma missão de evangelização/reconciliação de Cristo e da igreja-comunidade dos seus discípulos-missionários. É por isso que Jesus insistiu tanto no amor mútuo entre os seus, definindo-o como o seu novo mandamento e sublinhando a importância deste como testemunho de pertença a Ele perante os homens: «Nisto saberão todos que sois meus discípulos». Ele próprio rezou depois ao Pai por todos os seus, tanto no presente como no futuro: «para que todos sejam um só; tal como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti, que também eles estejam em Nós, para que o mundo acredite que Tu me enviaste» (Jo 17,21). Que cada um de nós, seus discípulos, sinta o coração de Cristo pela unidade no amor e tenha sempre presente, em cada ação, este desejo do Mestre!
Concluamos, portanto, com as palavras inspiradas de São Paulo aos crentes de Tessalónica. São também o desejo do Senhor para todos nós, seus discípulos-missionários, hoje, mesmo no meio de várias correcções necessárias devido às fraquezas humanas: «O Senhor vos faça crescer e abundar no amor uns para com os outros e para com todos, tal como nós o temos tido para convosco, a fim de que os vossos corações se conservem irrepreensíveis na santidade, diante de Deus, nosso Pai, por ocasião da vinda a de nosso Senhor Jesus, com todos os seus santos». (1 Ts 3,12-13).

Citações úteis:
PAPA FRANCISCO, Audiência Geral, Sala Paulo VI, quarta-feira, 3 de novembro de 2021

[…] É bom perguntar-nos o que nos motiva a corrigir um irmão ou uma irmã, e se não somos, de alguma forma, corresponsáveis pelo seu erro. O Espírito Santo, além de nos doar a mansidão, convida-nos à solidariedade, a carregar os fardos dos outros. Quantos fardos há na vida de uma pessoa: a doença, a falta de trabalho, a solidão, a dor... E quantas outras provas que exigem a proximidade e o amor dos irmãos! Podem-nos ajudar as palavras de Santo Agostinho, quando comenta este mesmo excerto: «Portanto, irmãos, se alguém for apanhado nalguma falha [...] corrigi-o desta maneira, com mansidão. E se tu levantares a voz, ama interiormente. Se encorajares, se te mostrares paterno, se repreenderes, se fores severo, ama!» (Sermões 163/B 3). Amai sempre! A regra suprema da correção fraterna é o amor: querer o bem dos nossos irmãos e irmãs. Trata-se de tolerar os problemas dos outros, os defeitos dos outros em silêncio na oração, e depois encontrar o modo correto de os ajudar a corrigir-se. E isto não é fácil! A maneira mais fácil é a tagarelice. Esfolar a outra pessoa como se eu fosse perfeito. E isto não deve ser feito. Mansidão. Paciência. Oração. Proximidade!

PAPA FRANCISCO, Angelus, Praça de São Pedro, domingo, 6 de setembro de 2020

O Evangelho deste Domingo (cf. Mt 18, 15-20) é tirado do quarto discurso de Jesus na narração de Mateus, conhecido como sermão “comunitário” ou “eclesial”. O trecho de hoje fala de correção fraterna, e convida-nos a refletir sobre a dupla dimensão da existência cristã: a dimensão comunitária, que exige a tutela da comunhão, ou seja, da unidade da Igreja, e a dimensão pessoal, que requer atenção e respeito por cada consciência individual.
Para corrigir o irmão que cometeu um erro, Jesus sugere uma pedagogia de recuperação. E a pedagogia de Jesus é sempre uma pedagogia de recuperação; Ele procura sempre recuperar, salvar. E esta pedagogia da recuperação articula-se em três etapas. Primeiro diz: «repreende-o a sós» (v. 15), ou seja, não ponhas o seu pecado na praça. É uma questão de se dirigir ao irmão com discrição, não para o julgar, mas para o ajudar a dar-se conta do que fez. […]

No entanto, pode acontecer que, apesar das minhas boas intenções, a primeira intervenção falhe. Neste caso, é bom não desistir e dizer: “Mas que se desenrasque, eu lavo as mãos”. Não, isso não é cristão. Não desistas, mas recorre ao apoio de algum outro irmão ou irmã. Jesus diz: «Se não der ouvidos, toma contigo ainda uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas» (v. 16). Este é um preceito da Lei Moisaica (cf. Dt 19, 15). Embora possa parecer contra o acusado, na realidade serviu para o proteger de falsos acusadores. Mas Jesus vai mais longe: as duas testemunhas são obrigadas a não acusar nem julgar, mas a ajudar. […] Jesus, de facto, calcula que esta abordagem - a segunda abordagem - com testemunhas também possa falhar, ao contrário da Lei Moisaica, para a qual o testemunho de dois ou três é suficiente para a condenação.
Na verdade, mesmo o amor de dois ou três irmãos pode ser insuficiente, porque este ou esta são teimosos. Neste caso - acrescenta Jesus -, «comunica-o à Igreja» (v. 17), ou seja, à comunidade. Em algumas situações, toda a comunidade está envolvida. Há coisas que não podem deixar os outros irmãos indiferentes: é necessário um amor maior para recuperar o irmão. Mas por vezes até isto pode não ser suficiente. Jesus diz: «E se ele se recusar a atender à própria Igreja seja para ti como um pagão ou um publicano» (ibidem). Esta expressão, aparentemente tão desdenhosa, convida-nos de facto a reconduzir o irmão para as mãos de Deus: só o Pai poderá demonstrar um amor maior do que o de todos os irmãos juntos. […] É o amor de Jesus, que acolheu publicanos e pagãos, escandalizando as pessoas bem-pensantes da época. Não se trata portanto de uma condenação sem apelo, mas do reconhecimento de que por vezes as nossas tentativas humanas podem falhar, e que só estando diante de Deus é possível pôr o irmão perante a sua consciência e a responsabilidade pelas suas ações. Se isto não correr bem, silêncio e oração pelo irmão e irmã que estão errados, mas nunca a tagarelice.

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