06/06/2022
Recrear as comunidades
Recrear as comunidades
Na altura aguda da pandemia em que as igrejas foram fechadas, um teólogo checo bem conhecido entre nós, Tomás Halik, publicou uma reflexão oportuna sobre o “sinal das Igrejas vazias”. Realmente, o esvaziamento das Igrejas já se vinha processando há vários anos, sobretudo da parte dos adultos ativos, dos jovens e das crianças. Naturalmente, o abandono dos adultos, sobretudo dos pais, reflete-se na ausência dos mais novos. Porque abandonam? Halik, que é também sociólogo, vê no facto um “sinal do cristianismo vazio”. Ou seja, a fé que transmitimos, permaneceu nas expressões exteriores mas não entrou no coração nem na vida. Realmente, se analisarmos a vida dos crentes dessas idades que abandonaram, verif**amos que a fé cristã não conta na forma de pensar e de agir. Que fazer? Deixar correr? Ou, como recomenda o Papa Francisco, rever a nossa pastoral de forma a recrear as nossas comunidades?
Na Exortação “Evangelii Gaudium”, e em muitas outras intervenções, o Papa alerta-nos que não podemos continuar no “fez-se sempre assim”. A cristandade acabou, a situação é diferente, precisamos de mudar, de sair do tradicionalismo, de criar novos processos, numa perspetiva evangelizadora. Naturalmente não podemos pôr de lado a centralidade da eucaristia. Mas precisamos de cuidar do antes e depois da celebração. Realmente, a “comunidade modelo”, descrita no Livro dos Atos dos Apóstolos, refere quatro assiduidades, ou quatro colunas em que assentam as comunidades: ensino dos apóstolos, eucaristia, união fraterna e orações. A primeira assiduidade (escuta meditada da Sagrada Escritura) precisa de mais cuidado e espaço. Renovámos a catequese de infância e adolescência. Mas a formação de adultos não encontrou a devida importância. Não poderiam valorizar-se muito mais os variados encontros com adultos e criar outros adequados à sua realidade? A prioridade da formação bíblica continua “uma cadeira por fazer”. Do mesmo modo, o lugar da oração precisa de maior cuidado. Fazem-se muitas orações, mas o sentido de presença e diálogo com Deus parece ténue. As orações dão a imagem de fórmulas recitadas com os lábios, mas onde o coração e a vida não entram. Precisamos de pedir constantemente, como os apóstolos, “Senhor ensina-nos a rezar”, e esforçarmo-nos por progredir na oração do coração, contemplada, iluminadora da vida real. Também a união fraterna, a partilha de bens e a presença ativa na vida social, na construção da justiça e da paz no mundo, devem integrar a vida das comunidades.
E aquém temos para responder a tantas propostas? Também aqui precisamos de mudar o nosso estilo. É a prioridade que neste momento nos apresenta a Igreja. De facto, estamos habituados a contar com o clero bem preparado e suficiente. Mas o principal animador da ação da Igreja é o Espírito Santo que distribui os seus dons por todos os membros do povo de Deus. Por isso, a primeira proposta a pôr em prática é promover a sinodalidade, escutando, chamando, entregando responsabilidades e acompanhando. Os pastores habituaram-se a absorver e a orientar em estilo monárquico as comunidades. E os leigos sentem-se bem no papel de clientes passivos, pois já têm muito que fazer. A sinodalidade é um caminho para um novo estilo pastoral que precisamos de aprender e praticar.
Fonte: https://agencia.ecclesia.pt/
Autor: D. Manuel Pelino, Bispo-Emérito de Santarém