16/06/2026
O RIDÍCULO DE SI MESMO
A vaidade e, por isso, o vazio não estão apenas nos ecrãs; estão por todo o lado, na vida real. A própria existência de muitos define-se e valida-se apenas pelos “likes”, partilhas e comentários nas redes sociais, como se a vida real não bastasse. Honoré de Balzac já dizia que “deve-se deixar a vaidade aos que não têm outra coisa para exibir.” Hoje, esta frase encaixa perfeitamente no nosso quotidiano.
Esta vacuidade encena-se em palcos bem reais e manifesta-se, desde logo, no fetichismo das marcas, onde roupas e adereços valem apenas pelo tamanho do logótipo, servindo de mero suporte para exibir um preço e comprar estatuto. É a cultura do aparato que se estende ao pavonear ruidoso nas praças públicas, nas esplanadas da moda e nos lugares de relevo, onde o único objetivo destas criaturas é ver e ser visto, tratando o espaço público como uma passarela privada para monopolizar a atenção.
As ferramentas modernas apenas ampliaram o desespero de Narciso: a tecnologia passou a funcionar como o espelho perfeito desta adoração, reduzindo a existência a um exibicionismo digital em tempo real e à dependência patológica de filtros. Contudo, a face mais perversa desta soberba reside na humildade fingida, no autoelogio disfarçado de queixa e na filantropia de espetáculo usada para engodar os mais incautos. Pratica-se uma caridade encenada, onde a virtude só tem valor se houver uma câmara por perto, provando que, quanto menos substância se tem, mais se precisa de fabricar uma casca.
Estamos rodeados de gente fútil, vaidosa e inútil, cujo único talento é a sua própria adoração. A vaidade é o oxigénio de quem não tem nada para oferecer, à falta de substância, de carácter, de inteligência. Como não têm conteúdo real para mostrar, agarram-se às aparências, ao estatuto, às marcas e a palpites sobre tudo. É uma casca bonita para esconder a falta de miolo. Estas pessoas vivem fechadas no próprio mundo, convencidas de que o universo gira à volta do seu próprio umbigo.
O ridículo deste orgulho chega a ser cómico. Há pessoas tão cheias de si, tão absurdamente ensimesmadas, que desafiam qualquer réstia de bom senso. São aquelas criaturas patéticas que, ao verem um relâmpago cruzar o céu, ajeitam logo a postura e fazem pose. Estão genuinamente convencidas, na sua loucura egocêntrica, de que é o próprio Deus a tirar-lhes uma foto, e com flash.
Toda esta soberba seria apenas uma piada rápida se não passasse de um delírio individual. Mas é uma doença social coletiva. Substituímos o ato de viver pela obrigação de parecer. O mundo cansou-se de personagens construídas sobre o nada. É a falência total do carácter: quanto mais barulho fazem por fora para se exibir, mais ensurdecedor é o vácuo que carregam por dentro… basta abrirem a boca ou esboçarem um comentário.
(P. António Magalhães Sousa)