Sopro e Vida

Sopro e Vida "A fé e a razão são como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade". João Paulo II
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ESPAÇO DE PARTILHA E INFORMAÇÃO DAS COMUNIDADES PAROQUIAIS:
- DIVINO SALVADOR DE DORNELAS
- SÃO PEDRO DE FIGUEIREDO
- SÃO MIGUEL DE PAREDES SECAS
- SÃO TIAGO DE VILELA
(amares)

O RIDÍCULO DE SI MESMOA vaidade e, por isso, o vazio não estão apenas nos ecrãs; estão por todo o lado, na vida real. A ...
16/06/2026

O RIDÍCULO DE SI MESMO

A vaidade e, por isso, o vazio não estão apenas nos ecrãs; estão por todo o lado, na vida real. A própria existência de muitos define-se e valida-se apenas pelos “likes”, partilhas e comentários nas redes sociais, como se a vida real não bastasse. Honoré de Balzac já dizia que “deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.” Hoje, esta frase encaixa perfeitamente no nosso quotidiano.

Esta vacuidade encena-se em palcos bem reais e manifesta-se, desde logo, no fetichismo das marcas, onde roupas e adereços valem apenas pelo tamanho do logótipo, servindo de mero suporte para exibir um preço e comprar estatuto. É a cultura do aparato que se estende ao pavonear ruidoso nas praças públicas, nas esplanadas da moda e nos lugares de relevo, onde o único objetivo destas criaturas é ver e ser visto, tratando o espaço público como uma passarela privada para monopolizar a atenção.

As ferramentas modernas apenas ampliaram o desespero de Narciso: a tecnologia passou a funcionar como o espelho perfeito desta adoração, reduzindo a existência a um exibicionismo digital em tempo real e à dependência patológica de filtros. Contudo, a face mais perversa desta soberba reside na humildade fingida, no autoelogio disfarçado de queixa e na filantropia de espetáculo usada para engodar os mais incautos. Pratica-se uma caridade encenada, onde a virtude só tem valor se houver uma câmara por perto, provando que, quanto menos substância se tem, mais se precisa de fabricar uma casca.

Estamos rodeados de gente fútil, vaidosa e inútil, cujo único talento é a sua própria adoração. A vaidade é o oxigénio de quem não tem nada para oferecer, à falta de substância, de carácter, de inteligência. Como não têm conteúdo real para mostrar, agarram-se às aparências, ao estatuto, às marcas e a palpites sobre tudo. É uma casca bonita para esconder a falta de miolo. Estas pessoas vivem fechadas no próprio mundo, convencidas de que o universo gira à volta do seu próprio umbigo.

O ridículo deste orgulho chega a ser cómico. Há pessoas tão cheias de si, tão absurdamente ensimesmadas, que desafiam qualquer réstia de bom senso. São aquelas criaturas patéticas que, ao verem um relâmpago cruzar o céu, ajeitam logo a postura e fazem pose. Estão genuinamente convencidas, na sua loucura egocêntrica, de que é o próprio Deus a tirar-lhes uma foto, e com flash.

Toda esta soberba seria apenas uma piada rápida se não passasse de um delírio individual. Mas é uma doença social coletiva. Substituímos o ato de viver pela obrigação de parecer. O mundo cansou-se de personagens construídas sobre o nada. É a falência total do carácter: quanto mais barulho fazem por fora para se exibir, mais ensurdecedor é o vácuo que carregam por dentro… basta abrirem a boca ou esboçarem um comentário.

(P. António Magalhães Sousa)

FÉ DE FACHADA, NEGÓCIO DE VÍBORASJamais pautarei a minha ação por tentar agradar aos homens traindo o Evangelho e os val...
15/06/2026

FÉ DE FACHADA, NEGÓCIO DE VÍBORAS

Jamais pautarei a minha ação por tentar agradar aos homens traindo o Evangelho e os valores cristãos. Não vivo de simpatias baratas nem de opiniões alheias, sobretudo de quem não conhece a minha vida, o meu percurso e o meu coração. Podem falar, criticar, rotular, inventar, denegrir ou perseguir. Perante a calúnia e o julgamento superficial, as Escrituras respondem com precisão cirúrgica: «Geração de víboras, como podeis dizer coisas boas, se sois maus? Pois a boca fala da abundância do coração.» (Mt 12,34). Quem vive na mentira só sabe produzir veneno.

