25/08/2015
O mês de Elul é a chave para destrancar o significado interior e mais potente do coração. Como é sabido, as letras hebraicas para formar a palavra “Elul” – alef, lamed, vav e lamed, são um acrônimo para a frase (do Cântico dos Cânticos bíblico) ani l’dodi v’dodi li, que significa “Eu sou do meu amado e meu amado é para mim.”
Essa frase linda e romântica é aquela que representa nosso relacionamento com o Criador, que é frequentemente comparado ao relacionamento entre marido e mulher, uma noiva e um noivo, em nossas vidas individuais.
O Zohar explica que no início de Elul estamos achor el achor, que significa “costas com costas”, e ao final de Elul estamos panim el panim, “face a face”. Mas como é possível que estejamos de costas? Isso não implicaria que D'us tem Suas costas viradas para nós também? Como podemos dizer isso, quando este é o mês no qual – como nos ensina o mestre chassídico Shneur Zalman de Liadi – “o Rei está no campo”? Não é o mês em que D'us está mais acessível do que nunca, quando Ele está esperando por nós para saudá-Lo, quando Ele está ali no “campo” da nossa vida cotidiana?
Porém, essa racionalização é a causa de muitas discórdias mal resolvidas, sentimentos magoados, e relacionamentos desfeitos. Como naquela cena clássica, que aparece muito em filmes, na qual o casal caminha um para longe do outro. À certa altura o homem se volta, querendo chamar o nome dela, pedir mais uma chance, implorar perdão. Ele está a ponto de falar, mas percebe que ela virou as costas. Ela está se afastando. Ele diz a si mesmo que é tarde demais, que ela simplemente não se importa. Então ele se vira de volta. Segundos depois, ela se volta para olhar para ele. Ela não deseja que tudo termine. Ela quer dizer algo, mas não consegue reunir coragem, não tem a força. E por que, por que deveria ela, se ele está de costas?
Ela olha para ele com saudade, mas isso não muda nada – ela presume que ele não se importa pois continua a se afastar dela. E nós, os espectadores, sentamos na beira do assento, esperando que talvez eles se virem os dois ao mesmo tempo, para finalmente entender que o outro se importa, e embora pareçam estar de costas, eles na verdade queriam estar frente a frente. Às vezes acontece o final feliz; outras vezes eles simplesmente continuam a caminhar em direções opostas, afastando-se da vida um do outro.
É o mês de Elul que nos ensina a necessidade de estarmos dispostos a nos voltar. O Rei está no campo, nosso Criador está ali, e não importa como possamos nos sentir, Ele nunca deu as costas. Tudo que precisamos fazer é nos virar para perceber que Ele está ali e esperando por nós. O “costa a costa” que vivenciamos no início do mês é baseado em nossas percepções equivocadas, nossos temores, nossas presunções. Somente quando nos viramos entendemos a verdade, a essência interior, e então ficamos “face a face”, o que não somente significa que podemos finalmente olhar um para o outro, mas além disso, podemos olhar um no outro – pois o radical da palavra face, panim é o mesmo que pnimiyut, que significa “interiorização”.
Por Sara Esther Crispe