Lisboa e a Grande Estremadura: História e Património

Lisboa e a Grande Estremadura: História e Património Divulgação de apontamentos sobre o património histórico de Lisboa e da Grande Estremadura. Em virtude da influência atlântica, o clima é temperado.

A Grande Estremadura é uma região do Centro Litoral de Portugal que abrange, grosso modo, o território das antigas províncias da Estremadura e Ribatejo, além de parcelas do litoral beirão e do litoral alentejano. Com uma história comum, grande parte dela centrada na acção dinamizadora da cidade de Lisboa e do seu entorno periurbano, bem como de alguns núcleos urbanos regionais como Santarém, Setúb

al, Torres Vedras, Leiria, Tomar e Abrantes, esta região caracteriza-se por ter uma paisagem relativamente plana, marcada pelo litoral atlântico e pela bacia do Baixo Tejo, onde os pontos mais elevados são constituídos pelos pequenos maciços das Serras da Arrábida e de Sintra, e pela zona sul do sistema montanhoso Montejunto-Estrela, que divide a Estremadura do Ribatejo. Os Verões são frescos e os Invernos, apesar das zonas mais afastadas do mar serem um pouco mais frias, são em regra suaves. Por outro lado os solos são, regra geral, de tipo arenoso a sul e de tipo argilo-arenoso e argilo-calcário a norte, o que tudo conjugado, torna esta região particularmente interessante para o cultivo da vinha e de pomar, sendo que, em algumas zonas, sobretudo no Médio Tejo, é também possível encontrar extensos olivais (a norte-poente) e sobrados (a sul-nascente). Por outro lado toda a zona circundante de Lisboa, a sul e a norte do estuário do Tejo, era e é também particularmente importante no cultivo hortícola, constituindo esta «zona saloia», pela sua proximidade e riqueza, a principal zona de abastecimento da capital. As principais formações rochosas são do tipo calcário, característica que marcou a arquitectura tradicional da região, sobretudo a de melhor qualidade. Em termos patrimoniais aliás, uma das características desta região é a profusão de pequenas e médias quintas, muitas com casas nobres e capela, vestígios de uma pequena elite familiar, sem grandes tradições senhoriais, que pelo menos desde o período da Expansão se estabeleceu na periferia e regiões adjacentes da cidade de Lisboa. De facto os grandes domínios senhoriais históricos desta região, sobretudo a partir da II Dinastia, circunscreveram-se à Coroa e a instituições na esfera da mesma, como a Casa das Rainhas (Sintra, Óbidos, Alenquer, Torres Vedras), a Casa de Bragança e depois do Infantado (Porto de Mós, Torres Novas) e as Ordens militares de Cristo (no Médio Tejo, delimitando a Grande Estremadura a nascente) e de Santiago (na Península de Setúbal e no Litoral Alentejano, delimitando a Grande Estremadura a sul). Fora do âmbito da Casa real, destacava-se a importância senhorial de alguns conventos, sobretudo do Mosteiro de Alcobaça, cujas terras constituíram a norte, por assim dizer, a fronteira natural e senhorial da Grande Estremadura, mas também de algumas das mais antigas casas conventuais lisboetas (S. Vicente de Fora, S. Domingos de Lisboa, Chelas, Santos, etc.), que foram recebendo ao longo da sua história, de reis e particulares, várias propriedades, depois transformadas em quintas, casais e aldeias que moldaram a paisagem desta região influenciados pela sua acção administrativa e dinamizadora. Lisboa, pela sua importância económica, política, social e cultural, atraiu ao longo da sua já longa história gentes de diversas paragens que aqui chegavam, por terra e por mar, ao extremo mais ocidental do continente europeu. Não deixa por isso de ser relevante pensar na importância desta cidade e na influência que esta exerceu na história e o património desta grande região que a envolve, a Grande Estremadura. Ao fim de 10 anos no mundo dos blogues com a página «História e Património (History and Heritage)», iniciada em 30 de Junho de 2005, a que se seguirão em 2011, «História e Arte no Período Barroco», «História de Almada», «Lugares de Almada», «Lugares da Caparica», «Lugares do Concelho do Seixal» e «Arquitectura Religiosa Moderna», começo agora um novo projecto com o Blogue «Lisboa e a Grande Estremadura: História e Património», que sucede assim ao blogue também criado em 2011, «Património Religioso da Região de Lisboa», alargando as temáticas ao restante património histórico, mas mantendo as entradas já publicadas anteriormente, adicionando outras da minha autoria que se encontravam dispersas por outros lugares. Esta página / blogue divulgará apontamentos, alguns pouco conhecidos, sobre o património histórico de Lisboa e da Grande Estremadura, procurando sempre que possível evidenciar a estreita relação entre a história e desenvolvimento da capital e da grande região que a envolve. Rui Manuel Mesquita Mendes
Caparica, 27 de Setembro de 2015