É preciso romper o silêncio e denunciar a exploração financeira: a maioria das festas ditas religiosas transformou-se num negócio profano e numa ofensa grave a Deus. O Santo Nome de Deus e a memória dos santos e mártires são instrumentalizados com um único fim: sugar o dinheiro dos fiéis para inflacionar orçamentos de arraiais onde Deus não entra.

Sob a capa de uma falsa devoção, escondem-se interesses puramente económicos e ambições pessoais. Urge questionar e fiscalizar o que move o empenho de tantas comissões de festas: comissões e favorecimentos (negócios obscuros e contrapartidas financeiras na celebração de contratos com fornecedores, palcos e artistas); redes de influência (a utilização do espaço paroquial e comunitário como trampolim para estabelecer contactos e garantir lucros em negócios presentes e futuros); vaidade existencial (pessoas que, sem causas profundas que guiem as suas vidas, usam o dinheiro comunitário para alimentar o próprio ego e o exibicionismo paroquial).

A par da corrupção material, assiste-se a uma profunda falência espiritual. Pratica-se uma "fé de fezada", puramente exterior, que serve apenas para branquear o pecado e anestesiar a consciência. Multiplicam-se os fiéis de fachada que se atropelam e "peneiram" no acessório, disputando o privilégio de carregar um andor, segurar uma bandeira ou trajar-se de figurante, mas que recusam categoricamente o essencial: "Santificar os Domingos e festas de guarda".

Esta espiritualidade teatral é uma farsa: desprezo pelos Sacramentos (muitos dos que organizam e lideram estas festividades ignoram a Missa dominical e rejeitam as reais prioridades da comunidade cristã; idolatria de madeira e barro (investe-se uma energia desmedida a carregar imagens inertes, enquanto se vira as costas à presença real, viva e verdadeira de Jesus Cristo na Eucaristia); ausência de Caridade (chora-se diante de uma estátua numa procissão, mas demonstra-se uma indiferença absoluta para com os irmãos de carne e osso que sofrem ao lado).

O aparato ruidoso e circense destes arraiais pagãos não passa de uma cortina de fumo para mascarar o vazio de uma conversão que nunca aconteceu. O veredito popular resume com perfeição esta triste palhaçada: “quanto mais vazia a carroça, mais barulho faz”. A verdadeira fé não se compra nas barraquinhas de comes e bebes, não se vende em contratos de artistas, nem se exibe nas luzes de um palco; professa-se na verdade, na obediência ao Evangelho e na caridade silenciosa. Quem troca o essencial pelo acessório, quem prefere aplausos ao altar, não passa de um autêntico farsante mascarado de devoto.

(P. António Magalhães Sousa)

PÔR DEUS A MARCHAR DA VIDA: CRÓNICA DE UMA FÉ DE FACHADAO maior drama da Igreja hoje não é só a falta de fiéis, mas a fa...
14/06/2026

PÔR DEUS A MARCHAR DA VIDA:
CRÓNICA DE UMA FÉ DE FACHADA

O maior drama da Igreja hoje não é só a falta de fiéis, mas a falta de conversão. Multiplica-se uma casta de pessoas que, em vez de moldarem a sua vida ao Evangelho, decidiram moldar o Evangelho à sua vida. Manipulam a Palavra de Deus até que justifique os seus caprichos, os seus vícios e o seu comodismo. A isto chama-se mundanismo: a invasão dos critérios do mundo dentro da esfera do sagrado. Dizer-se católico e, ao mesmo tempo, cuspir nos pilares fundamentais da fé é um ato de pura vaidade humana e de uma profunda arrogância espiritual. É querer a salvação sem a cruz.

Quando publico o que penso e partilho a minha leitura da Palavra, não o faço para recolher aplausos ou para colecionar simpatias. Não procuro agradar a audiências. Para esse papel de entretenimento e anestesia das consciências já existem padres formados (e cirurgicamente formatados) que gerem as paróquias como se fossem empresas de eventos. Criam pequenos feudos onde alguns se inclinam diante deles como se fossem divindades. A verdade, embora doa, é previsível: a mediocridade acaba sempre por se juntar. Defendem-se uns aos outros para protegerem os seus cargos e privilégios. Não há surpresa nenhuma nesta aliança do silêncio.

