07/08/2026
UMA HEDIONDA PROFANAÇÃO PASTORAL
Já não há paciência que resista, nem caridade que mascare a hipocrisia. Tornou-se um fardo insuportável lidar com determinados “fiéis” que pululam pelas nossas paróquias. São crentes de conveniência, para quem o Evangelho é letra morta, a Doutrina um anacronismo e as orientações da Igreja um estorvo. Desconhecem a beleza da fé e ignoram o Magistério, mas transformam-se em doutores da lei quando se trata de satisfazer “direitos” inventados e defender interesses próprios. Para exigir serviços religiosos "à la carte", festas estrondosas, bodas faustosas ou bênçãos folclóricas e pouco sérias, sabem tudo. Nesses momentos, a liturgia que desprezam serve apenas de cenário para a vaidade social.
É simplesmente inacreditável o grau de arrogância e exigência com que esta gente se abeira do pároco. Tratam o sacerdote com uma sobranceria asquerosa, como se fosse um simples moço de recados, um funcionário subalterno ao serviço de suas excelências. Exigem o sacramento como quem exige um produto numa prateleira de supermercado, sem conversão, sem respeito e sem compromisso.
E o pior é que este cenário trágico não tem fim à vista; a tendência é para piorar. A culpa disto? É, em grande parte, dos bispos e da corte clerical que os rodeiam. Escrevem documentos belíssimos, publicam decretos pomposos, mas são incapazes de os fazer cumprir. Se a hierarquia “obrigasse”, de facto, os padres a respeitar as normas e “protegesse” os pastores que tentam levar a sério as orientações da Igreja, tudo seria radicalmente diferente. Mas impera a cobardia e uma exigência seletiva vergonhosa. O rigor só se aplica aos pequenos. Quando estão em jogo títulos, saldos bancários chorudos, "cunhas" influentes ou o medo do ruído mediático, a doutrina verga-se e a norma dissolve-se.
Anda tudo sem rei nem roque, num descalabro institucional onde a bússola moral e espiritual da Igreja parece ter sido completamente descartada. A prioridade máxima já não é a salvação das almas, nem a conversão dos corações, mas sim a manutenção cobarde de uma paz podre e anestesiante. Vive-se sob a ditadura do "não levantar ondas", onde o silêncio cúmplice e o relativismo pastoral passaram a ser virtudes administrativas. O importante é que não haja revoltas, que a opinião pública não se agite e que a ignorância religiosa continue camuflada.
Tudo se resume a uma engrenagem burocrática montada para que as pessoas vejam satisfeitos os seus caprichos rituais e as suas exigências folclóricas, transformando os sacramentos em meros palcos de vaidade social. Compra-se a pacif**ação das paróquias à custa da adulteração da fé. E, do outro lado do balcão, garante-se que os pastores não percam as suas regalias ancestrais, o seu conforto mundano, o seu prestígio local e, acima de tudo, a sua receita financeira. A Igreja é assim reduzida a uma empresa prestadora de serviços religiosos, onde o cliente tem sempre razão, o lucro paroquial é salvaguardado e o Evangelho é o preço a pagar para manter o sistema a funcionar sem sobressaltos.
No meio desta decadência, há um pormenor perverso: quem ousa denunciar o erro, quem põe o dedo na ferida e aponta a incoerência gritante entre o que a Igreja propõe e o que na realidade se permite, acaba por ser o mau da fita. Quem aponta para o “status quo” é olhado de soslaio pelos seus pares, isolado e criticado em todas as instâncias possíveis, muitas vezes sob o manto de ameaças veladas. Assiste-se ao espetáculo degradante de fiéis que espumam de raiva e ódio porque não suportam ver denunciadas as suas tropelias ao Evangelho. Paralelamente, há pastores que ainda não perceberam (ou fingem não perceber) que o Evangelho não é um livro de ficção ou de poesia barata, mas a história viva da nossa salvação. Quem não está preocupado em salvar o povo que lhe foi confiado atrai sobre si a própria condenação. O mandato divino deveria ecoar como um trovão na consciência de cada pastor: “Apascenta as minhas ovelhas”. O resto é traição.
(P. António Magalhães Sousa)