19/07/2026
“A missão é estar onde Deus quer e fazer o que Ele quer”
Natural de Lisboa, mas madeirense de coração, o diácono Santiago Villalôbos, de 26 anos, vai ser ordenado sacerdote neste Domingo, 28 de junho, após um percurso marcado pela descoberta gradual da vocação e por experiências que o levaram a compreender o sacerdócio como resposta ao amor de Deus e não como um projeto pessoal. “Espero ser consagrado pelo Senhor, ser assumido na sua fidelidade e no seu amor”, deseja.
Uma família transformada pela fé
Filho de uma família que reencontrou a fé através do Caminho Neocatecumenal, Santiago reconhece-se como fruto dessa experiência de evangelização e afirma que a sua história vocacional começou muito antes de ter consciência dela.
Santiago nasceu em Lisboa, mas mudou-se para a ilha da Madeira quando tinha apenas oito meses de idade. É o segundo de quatro irmãos e cresceu num ambiente familiar profundamente marcado pela redescoberta da fé dos pais. “Os meus pais reencontraram-se com a fé cristã através do Caminho Neocatecumenal, já na Madeira. Não tinham prática religiosa propriamente. Foi através do testemunho de uma família missionária que deixou tudo para evangelizar na ilha. Isso tocou os meus pais, transformou a sua vida e eu sou fruto disso”, conta.
Recordando a infância, explica que a fé sempre fez parte da sua vida quotidiana. “Desde que me lembro, íamos à Missa todos os Domingos e rezávamos as Laudes em família. Os meus pais foram descobrindo a fé aos poucos e foram transmitindo-a a nós, filhos”, lembra.
Aos 13 anos, entrou numa comunidade neocatecumenal, na Paróquia da Nazaré, no Funchal. Foi aí que começaram a surgir os primeiros sinais de uma vocação que inicialmente rejeitava.
“Achava que ser padre seria um desperdício”
Durante a adolescência, Santiago não se imaginava sacerdote. Pelo contrário, sonhava constituir família e viver um matrimónio cristão e missionário. “O projeto de ser padre não entrava nos meus planos. Eu desejava casar”, assume.
Apesar disso, várias pessoas à sua volta identificavam nele sinais de vocação sacerdotal. Uma situação ficou particularmente gravada na memória. “Uma catequista disse-me: ‘Santiago, por favor, não sejas padre porque seria um desperdício.’ Aquilo irritou-me, mas tocou num ponto importante, porque eu achava, de facto, que ser padre seria um desperdício”, conta.
Com o passar do tempo, reconhece que Deus foi desmontando essa ideia: “Aos poucos, o Senhor foi curando esta má interpretação de que entregar a minha vida a Cristo pelo sacerdócio seria um desperdício”. Embora não se identificasse com o estilo de vida sacerdotal, havia algo que o atraía profundamente. “Eu não desejava o celibato, não o via como uma coisa boa, mas seduzia-me o mistério da Eucaristia. Quando via o padre celebrar, especialmente no momento da consagração, aquilo atraía-me”, salienta.
A alegria que abriu caminho à vocação
O momento decisivo aconteceu em 2016, durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Cracóvia, na Polónia. Ao recordar esse período, Santiago resume a sua história numa frase: “Fui seduzido pela alegria”. Segundo explica, a mesma alegria que tinha atraído os seus pais à fé foi também a chave da sua própria vocação.
Durante um encontro vocacional após a JMJ, ficou profundamente marcado pelo testemunho do Padre Mario Pezzi, uma das figuras ligadas ao Caminho Neocatecumenal. “O rosto dele irradiava uma alegria que me atraiu, perfurou o meu coração. Não era uma pessoa famosa, não estava no centro das atenções, mas brilhava do rosto dele uma alegria que eu desejava”, manifesta.