O que verdadeiramente me move é servir a verdade: o Evangelho não é uma peça de museu, é uma proposta radical para o aqui e o agora. Ser cristão não é um carimbo cultural, um adereço social para exibir em casamentos e batizados, ou uma identidade de fachada. Ser cristão é um modo de vida totalizante. Sei perfeitamente que a denúncia gera desconforto e ódio. Mas a história repete-se sem surpresas. Os profetas do passado não foram mortos por elogiarem o poder ou por passarem a mão na cabeça dos pecadores orgulhosos; foram assassinados porque disseram a verdade que ninguém queria ouvir. Hoje o método mudou, mas o linchamento moral continua igual para quem recusa calar-se.

A prova desta miséria moral e espiritual está à vista de todos. Assistimos à vergonha de pessoas que se dizem católicas, mas que faltam à Missa ao Domingo sem qualquer beliscão na consciência. Ignoram, por pura conveniência, que cometem um pecado grave contra o terceiro mandamento. Para o encontro com o Salvador alegam sempre cansaço ou falta de tempo, mas encontram uma disponibilidade infinita para a frivolidade: Promover festas e arraiais repletos de vaidade; desfilar nas marchas populares como se isso fosse a grande missão das suas vidas; idolatrar o descanso e o lazer individualista; trocar o Sacrifício do Altar por passeios de bicicleta ou caminhadas de fim de semana.

Esta inversão de valores significa, em linguagem clara, mandar Deus às favas no que é essencial. Para este tipo de crente, o importante já não é o que Deus propõe à humanidade, mas sim o que a humanidade pode exigir e sugar de Deus. Esta pouca vergonha (que muitos ainda exibem na praça pública como se fosse uma medalha de modernidade) é o sintoma definitivo da falência espiritual que nos rodeia. Reduziram o Deus Todo-Poderoso a um mero empregado de balcão que serve para satisfazer desejos egoístas.

Sinceramente, quero que se lixem. Naquilo que me toca, continuarei a agir em estrita conformidade com a Verdade evangélica, doa a quem doer. No que concerne a Deus, cada um destes figurantes haverá de prestar contas. No dia do Juízo, não haverá palcos, marchas ou aplausos paroquiais. Terão de explicar ao Criador como tiveram a audácia de o usar, g***r, enxovalhar e trocar por interesses humanos rasteiros, bairrismos parolos e vaidades pessoais de trazer por casa.

A lei espiritual é imutável: ninguém pode dar o que não tem. Quem está vazio por dentro só consegue produzir ruído por fora. Continuem, pois, a fazer barulho e a alimentar-se do barulho. Usem as aparências para se sentirem importantes e ficarem, no mínimo, satisfeitos quando se olham ao espelho. O vosso teatro pode enganar o mundo, mas a imutável soberania de Deus permanece intocável. Marchem e salivem com os aplausos do mundo… No meio destas vaidades e obsessões mundanos, qual o lugar de Deus? Fará sentido marchar vaidosamente para o mundo e por Deus a marchar da própria vida?

(P. António Magalhães Sousa)

EVANGELHO ESQUECIDO, POVO DIVERTIDOCelebramos hoje a festa de Santo António. É um dos santos mais conhecidos e populares...
13/06/2026

EVANGELHO ESQUECIDO, POVO DIVERTIDO

Celebramos hoje a festa de Santo António. É um dos santos mais conhecidos e populares, mas convenhamos: o modo como o celebramos por cá é um verdadeiro prodígio teológico. O Evangelho assenta-lhe na perfeição quando Jesus diz: «Vós sois o sal da terra... Vós sois a luz do mundo». Santo António levou estas palavras à letra: foi sal que deu sabor à Palavra de Deus e luz que iluminou as trevas da ignorância. Nós, munidos de uma sabedoria contemporânea superior, decidimos aplicar o sal exclusivamente na pele da sardinha gorda e a luz nos balões de papel que teimam em incendiar as matas do vizinho.

