23/02/2015
Deserto - O Palco da Quaresma
Bem sabemos que um deserto se trata de uma região geográfica caracterizada pela sua rudeza: a secura, as temperaturas extremas, o vazio, etc A quaresma não seria quaresma sem o deserto. Durante 40 dias, Jesus desloca-se sozinho para o deserto, e uma vez lá, entra numa dura prova de preparação do corpo e da alma, através de jejum, entre outros sacrifícios, e oração. A ciência e relatos de sobrevivência ajudam-nos a perceber que é possível jejuar por 40 dias, apenas bebendo e não comendo. Este era, inclusive, um costume dos judeus. Actualmente, pensar em realizar tamanho feito, seria considerado uma loucura. Jesus foi 'louco', sim, Ele foi louco e assim teve de o ser, pois Ele sabia que sem alguma dose de loucura, o homem dificilmente poderá experimentar uma mudança espiritual na sua vida.
Desde o tempo das Escrituras que Deus conduzia o seu povo pelo deserto, pois o deserto funciona como uma escola onde aprendemos que o espiritual precede ao material. Crescemos espiritualmente quando enfrentamos um deserto. Ao longo da nossa vida já todos enfrentámos desertos, ou certamente iremos enfrentar - desertos espirituais, psicológicos, onde nos sentimos vazios, tristes, desorientados, revoltados, onde não compreendemos o sentido da existência e a ordem das coisas.
No entanto, é também importante reforçar que, mesmo vagueando no deserto, o povo nunca foi abandonado por Deus. Ele esteve sempre lá, conduzindo-os, fortalecendo-os e ensinando-os.
Quando Jesus se deslocava para um lugar tão agreste como este - por duas vezes a Bíblia conta que Ele o fez - durante um longo período de tempo, Ele fazia-o sobretudo porque, sendo humano, sentia necessidade de se encontrar mais de perto com Deus, longe das coisas mundanas, despojado de tudo o que é material. Esta é a outra faceta do deserto: não apenas um lugar de provação, mas também de encontro e fortalecimento espiritual. Os dois lados da moeda completam-se. É tão normal nós próprios sentirmos necessidade de umas 'férias', longe de tudo. Um tempo para reflectirmos, para descobrirmos respostas que no meio do reboliço deste mundo dificilmente conseguimos achar. Jesus também teve essa necessidade, pois Ele sabia o que o esperava em Jerusalém e, concerteza, nada melhor do que se encontrar com o Pai, a sós, fortalecendo-se e meditando no ministério da sua morte, necessária para a nossa salvação.
A dimensão da nossa quaresma deve assim, de igual modo, residir no deserto. Sair para o deserto não é missão impossível, muito menos maluquice. Sair para o deserto é parte vital do processo. Deus obviamente não nos envia para o deserto das dunas e do calor, Deus envia-nos, sim, para o deserto da nossa vida espiritual. Sem esta pitada de loucura para sermos capazes de abandonar a rotina e o conforto do quotidiano, ficamo-nos, mais uma vez, pelo ritual vazio de "mais uma quaresma onde a carne não entra na ementa das sextas-feiras (que chatice), onde o jejum é tramado (essa ideia já cheira a m**o); e onde se fazem as via-sacras do costume (ah, talvez, não sei, depende, eh, se calhar não vai dar...ao Domingo é chato!)".
A quaresma deve ser vivida com alegria, e cruzar o deserto deve ser uma missão e uma honra para qualquer cristão. Ousemos!
Uma alegre e produtiva quaresma para todos! :)