15/10/2013
"A história fala-nos de um mendigo e de uma ermida dedicada a Nossa Senhora. O mendigo costumava ir lá rezar todos os dias. O seu problema era o de todos os mendigos do mundo: ter dinheiro suficiente para comer; a humilhação de pedir. As pessoas que iam à ermida deitavam esmolas através de grades , e o pároco de vez em quando recolhia-as e comprava flores com elas.
O mendigo orava assim: «Bom dia Mãe. Está calor. Muito calor. Às vezes gostava de ser rico. Comprava-te...Bem, já vês! Que Parvoíce! Como se Tu não soubesses isso. No dia em que não venho cá, parece-me que me falta qualquer coisa! Bem, o sol já vai alto e cheio e o estômago está vazio».
Mas o surpreendente vinha despois: o mendigo metia a mão nos bolsos, contava o dinheiro e, quando não chegava , pedia um empréstimo a Nossa Senhora.
A maneira de se apropriar do dinheiro era simples. Cobria de pez (substância pegajosa) a ponta da bengala, que introduzia através das grades da ermida e com ela procurava apanhar algumas moedas que os devotos atiravam para o pavimento e que ficasse ao seu alcance. Mas lá isso, era honesto. Apontava tudo num livrinho: «Devo, devolvi...».
Ao regressar a casa, o mendigo perguntava ao neto que vivia com ele: estudaste? Comeste? E estendia-lhe um pão, uma maçã. E os olhos do miúdo riam ao ver o tamanho da maçã. A maior era sempre para o miúdo. Gostavam muito um do outro.
Passaram os anos. O mendigo adoeceu e então rezava assim: «Mãe deixa que eu viva até que ele termine os estudos. Só te peço mais dez anos de vida. Se não puder ser, paciência. Tu é que sabes. Mas protege o meu neto. Até amanhã».
Mas no Céu decidiram que o velho já tinha lutado bastante e chamaram-no, para ficar a conversar eternamente com Nossa Senhora.
E, à noite, o neto acariciava recordações: a bengala de ponta escurecida pelo pez, o alforge, a colher que guardava o segredo de repartir mais para os outros e...ah!, o velho livrinho. Soltavam-lhe as lágrimas. O rapaz leu devagar e em voz alta. Dizia : «Isto vai mal. Apanhei a Nossa Senhora dez escudos. Ao todo devo-lhe cinquenta e cinco escudos». Despois abriu a última página escrita, a do dia em que o avô morreu e dizia assim: «Dia 8 de Dezembro, hoje estou em paz com Nossa Senhora!...»
(António Cardigos, Os Mistérios de Maria)