24/07/2026
FÉ DE FACHADA, NEGÓCIO DE VÍBORAS
FÉ DE FACHADA, NEGÓCIO DE VÍBORAS
Jamais pautarei a minha ação por tentar agradar aos homens traindo o Evangelho e os valores cristãos. Não vivo de simpatias baratas nem de opiniões alheias, sobretudo de quem não conhece a minha vida, o meu percurso e o meu coração. Podem falar, criticar, rotular, inventar, denegrir ou perseguir. Perante a calúnia e o julgamento superficial, as Escrituras respondem com precisão cirúrgica: «Geração de víboras, como podeis dizer coisas boas, se sois maus? Pois a boca fala da abundância do coração.» (Mt 12,34). Quem vive na mentira só sabe produzir veneno.
É preciso romper o silêncio e denunciar a exploração financeira: a maioria das festas ditas religiosas transformou-se num negócio profano e numa ofensa grave a Deus. O Santo Nome de Deus e a memória dos santos e mártires são instrumentalizados com um único fim: sugar o dinheiro dos fiéis para inflacionar orçamentos de arraiais onde Deus não entra.
Sob a capa de uma falsa devoção, escondem-se interesses puramente económicos e ambições pessoais. Urge questionar e fiscalizar o que move o empenho de tantas comissões de festas: comissões e favorecimentos (negócios obscuros e contrapartidas financeiras na celebração de contratos com fornecedores, palcos e artistas); redes de influência (a utilização do espaço paroquial e comunitário como trampolim para estabelecer contactos e garantir lucros em negócios presentes e futuros); vaidade existencial (pessoas que, sem causas profundas que guiem as suas vidas, usam o dinheiro comunitário para alimentar o próprio ego e o exibicionismo paroquial).
A par da corrupção material, assiste-se a uma profunda falência espiritual. Pratica-se uma "fé de fezada", puramente exterior, que serve apenas para branquear o pecado e anestesiar a consciência. Multiplicam-se os fiéis de fachada que se atropelam e "peneiram" no acessório, disputando o privilégio de carregar um andor, segurar uma bandeira ou trajar-se de figurante, mas que recusam categoricamente o essencial: "Santificar os Domingos e festas de guarda".
Esta espiritualidade teatral é uma farsa: desprezo pelos Sacramentos (muitos dos que organizam e lideram estas festividades ignoram a Missa dominical e rejeitam as reais prioridades da comunidade cristã; idolatria de madeira e barro (investe-se uma energia desmedida a carregar imagens inertes, enquanto se vira as costas à presença real, viva e verdadeira de Jesus Cristo na Eucaristia); ausência de Caridade (chora-se diante de uma estátua numa procissão, mas demonstra-se uma indiferença absoluta para com os irmãos de carne e osso que sofrem ao lado).
O aparato ruidoso e circense destes arraiais pagãos não passa de uma cortina de fumo para mascarar o vazio de uma conversão que nunca aconteceu. O veredito popular resume com perfeição esta triste palhaçada: “quanto mais vazia a carroça, mais barulho faz”. A verdadeira fé não se compra nas barraquinhas de comes e bebes, não se vende em contratos de artistas, nem se exibe nas luzes de um palco; professa-se na verdade, na obediência ao Evangelho e na caridade silenciosa. Quem troca o essencial pelo acessório, quem prefere aplausos ao altar, não passa de um autêntico farsante mascarado de devoto.
(P. António Magalhães Sousa)