16/09/2026
XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO A)
Is 55, 6-9; Sl 144; Flp 1, 20c-24.27a; Mt 20, 1-16a
COMENTÁRIO
A missão do generoso Dono da Vinha
O Senhor Jesus, no Evangelho de hoje, continua a ensinar aos Seus discípulos a realidade nascente e transbordante do reino dos Céus. E volta a fazê-lo com uma linguagem parabólica sugestiva, através da fórmula introdutória fixa, «O reino dos Céus pode comparar-se a...», como já vimos no Domingo passado no ensinamento sobre a necessidade do perdão fraterno. Agora é posta em evidênica a generosidade de Deus em conceder o Seu prémio, a imagem da salvação, a todos aqueles que aceitaram trabalhar na Sua vinha, mesmo e sobretudo os das últimas horas. Este relato parabólico revela-se, por isso, e antes de mais, um anúncio de carácter cristológico: com e em Jesus, chegou o tempo final da salvação divina para a humanidade. Esta verdade da doação generosa de Deus em Cristo é considerada escandalosa para alguns que se fecham na estreiteza da sua lógica humana. A riqueza da parábola ouvida deve ser explorada ainda hoje, mas é necessário começar com uma devida nota sobre a maneira correcta de interpretar os pormenores da história.
1. Uma “advertência” necessária sobre a interpretação da parábola
É preciso lembrar que as parábolas não são alegorias em que cada pormenor deve corresponder a uma mensagem. São antes narrativas em que o autor quer transmitir uma mensagem principal que se torna assim a alavanca sobre a qual assenta toda a trama com os pormenores fictícios e por vezes até exagerados, “uma alavanca sobre a qual nos podemos apoiar”, para citar o famoso biblista italiano já falecido, Card. Carlo Maria Martini.
Assim, esta nota de abertura serve para clarificar o ponto central da nossa parábola que, com os seus múltiplos pormenores, teve várias interpretações ao longo dos séculos. Há quem veja nas múltiplas saídas do dono da vinha a acção de Deus na história humana desde o início do mundo (desde o “muito cedo” da história) até ao presente, desde o tempo de Adão até ao de Jesus. Alguns, por outro lado, vêem aqui, de forma mais sofisticada, a imagem do chamamento de Deus nas várias etapas da vida do homem: infância, adolescência, juventude, idade adulta, velhice (S. Gregório Magno), ou mesmo nas várias situações da mente humana (S. João Crisóstomo)! Todas estas interpretações, embora interessantes, mas discutíveis (quem sabe se terão estado na mente do autor do relato), não devem desviar a nossa atenção do ponto fulcral da parábola que Jesus quer transmitir: a generosidade “escandalosa” da salvação, oferecida por Deus em Cristo aos “últimos trabalhadores”, e que provocou a murmuração por parte dos (auto)considerados justos e defensores da justiça divina.
2. A dupla generosidade do Dono da Vinha
Em relação aos trabalhadores, o Dono é generoso em dois aspectos. Em primeiro lugar, a sua generosidade consiste no facto de sair incansavelmente de manhã cedo para oferecer trabalho aos interessados. Podemos logicamente imaginar que, durante todas as horas, de manhã à noite, o Dono convidou e acolheu na sua vinha todos os que quiseram . Ele foi generoso na sua paciência e dedicação para encontrar trabalhadores. Temos aqui uma bela representação do Deus que é grande no amor e que não Se cansa de sair a várias horas e de várias maneiras (cf. Heb 1, 1) para reunir os Seus filhos no Reino dos Céus.
Em segundo lugar, a generosidade do Dono revela-se particularmente em relação aos últimos trabalhadores, aos quais decidiu dar o salário do dia por inteiro. Por outras palavras, embora os da última hora (a décima primeira, segundo a divisão judaica do dia, que corresponde às nossas 17 horas) tenham trabalhado menos horas, receberam a mesma quantia de dinheiro que os outros que tinham trabalhado desde a manhã. Este pormenor incomodou muitos defensores de um Deus necessariamente justo nas Suas acções. Alguns tentaram, por isso, justificar a estranha e “injusta” decisão do Dono com o pressuposto de que, provavelmente, os trabalhadores das primeiras horas não tinham trabalhado bem e até tinham sido preguiçosos, desperdiçando o tempo do trabalho que lhe tinha sido atribuído (como vi num filme moderno)! Uma tal explicação “lógica” parece muito sugestiva, mas talvez deturpe totalmente toda a força provocadora da parábola que Jesus quis transmitir. Aqui já não existe a lógica da justiça distributiva humana, mas apenas a da magnanimidade divina, que permanece sempre um mistério insondável para a mente humana. É o próprio Deus que no-lo recorda através do profeta Isaías (ouvido na primeira leitura): «Os Meus pensamentos não são os vossos, nem os vossos caminhos são os Meus. […] Tanto quanto o céu está acima da terra, assim os Meus caminhos estão acima dos vossos e acima dos vossos estão os Meus pensamentos» (Is 55, 8-9).
3. «Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?» O vício da inveja humana que deve ser controlado na vida e na missão
O final da parábola liga o anúncio principal da salvação generosa de Deus para os últimos com uma lição de carácter moral não menos importante: é preciso ter cuidado com o “vício” de murmurar contra o agir do bom Deus em favor dos outros por causa da inveja que se instala no nosso coração. A frase-chave é a pergunta do dono a um dos murmuradores: «Serão maus os teus olhos porque eu sou bom?» (onde os olhos maus indicam “inveja” no coração). Para além do possível tom polémico contra os chefes religiosos de Israel que murmuravam perante o agir de Jesus, esta pergunta é também uma advertência perene a todos os “primeiros” beneficiários da salvação divina, perante a possível “sorte” dos últimos “trabalhadores”.
