06/06/2026
DOMINGO X DO TEMPO COMUM (ANO A)
Mateus não era benquisto pelos seus conterrâneos. Apesar do seu nome significar «dom de Deus», tinha uma profissão bastante desagradável. Era um publicano, isto é, um coletor de dinheiro público. Ora, se nós agora não gostamos de pagar os impostos, naquela altura muito menos, visto a carga fiscal era pesadíssima e este homem cobrava, ainda por cima, para o Império Romano. Por outro lado, Mateus mexia com dinheiro, algo que era tido pelos judeus como impuro.
«Certa como a aurora é a sua chegada; Ele virá a nós como chuva, como chuva primaveril que rega a terra» (Os 6,3). Ecoando este versículo do profeta Oseias, Jesus surge na vida de Mateus, sem avisar. O primeiro passo do Emanuel foi ver o publicano, ato que traduz a verdade de que Deus conhece-nos na totalidade. Ele enxerga o potencial que desconhecemos ou que escondemos por ignorância, por medo ou por displicência. Além disso, o chamamento é feito no dia-a-dia, mais precisamente na altura que consideremos a menos divina ou nobre do dia, o tempo do trabalho.
Naquele instante, como fosse uma luz divina que penetra na escuridão da humanidade de Mateus e, por meio dum verbo, o homem impuro começa um novo registo da sua história. «E ele, levantando-se, seguiu-o» (Mt 9,9). Doravante, Mateus deixará a mesa de cobrador para se juntar aos discípulos de Jesus, terminado por reconduzir tudo o que é para a missão e para o Reino. Talvez tivesse tido dúvidas ou se tivesse sentido indigno, devido à profissão. Julgo que já nos sentimos assim. Todavia, Deus não quer saber do nosso passado! Ele almeja que entreguemos, através da conversão, o nosso presente ao seu amor, perspetivando o futuro da nossa salvação. O olhar de Deus é, portanto, recriador.
Então, à semelhança do pai Abraão, Mateus acreditou e «não se deixou, por falta de fé, abalar pela dúvida; pelo contrário, deixou-se fortalecer pela fé, dando glória a Deus» (Rm 4,20). Porém, os fariseus eram adversos a acreditar e aos desvios ao status quo. Não concebiam que Jesus convivesse com publicanos e pecadores. Se calhar não viam, com bons olhos, a mudança de vida de Mateus. Às vezes desconfiamos da conversão do outro. Os fariseus achavam-se erradamente presos ao passado dos novos amigos de Jesus. Infelizmente não enxergavam como Deus faz. Estes concebiam o passado como sendo uma sentença, que jamais poderia ser revogada, ou seja, perdoada por um juiz que professa sempre o amor pelas criaturas. Ao contrário de Deus, o que lhe interessava era o sacrifício e o castigo, e não a misericórdia (cf. Mt 9,13).
Logo, estejamos atentos ao chamamento de Deus. Não fiquemos igualmente presos aos preconceitos, os quais desembocam no prejuízo. Porventura, falta-nos a coragem de Mateus, que deixou a contagem da moedas e o acumular dos impostos para ser uma dádiva a fundo perdido. Foi o próprio que escreveu a perícope evangélica deste domingo. Mateus foi sincero no seu passado e aceitou o que foi. Podia a ter omitido. Porém, legou-nos a sua história, com o intuito de nos mostrar que não nos podemos esconder do olhar de Deus.
Pe. Bruno Miguel Bulcão Ávila (07-06-2026)