CALÇADA DO GARCIA (LISBOA)O topónimo Calçada do Garcia já existia no século XVIII e nenhuma relação tem com o cacilhense...
13/05/2026

CALÇADA DO GARCIA (LISBOA)

O topónimo Calçada do Garcia já existia no século XVIII e nenhuma relação tem com o cacilhense Elias Garcia, mas sim com Gaspar Garcia de Bivar.

Veja-se abaixo excerto de um processo do Desembargo do Paço de 1775.

Este teve licença municipal em 1734 para reparar e reedificar as suas casas situadas por detrás de S. Domingos no princípio da calçada do Colégio, nome original.

O FIGURISTA E ESCULTOR ANTÓNIO FERREIRA e a génese do culto de Nossa Senhora Mãe dos HomensO culto de Nossa Senhora Mãe ...
21/01/2026

O FIGURISTA E ESCULTOR ANTÓNIO FERREIRA e a génese do culto de Nossa Senhora Mãe dos Homens

O culto de Nossa Senhora Mãe dos Homens insere-se num momento particularmente fértil da religiosidade lisboeta da década de 1740, marcado pela promoção régia de devoções marianas, pela circulação de imagens em contexto urbano e pelo protagonismo missionário de frades franciscanos junto das populações.

Em 25 de Fevereiro de 1745, conforme documento que publicamos, o Arcebispo de Lacedemónia deu provisão ao Irmão Manuel do Menino Deus, Donato do Convento de São Francisco de Xabregas, para levar, em companhia de um irmão terceiro António Ferreira, uma imagem cópia da prodigiosa imagem de Nossa Senhora Mãe dos Homens, existente na sua capela do mesmo convento, que D. João V havia mandado fazer.

Acreditamos que este irmão terceiro é, com toda a probabilidade, o conhecido mestre escultor e figurista António Ferreira, «o Ferreirinha de Chelas», célebre pelos seus presépios, entre o quais o próprio Presépio da Madre de Deus *.

Assim, a ligação de António Ferreira ao culto de Nossa Senhora Mãe dos Homens, de que não é o autor, mas que ajudou a fixar iconograficamente a invocação, revela-se decisiva na génese e na orientação artística deste culto que, segundo o testemunho fundamental de Fr. Jerónimo de Belém, no Pregador Mariano (1760), foi promovido pelo fervor religioso Frei João de Nossa Senhora, do Convento de Xabregas, também conhecido como João Redondo, o gordo e famoso poeta de Xabregas, missionário apostólico, que percorreu as ruas da capital com uma pequena imagem de Nossa Senhora, entre 1742 e 1753.
Frei João dirigiu-se, por volta de 1742, ao vale de Chelas, onde residia António Ferreira, «insigne figurista» que, em matéria de barro, «ninguém o excedeu». O encontro entre Frei João e o Ferreirinha não resultou numa encomenda direta da imagem principal do culto, pelo contrário, António Ferreira, depois de ouvir o projeto do frade — a criação de uma imagem de Nossa Senhora com o título de Mãe dos Homens, destinada a suscitar e difundir uma nova devoção pública — aconselhou-o a procurar um escultor de maior projeção, com experiência romana, então conhecido em Lisboa como «o Romano». Esse escultor era José de Almeida, discípulo de Carlo Monaldi, a quem viria a ser confiada a execução da imagem de grande vulto, em madeira de cedro, benzida solenemente na Igreja Patriarcal a 11 de Janeiro de 1744, com a presença de D. João V, sendo depois transferida para a capela mor do Convento de Santa Maria de Jesus de Xabregas, onde esteve até à sua transferência para o retábulo da Capela de Santo António, na mesma igreja, obra do mestre entalhador e arquitecto Santos Pacheco.

