27/09/2026
6º domingo do tempo comum
Há uma distância que todos conhecemos: a distância entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos, entre as nossas intenções e os nossos gestos. É precisamente nessa distância tão humana que Jesus coloca hoje a parábola dos dois filhos. Um diz “não”, mas depois arrepende-se e vai trabalhar na vinha. O outro diz prontamente “sim”, mas não vai. Nenhum é perfeito. E talvez seja por isso que nos reconhecemos tão facilmente nos dois.
A primeira ideia que a Palavra de Deus nos oferece é a possibilidade de recomeçar. O primeiro filho começa por dizer não. Poderíamos pensar que tudo ficou decidido naquele instante. Mas o Evangelho introduz uma palavra fundamental: “depois”. Depois arrependeu-se. Depois foi. Também Ezequiel nos recorda que aquele que se afasta do mal e pratica a justiça “salvará a sua vida”. Deus não nos prende ao nosso passado. Para Ele, nenhum “não” precisa de ser a última palavra. Enquanto houver um hoje, há sempre a possibilidade de voltar, de mudar, de começar de novo.
A segunda ideia é que Deus não escuta apenas as nossas palavras. Escuta aquilo que a nossa vida diz. O segundo filho conhece a resposta certa: “Eu vou, Senhor”. Mas f**a apenas pela palavra. Também nós podemos correr esse risco. Podemos rezar, participar na Eucaristia, conhecer o Evangelho e, mesmo assim, não entrar verdadeiramente na vinha. Porque a vinha de Deus começa na vida concreta: naquele que precisa de ser escutado, no perdão que adiamos, na pessoa que necessita de nós, no gesto de justiça ou de amor que sabemos que devemos fazer. A fé torna-se verdadeira quando ganha mãos, tempo e gestos.
A terceira ideia é-nos dada por São Paulo: “Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus”. E quais são esses sentimentos? Cristo não procura afirmar-Se nem colocar-Se acima dos outros. Faz-Se servo, aproxima-Se, entrega-Se. Enquanto nós tantas vezes queremos subir, ser reconhecidos e ter razão, Jesus ensina-nos o caminho contrário: descer para encontrar o outro. Talvez Deus esteja precisamente aí, no serviço que ninguém vê, na paciência, na humildade de pedir perdão, na capacidade de cuidar sem esperar recompensa.
E talvez possamos perguntar por que razão Jesus não fala de um terceiro filho, daquele que dissesse imediatamente “sim” e fosse realmente trabalhar na vinha. Simplesmente porque esse filho perfeito não existe na realidade humana. Na vida, todos falhamos: ora dizemos que sim e não vamos, ora dizemos que não e acabamos por ir.
Dado que não existe essa perfeição absoluta em nós, o que devemos fazer é tender sempre para o bem dos dois comportamentos: imitar a disposição de dizer "sim" ao Senhor e garantir que esse "sim" se traduza sempre em obras concretas de amor.
Por isso, talvez a pergunta deste domingo seja muito simples: qual é a vinha para onde Deus me pede que vá hoje? Não amanhã. Hoje.
Talvez não precisemos de fazer grandes promessas. Talvez seja suficiente escutar, levantar-nos e ir. Porque Deus não procura pessoas que nunca tenham dito “não”. Procura corações que sejam sempre capazes de voltar a dizer “sim”.
ED