Diz a escritura que «aquele que medita na lei do Altíssimo, se for do agrado do Senhor omnipotente, será cheio do espírito de inteligência». Santo António levou isto tão a sério que se tornou um sábio brilhante e coerente. Hoje, o "espírito de inteligência" do português comum atinge o seu apogeu na escolha estratégica do lugar ideal na calçada para ver passar a marcha do bairro, garantindo que o fumo do fogareiro alheio não tusta o penteado. Meditar na lei do Altíssimo dá muito trabalho; decorar a letra da cantiga popular é muito mais proveitoso para a alma festiva.

Jesus faz uma pergunta inquietante: «Se o sal perder a força, com que há de salgar-se?». Perder a força significa perder a identidade, viver uma fé morna, de fachada, que não transforma as nossas escolhas diárias. Ora, ser sal exige que combatamos o egoísmo que nos torna insípidos. Mas como manter a identidade cristã quando a nossa grande prioridade espiritual da noite é garantir que o vizinho da frente não nos passa a perna na fila do pão com chouriço? Se a nossa fé não muda a forma como tratamos o marido, os filhos ou os colegas de trabalho, tornamo-nos inúteis. Mas quem quer saber de coerência familiar quando se pode afogar as mágoas num copo de plástico com sangria, enquanto se pisa o pé de um desconhecido ao som de um vocalista pimba?

Jesus afirma também: «Não se acende uma lâmpada para a colocar debaixo do alqueire, mas sobre o candelabro». A comunidade não pode ser um grupo fechado de pessoas que se julgam perfeitas. Tem de ser visível, acolhedora e centrada no serviço. No entanto, a nossa ideia de "cidade situada sobre um monte" é o bairro fechado ao trânsito, onde a única luz visível é a da barraca das farturas e o único serviço prestado é cobrar três euros por uma imperial de 20 centilitros ou uma sardinha assada. Acolhemos todos os turistas com um sorriso, desde que paguem a sardinha a preço de lagosta.

Santo António ficou conhecido como o "martelo dos heréticos" e o defensor dos pobres. Não escondeu a sua luz; saiu à rua, pregou nas praças e enfrentou os poderosos que exploravam os mais frágeis. Nós herdámos essa nobre tradição do martelo, mas com uma ligeira nuance adaptativa: substituímos a teologia por plástico ruidoso com cheiro a fumo e passamos a noite a agredir alegremente a cabeça de idosos e crianças na via pública. É o nosso conceito de "enfrentar o próximo". Em vez de defendermos os pobres, preferimos gastar o ordenado mínimo em rifas na quermesse para ganhar um peluche fabricado na China.

Uma comunidade que não brilha através de "boas obras" é uma comunidade apagada. Precisamos de iluminar as periferias da solidão e da pobreza que existem na nossa própria rua. Mas sejamos práticos: o cheiro a manjerico abafa perfeitamente o odor da miséria social e o barulho das colunas em sobressalto não nos deixa ouvir o vizinho do lado a pedir ajuda. Por isso, deixemos as grandes reflexões sobre a injustiça para os santos que já morreram. Estes dias, o sal serve para a ressaca do dia seguinte, o martelo serve para calar a razão e, se Santo António for mesmo milagreiro, que nos encontre as chaves de casa no meio do lixo que deixámos no chão. Se não encontrar, paciência: para o ano há mais fumo, mais plástico e a mesma admirável escuridão. Viva o Santo António!

(P. António Magalhães Sousa)

A FONTE DA MISERICÓRDIACelebramos hoje a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, uma das festividades mais profundas do ...
12/06/2026

A FONTE DA MISERICÓRDIA

Celebramos hoje a solenidade do Sagrado Coração de Jesus, uma das festividades mais profundas do calendário litúrgico da Igreja Católica. Esta data não é apenas uma recordação devocional, mas um convite para adentrarmos no mistério do amor incondicional, compassivo e redentor de Deus pela humanidade. Celebrar o Coração de Cristo significa contemplar o centro íntimo de onde brota a salvação, a fonte viva da qual jorram o sangue e a água que nutrem a Igreja através dos Sacramentos.

