09/10/2025
Maria é de uma honestidade a toda a prova, a toda a prova. Quando o anjo lhe diz: “Ave, o Senhor está contigo.”, ela f**a a pensar: “Mas o que será isto? O que será isto?”. E quando o anjo lhe anuncia o que vai acontecer, ela pergunta: “Como é que isso pode ser, se eu não conheço homem?”. Honestidade, honestidade. Porque Deus não falseia, não é um ornamento para a nossa humanidade. Não. Nós temos de ser salvos com verdade, com a nossa verdade, e é importante fazer perguntas a Deus. É importante abrir o nosso coração, mas colocar a nossa razão.
A fé não é apenas um sentimento onde vamos entretidos; não, não é um entretenimento. É a partir daquilo que eu sou. Por isso, é importante que eu seja profundamente honesto na minha vida espiritual, profundamente honesto. Maria põe-se na sua verdade. Não são obstáculos que ela põe, mas também é uma reflexão a partir da sua própria vida. “Diz-me como é que pode ser, diz-me, eu não estou a ver como. Explica-te.”. Esta honestidade é alguma coisa que nos purif**a muito. “Olha, a minha condição é esta e eu não vejo como é que isso possa ser.”. Esta atitude de Maria é muito desafiadora para as nossas vidas.
Por fim, Maria descobre, neste encontro com o anjo, que a sua vida está a serviço de uma vida maior, de um projeto maior. Isto é, que a vida não começa e acaba nela, não começa e acaba nos sonhos que ela teve para a sua vida, nos desejos que ela teve, com certeza, no coração de menina sonhadora que ela era. A vida não acaba no perímetro dos desejos e dos sonhos que ela fez de felicidade para a sua vida. Mas o Senhor chama-a a colocar-se a serviço de uma felicidade maior, imprevista, com a qual ela não tinha nunca sonhado, nem poderia sonhar. Mas o Senhor diz: “Olha, a tua vida é para servir uma vida maior, para servir uma coisa maior.”. E Maria diz: “Eu sou a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.”
— Card. José Tolentino de Mendonça© (Capela do Rato)