Esse encontro levou-o a confrontar-se seriamente com o chamamento de Deus. “Quando o Padre Mario subiu ao ambão, eu disse no meu coração: ‘Eu quero isto para mim.’ Não sabia se era o sacerdócio ou não. Queria aquela alegria”, revela.
Pouco depois, durante um apelo vocacional, deu o passo que mudaria a sua vida. “Não sei explicar como, mas levantei-me e corri até ao palco para dar a minha disponibilidade ao Senhor. Rapidamente percebi que não podia fugir do sacerdócio”, explica.
Na altura, terminava o Ensino Secundário e tinha o sonho de estudar Engenharia Aeroespacial. “Gostava da área e tinha o sonho de trabalhar para a Airbus. Mas o Senhor tinha outros planos. No fundo, passei para outro tipo de Céu”, graceja.
Aprender que a missão é disponibilidade
Em 2017, ingressou no Seminário ‘Redemptoris Mater’ de Lisboa, em Caneças. A escolha da capital portuguesa não correspondeu às suas expectativas iniciais. “Eu ia com intenções de ir para Roma ou Madrid. Quando soube que vinha para Lisboa fiquei um bocadinho frustrado”, manifesta.
Com o tempo, porém, descobriu nessa experiência um novo sentido de pertença: “Aprendi que vir para o seminário não é uma experiência de intercâmbio. É estar disposto para onde o Senhor quiser. Aprendi a amar Lisboa e a amar a diocese para onde o Senhor me envia”.
Ao longo dos anos de formação, Santiago viveu experiências pastorais diversas, incluindo um período missionário na Áustria. Contudo, afirma que uma das maiores lições recebidas foi precisamente a renúncia aos seus próprios projetos. “O Senhor tem-me feito ver que a missão é estar onde Ele quer e fazer o que Ele quer. É isso que tenho aprendido”, garante.
A morte do pai como confirmação vocacional
Entre os acontecimentos mais marcantes do seminário destaca a doença e morte do pai, vítima de cancro, em 2021. “Foi um momento muito duro. Eu sentia que estava a perder o meu pai e que estava a perder tempo com ele por estar no seminário”, refere.
Essa experiência tornou-se um tempo de profunda purificação interior. “Foi um momento em que Deus pôs à prova as minhas intenções. Houve revolta, houve luta, houve oração”, reconhece.
Dois dias antes da morte do pai, Santiago viveu um momento que considera decisivo para a sua caminhada. “Consagrei-me a São João Paulo II e pedi a graça de viver aquele sofrimento sem revolta. Foi o momento em que disse: ‘Faça-se.’ Entreguei o meu pai a Deus”, conta, referindo que, após a morte do pai, encontrou uma paz inesperada: “Todas as dúvidas vocacionais desapareceram. Senti uma paz profunda de que era este o lugar onde eu tinha de estar”.
“Quero ser sacerdote segundo a fidelidade de Deus”
À medida que se aproxima o dia da ordenação sacerdotal, o diácono Santiago Villalôbos afirma que a sua principal expectativa não está centrada em si mesmo, mas na ação de Deus. “Espero ser consagrado pelo Senhor, ser assumido na sua fidelidade e no seu amor”, deseja.
Reconhecendo as suas fragilidades, diz confiar totalmente na promessa de Deus. “Desejo que o Senhor faça aquilo que prometeu fazer: fazer-me sacerdote para sempre, configurar-me com Cristo, apesar de mim e apesar das minhas insuficiências”, frisa.
Mais do que realizar grandes projetos ou procurar protagonismo, o futuro sacerdote afirma que deseja viver o ministério como disponibilidade total à vontade de Deus: “Tenho feito a experiência de que muitos dos meus desejos de missão e de grandeza precisaram de ser purificados. Hoje percebo que a missão é estar onde Deus quer e fazer o que Ele quer”.
É nessa certeza que encara o futuro sacerdotal. “É nas promessas de Deus que tenho descansado nos momentos mais difíceis da minha vida. É nessa fidelidade que espero e é nessa fidelidade que me entrego”, conclui.