Embora as raízes desta devoção mergulhem na mística medieval, foi no século XVII que ganhou a sua expressão teológica e universal contemporânea. O epicentro desta renovação espiritual deu-se em Paray-le-Monial, uma pequena e discreta localidade francesa. Foi ali que uma humilde freira da Ordem da Visitação, Santa Margarida Maria Alacoque, recebeu entre 1673 e 1675 as grandes revelações místicas do Senhor.

Nas aparições, Jesus manifestou-se mostrando o Seu Coração visível, rodeado de chamas de amor, coroado de espinhos e transpassado pela ferida da lança. Mais do que uma imagem de dor, era uma manifestação de entrega extrema. O Salvador lamentava a frieza, a indiferença e as ingratidões com que a humanidade correspondia a tanto amor. Através de Santa Margarida, Jesus pediu a instituição desta festa na sexta-feira após a oitava do Corpus Christi, bem como a prática da comunhão reparadora nas primeiras sextas-feiras do mês. O desígnio era claro: reparar as ofensas e adorar a Divina Caridade que se dá sem reservas.

Há poucos dias, tive a graça de peregrinar a Paray-le-Monial. Ali, não fui guiado pelo espírito do turismo profano ou da mera curiosidade cultural, mas sim por uma imperiosa necessidade da alma: a de rezar num lugar que me diz tanto afetivamente, tocado pela sublime mensagem de Amor que daquela terra continua a brotar. Caminhar por Paray-le-Monial é testemunhar uma devoção viva, perene e universal. O significado deste lugar ultrapassa os limites da história; constitui um verdadeiro oásis espiritual onde se sente pulsar o amor de Deus feito carne. Naquela atmosfera de profundo silêncio e adoração, a fé renova-se e o coração pacifica-se diante do infinito mistério da Reconciliação.

Nesse solo abençoado, tive o privilégio de participar na celebração da Eucaristia. No altar do Senhor, fiz questão de oferecer o Santo Sacrifício por intenções que levava cravadas na alma: por todos os meus paroquianos, familiares e amigos falecidos. Depositei cada um deles, com as suas histórias e memórias, no interior do Coração Santíssimo de Jesus. Fiz a entrega confiante naquela promessa evangélica eterna que vence o medo e a própria morte: “Vinde a mim todos os que andais cansados e oprimidos e eu vos aliviarei” (Mt 11, 28). Entregar os nossos entes queridos a este Coração significa saber que eles repousam na ternura daquele que prometeu o descanso eterno e a ressurreição.

O Papa São João Paulo II, com profunda intuição pastoral, quis que este dia fizesse eco de uma urgência eclesial: a Jornada Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes. Contemplar o Coração de Jesus é olhar para o protótipo do Bom Pastor, aquele que dá a vida pelas suas ovelhas. Olhando para a exigente missão de guiar o povo de Deus, percebemos quão preciso é rezar por nós! Por todos nós, padres, homens chamados a ser pontes entre o Céu e a Terra. Transportamos o tesouro do Evangelho em vasos de argila, marcados pelas debilidades e fragilidades humanas. Precisamos da vossa oração para que o nosso coração seja diariamente configurado ao Coração de Cristo, tornando-nos pastores segundo o Seu exemplo: mansos, humildes, pacientes e inteiramente entregues ao serviço do próximo.

(P. António Magalhães Sousa)

PADRES SEM LEI, LEIGOS CÚMPLICESA gestão pastoral e a administração dos sacramentos na Igreja Católica não são proprieda...
11/06/2026

PADRES SEM LEI, LEIGOS CÚMPLICES

A gestão pastoral e a administração dos sacramentos na Igreja Católica não são propriedade privada de nenhum sacerdote. Não dependem do seu arbítrio, da sua vaidade ou da sua necessidade de popularidade barata. Existem regras claras, estruturadas e universais que exigem respeito. Contudo, há muito que venho a denunciar as ações vergonhosas de alguns padres (que muitos leigos conhecem e vergonhosamente apadrinham) e que constituem um autêntico atentado às orientações da Igreja, a uma sadia convivência pastoral e à mais elementar lealdade sacerdotal. Façamos de conta, para evitar melindres institucionais, que esta selva eclesial acontece longe daqui, no planeta Marte…

O Código de Direito Canónico é taxativo ao definir os critérios de ação dos padres responsáveis por paróquias, assentando essencialmente no princípio da jurisdição territorial. O que dizer, então, de um padre que decide ignorar as fronteiras da sua paróquia e batiza crianças oriundas de territórios que não estão sob a sua jurisdição? Falamos de prevaricações graves: nuns casos, o sacramento é administrado à revelia e sem o conhecimento do pároco próprio; noutros, avança-se deliberadamente sem a devida autorização.

