23/09/2026
O CALVÁRIO DO SILÊNCIO E DA TRAIÇÃO
Dói no mais fundo da alma ver ruir aquilo que outrora foi o meu porto seguro. Olho para os pastores que deveriam guiar-nos em Braga e sinto apenas um vazio imenso, uma dor aguda provocada pela perda absoluta da última réstia de confiança que ainda teimava em resistir em mim. Aqueles que receberam a missão de cuidar do rebanho fecharam o coração à verdadeira vocação, deixando que o compadrio e a frieza de uma gestão comercial tomassem o lugar da fé.
A Igreja, que deveria ser a casa do acolhimento e do co***lo, transformou-se, aos meus olhos encharcados, numa empresa fria de produtos sagrados, num balcão de negócios e de interesses onde o amor a Cristo foi esquecido. É profundamente doloroso ouvir palavras bonitas como comunhão, transparência e fraternidade ressoarem nos altares, sabendo que são apenas cascas vazias, chavões repetidos por obrigação, enquanto as decisões reais são tomadas na penumbra, longe do olhar e do coração do povo.
Sinto uma mágoa imensa ao ver o silêncio cúmplice que alimenta a arrogância de quem deveria servir com humildade. O sagrado foi mercantilizado, exposto na montra do mundo como um produto qualquer, uma vergonha silenciosa que me aperta o peito e me rouba o sono. Estou cansado. A minha alma está exausta deste peso. Há uma solidão tremenda em continuar a tentar servir o povo de Deus enquanto vejo a indiferença reinar à minha volta. O choro do meu coração vem da certeza de que, para muitos, o ideal é o silêncio da ignorância, desde que a receita continue a entrar abundantemente.
É devastador perceber a falta de rumo, a ausência de identidade e o abandono do Evangelho por parte daqueles que escolheram bajular os senhores do mundo em vez de seguir os passos de Jesus. Fomos deixados órfãos de pastores autênticos. Caminhamos numa Igreja que parece ter perdido a sua bússola, a sua essência, o próprio Cristo, deixando-nos apenas com o eco de documentos vazios e o espetáculo triste de um sistema que se aplaude a si mesmo. Enquanto os "meninos do sistema" se passeiam impunemente, nós, na sombra, choramos o desprezo pelas orientações espirituais.
Mas o que mais me dilacera o peito é o sofrimento oculto nos bastidores. Carrego a dor profunda de me sentir perseguido e intimidado por quem devia ser irmão. É assustador e profundamente triste ver que o assédio moral e psicológico, a difamação e a tentativa de linchamento moral se tornaram armas contra quem apenas quer a verdade. Choro ao perceber que, para manter o silêncio e o dinheiro a jorrar, se recorre a jogadas sujas nas sombras, obrigando-me a olhar para as leis dos homens e para os tribunais civis em busca da justiça e da proteção que a minha própria casa espiritual me nega. Sinto-me ferido no meu múnus, na missão que o Direito Canónico me confiou de ensinar, santif**ar e governar o povo que me foi entregue pelo próprio Cristo. É uma dor imensurável ver que o papel sagrado do pároco é esmagado pelo corporativismo e por interesses mundanos.
Escrevo com as lágrimas a correrem-me pela alma, não por ódio, mas pela mágoa de ver que a hipocrisia de "lavar a roupa suja em casa" serve apenas para abafar os gritos de socorro de quem não obtém resposta. Sinto a solidão do isolamento, o peso de sofrer perseguições por me recusar a fazer parte de uma engrenagem que se assemelha mais a uma sociedade secreta do que ao sacramento de Cristo. O meu coração sangra ao ver o povo simples ser mantido na ignorância, alheio a realidades que nem imagina, enquanto eu continuo a caminhar por este calvário de bastidores, resistindo ao medo, mas profundamente magoado com a traição daqueles que deveriam ser pastores e se tornaram perseguidores.
No meio desta tempestade de desilusão e de perseguição, o único conforto e co***lo real que ainda sinto brota diretamente das comunidades que me foram confiadas. Há pessoas extraordinárias nestas paróquias que se tornaram a minha verdadeira tábua de salvação, seres de luz a quem me agarro com todas as minhas forças para conseguir respirar, resistir e sobreviver a cada dia. É no sorriso das crianças, no olhar sincero, no abraço generoso e na fé pura deste povo simples que encontro a força necessária para não me deixar afundar pelo peso do sistema, lembrando-me diariamente que vale a pena continuar a lutar por eles e a resistir a pôr fim a TUDO.
(P. António Magalhães Sousa)