Devemos alegrar-nos com a generosidade gratuita de Deus para com todos, em vez de nos entristecermos com a alegada falta de apreço de Deus pelos nossos esforços. Trata-se sempre da gratuidade de Deus para com cada um de nós que, apesar dos nossos supostos ou reais “méritos”, somos sempre e em todo o caso indignos do Seu dom. Mesmo Israel foi escolhido por Deus sem qualquer mérito, como Seu povo eleito. Assim, Deus oferece a cada homem, sempre gratuitamente, a abundância da Sua redenção. E só nos resta alegrarmo-nos juntos, de acordo com o convite do pai ao filho mais velho na parábola do filho pródigo.
Por fim, vale a pena recordar o ensinamento conciso mas importante do Catecismo da Igreja Católica sobre a inveja, começando com uma observação forte:
2538 […] A inveja pode levar aos piores crimes (Cf. Gn 4, 3-8; 1 Rs 21, 1-29). «Foi pela inveja do demónio que a morte entrou no mundo» (Sb 2, 24). «Combatemo-nos uns aos outros e é a inveja que nos arma uns contra os outros [...]. Se todos se encarniçam assim a abalar o corpo de Cristo, onde chegaremos nós? Estamos a aniquilar o corpo de Cristo. [...] Declaramo-nos membros dum mesmo organismo e devoramo-nos como feras» (São João Crisóstomo, In epistulam II ad Corinthios, homilia 27, 3-4: PG 61, 588).
E ainda:
2539 A inveja é um vício capital. Designa a tristeza que se sente perante o bem alheio e o desejo imoderado de se apropriar dele, mesmo indevidamente. Se desejar ao próximo um mal grave, é pecado mortal. Santo Agostinho via na inveja «o pecado diabólico por excelência» (Santo Agostinho, De disciplina christiana, 7, 7: CCL 46, 214 [PL 40, 673]; Id., Epistula 108, 3, 8: CSEL 34, 620 [PL 33, 410]). «Da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pelo mal do próximo e o desgosto causado pela sua prosperidade» (São Gregório Magno, Moralia in Job, 31, 45, 88: CCL 143b, 1610 [PL 76, 621]).
Assim,
2540 A inveja representa uma das formas da tristeza e, portanto, uma recusa da caridade; o baptizado lutará contra ela, opondo-lhe a benevolência. Muitas vezes, a inveja nasce do orgulho; o baptizado exercitar-se-á a viver na humildade: «Quereríeis ver Deus glorificado por vós? Pois bem, alegrai-vos com os progressos do vosso irmão e, assim, será por vós que Deus é glorificado. Deus será louvado, dir-se-á, pelo facto de o Seu servo ter sabido vencer a inveja, pondo a sua alegria nos méritos dos outros» (São João Crisóstomo, In epistulam as Romanos, homilia 7, 5: PG 60, 448).
Que assim seja na vida dos discípulos-missionários de Cristo, sobretudo, nas suas actividades missionárias. Amén.
Citações úteis:
Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, Domingo, 24 de setembro de 2017
Na página evangélica de hoje (cf. Mt 20, 1-16) encontramos a parábola dos operários chamados a trabalhar ao dia, que Jesus narra para comunicar dois aspetos do Reino de Deus: o primeiro, que Deus quer chamar todos a trabalhar para o seu Reino; o segundo, que no final deseja oferecer a todos a mesma recompensa, ou seja, a salvação, a vida eterna. […]
A mensagem é esta: no Reino de Deus não existem desempregados, todos são chamados a desempenhar a sua parte; e no final haverá para todos a recompensa que deriva da justiça divina — não humana, por sorte! — ou seja, a salvação que Jesus Cristo nos conquistou com a sua morte e ressurreição. Uma salvação que não é merecida, mas concedida — a salvação é gratuita — e por isso, «os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos» (Mt 20, 16). […]
Jesus quer levar-nos a contemplar o olhar daquele senhor: o olhar com que vê cada um dos operários à espera de um trabalho, chamando-os para a sua vinha. Trata-se de um olhar cheio de atenção e de benevolência; é um olhar que chama, que convida a erguer-se, a pôr-se a caminho, porque deseja a vida para cada um de nós, quer uma vida plena, comprometida, resgatada do vazio e da inércia. Deus não exclui ninguém e quer que cada um alcance a sua plenitude. Este é o amor do nosso Deus, do nosso Deus que é Pai.
Papa Francisco, Angelus, Praça de São Pedro, Domingo, 20 de setembro de 2020
[…] Deus comporta-se desta forma: não olha para o tempo nem para os resultados, mas para a disponibilidade, olha para a generosidade com a qual nos colocamos ao Seu serviço. A sua ação é mais do que justa, no sentido de que vai além da justiça e manifesta-se na Graça. Tudo é Graça. A nossa salvação é Graça. A nossa santidade é Graça. Ao conceder-nos a Graça, Ele dá-nos mais do que merecemos. E assim, quem raciocina com lógica humana, isto é, a de mérito adquirido com a própria habilidade, de primeiro torna-se último. “Mas, trabalhei tanto, fiz tanto na Igreja, ajudei tanto, e sou pago da mesma forma que este que veio por último”. Recordemos quem foi o primeiro santo canonizado na Igreja: o Bom Ladrão. Ele “roubou” o Céu no último momento da sua vida: isto é Graça, assim é Deus. Também com todos nós. Por outro lado, aqueles que procuram pensar nos próprios méritos falham; aqueles que humildemente se confiam à misericórdia do Pai, de últimos, – como o Bom Ladrão – acabam por ser os primeiros (cf. v. 16).