Este compadrio ganha contornos de feira livre quando passamos para a catequese e para o Crisma. Há párocos que inscrevem sem escrúpulos crianças que não são da sua paróquia. O argumento dos pais interessados é de um cinismo atroz: escolhem aquele padre porque ele «não é exigente», «facilita tudo desde que paguem» e nem sequer «obriga» as crianças a ir à Missa. Tudo isto é feito na sombra, sem dar a mínima satisfação ou «dar cavaco» aos párocos dessas crianças. O mesmo mercantilismo se repete no sacramento do Crisma, aceitando candidatos à revelia e, em certos casos, declarando a idoneidade de padrinhos que nem sequer residem naquelas paróquias. O critério, pelos vistos, é de uma simplicidade insultuosa: os interessados inscrevem-se como paroquianos, pagam os devidos «direitos» financeiros e obtêm livre-trânsito para o que quiserem.

A incoerência atinge o expoente máximo na hora de passar as declarações de idoneidade. Pensemos no caso flagrante do padre que acompanhou de perto a vida de fé de um jovem: o rapaz foi batizado na sua paróquia, frequentou ali a catequese, fez a primeira comunhão e foi confirmado. Entretanto, descobriu-se que a sua residência civil ficava, por mero limite geográfico, noutra paróquia. Pois bem, aquele mesmo sacerdote que passa alegremente declarações de idoneidade a perfeitos desconhecidos (que não residem nas suas paróquias nem lá fizeram o seu percurso de fé) nega-se, de forma fria e burocrática, a passar o documento àquele jovem que desde sempre fez tudo ali. Onde está a coerência? Onde está a decência pastoral?

Esta total subversão das regras levanta as dúvidas mais graves. E aqueles padres que organizam casamentos e batizados passando por cima dos párocos? Serão os batizados legítimos? Serão os casamentos válidos? No caso do Matrimónio, a situação jurídica é fulminante: a falta de competência territorial ou da devida autorização e delegação do pároco próprio pode mesmo tornar o casamento juridicamente inválido. Andam pessoas a celebrar o matrimónio sem saberem que, perante a Igreja, o ato é nulo. Sim, não falo de cor… há exemplos concretos.

É esta a Igreja que queremos? Uma instituição manobrada por uns «chico-espertos» que, em troco de umas centenas de euros, põem em causa o Direito Canónico e as mais elementares orientações pastorais? Vale tudo? A culpa não morre solteira. Os fiéis veem isto e calam-se, ou pior, aplaudem porque o facilitismo serve os seus interesses. Ao procurarem o caminho mais curto, menos exigente e puramente transacional, tornam-se moralmente cúmplices deste descalabro. São, lamentavelmente, farinha do mesmo s**o. Urge que a autoridade diocesana ponha cobro a este leilão sacramental, sob pena de transformarmos a fé num mero balcão de conveniências comerciais. Se ainda formos a tempo…

(P. António Magalhães Sousa)

O ERRO DE MENDIGAR O MUNDODizemo-nos pessoas de fé, mas a verdade é que não vivemos como tal. Falamos com facilidade do ...
11/06/2026

O ERRO DE MENDIGAR O MUNDO

Dizemo-nos pessoas de fé, mas a verdade é que não vivemos como tal. Falamos com facilidade do Evangelho, tecemos elogios à beleza das propostas de Jesus e comovemo-nos com a sua radicalidade quando O escutamos. Contudo, fechada a porta da igreja, raramente O levamos a sério. Há uma fratura evidente entre a nossa teoria piedosa e a nossa prática diária. Vivemos num estado de divórcio espiritual, onde admiramos o Mestre, mas recusamos segui-Lo no concreto da vida.