Paralelamente, a documentação inédita da Câmara Eclesiástica de Lisboa comprova que António Ferreira não se limitou a este papel inicial. Em 1745, surge como «irmão terceiro» que acompanha o Irmão Manuel do Menino Deus na circulação de uma imagem-cópia da Nossa Senhora Mãe dos Homens, autorizada a permanecer nas igrejas paroquiais durante a noite e a sair de dia em peditórios e actos de devoção (DOCUMENTO). Esta presença activa na difusão itinerante da imagem confirma a sua inserção prática no movimento devocional promovido por Frei João, não apenas como artista, mas também como agente da religiosidade popular.

Assim, a ligação de António Ferreira ao culto de Nossa Senhora Mãe dos Homens manifesta-se em três planos complementares: como mestre reconhecido da escultura em barro, cujo prestígio legitimou o projeto inicial; como mediador artístico que orientou a encomenda da imagem principal para um escultor de projeção régia; e como participante efetivo na propagação do culto através da circulação de imagens devocionais.

A sua figura emerge, deste modo, como uma peça discreta mas estrutural na construção de um dos mais significativos cultos marianos da Lisboa setecentista, onde arte, devoção e espaço urbano se entrelaçaram de forma duradoura.

DOCUMENTO
Ex.celentissimo e R.everendissimo Senhor̄
Diz o Irmaõ Manoel de Menino Deus Donato do Serafico Patriarcha S. Francisco do Convento de Xabregas, que elle tem ordem do Em.inentíssimo e R.everendíssimo Senhor Cardeal Patriarcha para pedir esmolas para a Capella da Virgem Maria May dos Homens em todo este Patriarchado, e leva em sua Companhia o Irmaõ Treceiro Antonio Ferreira para o ajudar. E para se inflarem todos na devoçaõ da Virgem como Nossa May Leva tambem huma Imagem copia da prodigioza q̄ se venera no Real Convento de Xabregas que mandou fazer El Rey Noso Senhor; e para a mesma deuoçaõ se augmentar quer q̄ esta Imagem fique sempre dentro nas Igrejas, e para os Parochos o haverem assim por bem hé preciza Provizaõ de S. Ex.cia Ill.a pela qual conste a substancia de tudo isto.
P. a V. Ex.cia lhe mande passar Provizaõ só p.ª q̄ os Parochos recebaõ a Imagem da Senhora e de noite a deixem ficar nas suas Igrejas e de dia saha a pedir pelas cazas que para isso tem já ordem de Sua Em.cia com tambem se a quizerem acompanhar nas suas Freguezias a Senhora lhe pagará essa deligencia.
E R. M.ce
Aos despachos de S. Ex.ca
Concedemos Licença para o q̄. se passe Provizaõ. Lx.a 22 de Feuereiro de 1745. A.rcebispo de L.acedemónia.
Ermitaõ
Passei Provizaõ em 25 de Fevereiro de 1745
(ANTT, Câmara Eclesiástica de Lisboa, mç. 1766)

