09/08/2026
𝐗𝐈𝐗 𝐃𝐨𝐦𝐢𝐧𝐠𝐨 𝐝𝐨 𝐓𝐞𝐦𝐩𝐨 𝐂𝐨𝐦𝐮𝐦
Há momentos em que imaginamos que Deus deveria chegar à nossa vida como uma evidência. Gostaríamos, talvez, de um Deus que se impusesse, mas a Palavra deste domingo conta-nos outra coisa.
Elias procura Deus e descobre que Ele não está no estrondo. Pedro procura Jesus e descobre que não basta vê-Lo caminhar sobre as águas. Paulo fala-nos de uma fé que se transforma numa dor de amor pelos outros.
As três leituras parecem diferentes, mas dizem, no fundo, a mesma coisa: Deus não elimina a fragilidade da nossa vida, entra nela.
𝐃𝐞𝐮𝐬 𝐧ã𝐨 𝐞𝐬𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐧𝐨 𝐯𝐞𝐧𝐭𝐨
Elias encontra-se numa gruta. A gruta é um lugar físico, mas pode ser também um lugar interior. Todos conhecemos as nossas grutas. São os lugares onde nos escondemos quando estamos cansados, quando alguma coisa nos feriu, quando já não sabemos muito bem por onde continuar.
Elias chega ao Horeb assim. E Deus diz-lhe uma coisa extraordinária: “Sai”. Antes de Se revelar, Deus pede a Elias que saia. Porque há momentos em que a vida espiritual começa simplesmente por aceitar sair daquilo onde nos fechámos.
Depois vem o vento, o terramoto e o fogo e seria natural pensar que agora, sim, Deus está aqui. Mas o texto repete quase, obstinadamente: Deus não estava no vento, não estava no terramoto, nem no fogo. Até que chega uma ligeira brisa e Elias compreende. Talvez um dos grandes equívocos da nossa relação com Deus seja procurá-Lo apenas naquilo que é extraordinário, esperamos sinais, respostas inequívocas, esperamos acontecimentos que resolvam imediatamente aquilo que não compreendemos, mas Deus escolhe tantas vezes outra linguagem. A linguagem do quase imperceptível. Uma palavra que chega no momento certo, uma pessoa que permanece, um silêncio que inesperadamente nos pacifica, uma força que não sabíamos possuir, uma porta que se abre discretamente, uma pequena luz que não resolve a noite inteira, mas permite dar o passo seguinte.
A fé precisa de aprender a escutar o pequeno, porque Deus não fala apenas através daquilo que muda o mundo diante dos nossos olhos. Muitas vezes fala através daquilo que muda silenciosamente o nosso coração.
Vivemos rodeados de ruído e talvez por isso tenhamos tanta dificuldade em reconhecer Deus.
“𝐕𝐞𝐦!”
No Evangelho, também há vento, mas agora os discípulos estão no meio do mar. É noite, o barco é açoitado pelas ondas e o vento é contrário. Há uma expressão neste Evangelho que descreve admiravelmente certas fases da nossa existência: “o vento era contrário”. Todos sabemos o que isso significa. Há tempos em que parece que tudo exige mais esforço, avançamos pouco, aquilo que julgávamos seguro torna-se instável. Fazemos o que podemos e, mesmo assim, o barco parece não sair do mesmo lugar. E é precisamente neste contexto que Jesus aparece. Não quando o mar está tranquilo, ou os discípulos recuperam o controlo. Jesus vem enquanto a tempestade ainda acontece e diz: “Tende confiança. Sou Eu. Não temais”.
Pedro responde de uma maneira quase desconcertante: “Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas”. E Jesus diz apenas: “Vem!”. Esta talvez seja uma das palavras mais belas do Evangelho. “Vem”. Jesus não explica a Pedro como se caminha sobre a água, não lhe menciona garantias, não lhe dá um mapa, diz-lhe simplesmente: “vem”. Porque a fé não é possuir antecipadamente todas as respostas. A fé é descobrir em quem colocamos o próximo passo.
Pedro sai do barco e, por alguns instantes, caminha, mas depois olha para o vento e começa a afundar-se. É curioso que o vento já existia quando Pedro saiu do barco, pois a tempestade não começou naquele momento, mas o que mudou foi o lugar para onde Pedro dirigiu o olhar. Talvez também connosco seja assim. Há momentos em que os problemas não se tornam maiores. Tornam-se apenas maiores dentro de nós porque deixamos de ver tudo o resto. E, de repente, faz uma das orações mais pequenas de toda a Escritura: “Salva-me, Senhor!”. Não há grandes palavras, não há discursos. Há apenas um grito. E o Evangelho diz: “Jesus estendeu-lhe logo a mão”. Logo. Esta palavra é decisiva. Talvez tenhamos imaginado demasiadas vezes que a fé consiste em nunca afundar. O Evangelho diz-nos outra coisa: a fé é saber para quem gritar quando nos afundamos.
𝐔𝐦𝐚 𝐟é 𝐪𝐮𝐞 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐧𝐝𝐞 𝐚 𝐬𝐨𝐟𝐫𝐞𝐫 𝐩𝐞𝐥𝐨𝐬 𝐨𝐮𝐭𝐫𝐨𝐬
São Paulo leva-nos ainda mais longe. “Sinto uma grande tristeza e uma dor contínua no meu coração”. É surpreendente ouvir um Apóstolo a falar assim. Paulo não esconde a sua dor. A fé não o tornou indiferente, pelo contrário, tornou-o mais vulnerável aos outros. Ele sofre pelos seus irmãos. Quando Deus entra verdadeiramente na nossa vida, o coração deixa de poder viver apenas para si próprio. A fé alarga-nos, faz com que a dor do outro deixe de ser completamente alheia. Talvez esta seja uma das perguntas mais sérias que podemos fazer à nossa vida cristã: quem cabe hoje dentro da minha preocupação? Quem levo comigo quando rezo? Por quem sou capaz de perder tempo? Por quem estou disposto a interromper os meus planos? Porque podemos conhecer muitas coisas acerca de Deus e, ainda assim, conservar um coração demasiado pequeno.
Talvez a grande questão da fé não seja saber se alguma vez teremos tempestades, porque as teremos; nem saber se alguma vez sentiremos medo, porque também sentiremos; nem tampouco sequer saber se alguma vez começaremos a afundar, é muito provável que aconteça. A importante pergunta é outra: quando o chão me faltar, reconhecerei a mão que se estende para mim? Porque, no fundo, a fé é a certeza de que, mesmo no coração da tempestade, há uma voz que continua a dizer: “Tende confiança. Sou Eu. Não temais”.
ED