Esta tibieza reflete-se na nossa urgência em agradar ao mundo, um erro desmascarado pelas próprias palavras de Jesus: «Ao entrardes na casa, saudai-a, e se for digna, desça a vossa paz sobre ela; mas se não for digna, volte para vós a vossa paz.» Nestas instruções, Cristo não nos pede para andar a mendigar atenção, a negociar convicções ou a criar estratégias de marketing para cativar as pessoas. O mandato é de uma simplicidade desconcertante: levar e dar a paz que trazemos connosco.

O problema central é um paradoxo existencial: como podemos dar aos outros a paz se vivemos em inquietação permanente? Não é possível transmitir a presença real de Cristo quando o nosso peito respira os ares, as modas e os saberes do mundo. Falhamos porque confiamos muito mais nos nossos planos, na nossa inteligência e nas nossas forças do que no próprio Cristo. A nossa única tarefa é sermos pessoas de bem, vivermos ancorados na paz da fidelidade e deixar que Ele faça o resto. O ativismo frenético é, quase sempre, o disfarce de uma fé sem raiz.

Ao longo do caminho, cruzamo-nos com muitos que escolheram a ausência de paz. Pessoas que preferem viver em guerra permanente consigo mesmas, com o mundo que as rodeia e com o Deus que as criou. A postura cristã perante isto deve ser de firmeza e desapego: se não são dignos, o problema é deles. Não faz sentido perder a paz interior por causa de quem escolheu viver em conflito aberto com o Criador. Há recusas que não nascem de dúvidas intelectuais, mas sim de corações habitados, e até possuídos, pelo próprio Demónio, que rejeita categoricamente a harmonia divina. Não vale a pena ter pena de quem nem de si mesmo tem compaixão. A nossa comiseração humana não pode anular o livre-arbítrio alheio.

O Evangelho nunca foi um decreto; é uma proposta. Se os outros não o querem, se escolhem deliberadamente trilhar caminhos de rutura e escuridão, essa responsabilidade pertence-lhes inteiramente. No Evangelho de São João, há um momento em que a dureza das palavras de Jesus afasta a multidão: «A partir desse momento, muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com Ele.» Jesus não correu atrás deles a pedir desculpa, nem suavizou o discurso para os cativar. Voltou-se simplesmente para os Doze e perguntou: «Quereis também vós ir embora?».

Há uma dignidade soberana no gesto de quem propõe sem obrigar. Urge anunciar a Palavra sem o pavor do julgamento do mundo e sem o complexo de subserviência que hoje nos paralisa. A missão esgota-se na fidelidade da entrega; a resposta do outro já não nos pertence. Se a liberdade humana prefere habitar o deserto, que arque com o silêncio da sua escolha. O nosso destino é a estrada; a nossa bagagem, a paz intacta.

(P. António Magalhães Sousa)

VIVER O (MEU) SACERDÓCIO HOJE: LUCIDEZ, IMPERFEIÇÃO E ENTREGAExercer o ministério sacerdotal na atualidade exige uma gra...
10/06/2026

VIVER O (MEU) SACERDÓCIO HOJE:
LUCIDEZ, IMPERFEIÇÃO E ENTREGA

Exercer o ministério sacerdotal na atualidade exige uma grande lucidez. Como padre, procuro levar a sério a missão que me foi confiada, honrando os compromissos assumidos a nível pessoal e como pároco. Não sou perfeito, e reconheço-o com humildade. Contudo, a imperfeição humana não serve de desculpa para o relativismo.

A minha bússola espiritual e moral é o Evangelho, orientada pelos instrumentos normativos e doutrinais que a Igreja nos oferece: o Catecismo da Igreja Católica, o Magistério e o Código de Direito Canónico. É nesta fidelidade que alicerço a minha ação. Para guiar este caminho, trago gravadas no coração quatro passagens bíblicas fundamentais que moldam o meu sacerdócio e justificam a firmeza das minhas posições.

A primeira passagem que me norteia lembra-me constantemente a minha condição: «Somos servos inúteis; fizemos o que devíamos fazer» (Lc 17, 10). Tudo o que realizo pelo Povo de Deus não é motivo de vaidade ou orgulho; é, simplesmente, a minha obrigação. Não espero aplausos, privilégios ou recompensas humanas. A única recompensa que procuro é a paz de uma consciência limpa perante Deus, sabendo que cumpri o dever que Ele me designou.

Não me sai da cabeça a parábola da ovelha perdida (Lc 15, 3-7). Ela ilustra o amor incondicional de Deus e a urgência do pastor que deixa as noventa e nove em segurança para procurar, com zelo e diligência, a única que se desviou, celebrando com alegria o seu regresso. Como pastor, sofro imenso por aqueles que andam perdidos. Não me canso de alertar, em todos os momentos, para o perigo desse afastamento. A reação contemporânea, contudo, é dolorosa. Muitos não querem saber, riem-se e gozam com a minha preocupação pastoral.

A verdade é dura: aviso, alerto e exorto, mas uma parte significativa de pessoas só aparece na igreja para uma festa, quando precisa de um papel, de uma certidão ou de um formalismo burocrático. E, quando chegam, ficam profundamente chateadas porque não encontram ali um funcionário público pronto a despachar serviços ao gosto do cliente, mas sim um pastor que zela pela verdade dos sacramentos.

É por isso que a exortação de São Paulo a Timóteo ressoa tão fundo no meu coração e deveria ecoar na alma de todos os pastores: «Conjuro-te, diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: proclama a Palavra, insiste a propósito e a despropósito, repreende, admoesta, exorta com toda a paciência e doutrina. Chegará o tempo em que os homens já não suportarão mais a salutar doutrina; pelo contrário, levados pelos seus caprichos, hão de acumular para si mesmos uma série de mestres que lhes dirão o que querem ouvir, e desviarão os ouvidos da verdade, voltando-se para as fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em tudo, suporta os sofrimentos, faz a obra de um evangelizador, cumpre cabalmente o teu ministério» (2 Tim 4, 1-5).

Vivemos exatamente nesse tempo. Multiplicam-se os que procuram uma fé à medida dos seus caprichos, pastores que digam apenas o que agrada ao ouvido e uma religião sem exigência. Mas o mandato recebido é o de anunciar a verdade por inteiro, doa a quem doer, com paciência, mas sem cedências ao erro ou às modas do mundo.

Por fim, o meu ministério é confrontado com a tremenda responsabilidade escatológica descrita pelo profeta Ezequiel (Ez 33, 1-9). A Palavra de Deus deita por terra qualquer tentação de silêncio cómodo ou de cobardia pastoral através da figura do sentinela. Se o sentinela vê aproximar-se a espada do inimigo e não toca a trombeta para avisar o povo, Deus é categórico: o pecador morrerá na sua culpa, mas o sangue dele será requerido das mãos do sentinela. Se, pelo contrário, o sentinela cumpre o seu dever, dá o alerta com clareza e, ainda assim, o homem recusa converter-se, este morrerá no seu pecado, mas o sentinela salvou a sua própria vida.

Esta passagem destrói a ilusão de que o silêncio do padre é uma forma de respeito ou de tolerância. O silêncio perante o erro não é caridade; é cumplicidade e negligência criminosa. Se me calo para não incomodar, para evitar conflitos ou para manter uma popularidade barata, estou a trair as almas que me foram confiadas e a decretar a minha própria condenação.

Sei perante Quem me vou ajoelhar no final dos meus dias. Sei que serei julgado, não pelo nível de simpatia que despertei, mas pela fidelidade à verdade que anunciei. Por isso, quando insisto, quando repreendo e quando exorto, faço-o consciente de que o sangue de cada paroquiano me será exigido se eu fechar os olhos ao seu desvio. O meu papel não é anestesiar consciências com palavras mansas, mas ser a trombeta que desperta os corações antes que seja tarde demais. Se o mundo prefere ignorar o toque de alerta e continuar a caminhar para o abismo, a responsabilidade já não recai sobre o pastor; mas ai de mim se a espada chegar e eu estivesse a dormir ou a tentar agradar aos homens.

(P. António Magalhães Sousa)

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