Rui Manuel Mesquita Mendes
21/01/2026

* António Ferreira, conhecido também como “o Ferreirinha de Chelas”, foi um escultor e figurista activo em Lisboa no século XVIII, especializado em imaginária em barro (terracota), amplamente reconhecido como um dos mais notáveis mestres portugueses do género pastoril no século XVIII. Filho de Dionísio Ferreira, residiu no vale de Chelas, onde manteve oficina.
O nome “António Ferreira Soares” surge documentado num registo notarial de Julho de 1747, no qual se obriga à execução de uma obra de presépio para o Convento da Madre de Deus, o que nos leva a considerar que este corresponde aquele escultor de Chelas.
É referido por Cirilo Volkmar Machado como um artista de mérito excepcional na modelação em barro, sendo-lhe atribuídos os presépios da Cartuxa, da Madre de Deus, do Coração de Jesus e outras obras, por exemplo em espaços privados como a Quinta dos Embrechados, bem como figuras e composições de carácter pastoril. Joaquim Machado de Castro elogia igualmente a sua aptidão no género pastoril, destacando o presépio da Cartuxa pela qualidade da composição e execução.

Figuras:
Provisão para pedir esmolas para a imagem de Nossa Senhora Mãe dos Homens (1745) (Câmara Eclesiástica de Lisboa)
Estampa de Nossa Senhora Mãe de Deus num Livro de Notas de 1758 (9.º Cartório Notarial de Lisboa)

Bibliografia:
BELÉM, Fr. Jerónimo de – Pregador Mariano, instruindo na vida, e desenganando na morte, vida, e principaes acções do P. Fr. João de N. Senhora, chamado vulgarmente o Poeta, etc. Lisboa: Miguel Manescal da Costa, 1760.
BRANCO, Manoel Bernardes – Historia das ordens monasticas em Portugal, Vol. 3, 1888.
GUIMARÃES, Ribeiro - Summario de Varia História, Vol. 2, Rolland & Semiond, 1872.
MACHADO, Diogo Barbosa – Bibliotheca Lusitana historica, critica, e cronologica ... dos Authores Portuguezes, e das obras que compuseram, Tom. 4, 1759.
MENDES, Rui Manuel Mesquita – "Novos contributos para a história da escultura religiosa em Lisboa (séculos XVI, XVII e XVIII)", in Invenire: Revista de Bens Culturais da Igreja, Nº 14 (2017), pp. 6-22.
PEREIRA, Luiz Gonzaga - Monumentos Sacros de Lisboa em 1833, Lisboa: Oficinas Gráficas da Biblioteca Nacional, 1927.
SALDANHA, Sandra Costa, "Santa Maria Mãe do Homens. Difusão do culto pela imagem: arte e iconografia", in Invenire: Revista de Bens Culturais da Igreja, n.º 3 (Jul.-Dez. 2011), pp. 11-16.
SEQUEIRA, Gustavo de Matos – Depois do terremoto; subsídios para a história dos bairros ocidentais de Lisboa, Vol. 2, 1916.

SANTO ESTÊVÃO DAS GALÉS: sobre a origem da paróquia e da fundação da sua capela e igreja paroquial (a história e a lenda...
28/12/2025

SANTO ESTÊVÃO DAS GALÉS: sobre a origem da paróquia e da fundação da sua capela e igreja paroquial (a história e a lenda)

INTRODUÇÃO
A Igreja de Santo Estêvão das Galés, paróquia e freguesia homónima do concelho de Mafra, tem a sua origem na antiga Capela de Santo Estêvão edificada junto do Casal das Galés no termo de Lisboa.

Foi fabricada de todo, a igreja e a capela-mor, pelos seus fregueses, sendo esta originalmente, conforme se descreve em 1719, «de abobeda de meya laranja e o forro do corpo da igreja de madeira, o pavimento todo de pedra, as frestas de insuficiente altura tapadas com suas vidraças, o campanario com hum sino».

Em 1760, esta igreja é descrita como de uma só nave com seu coro sobre a porta principal. Tinha então uma excelente torre quadrada obra moderna (recente ?) na qual tinha três sinos. Pela tradição e as cruzes que tinha nas paredes constava ter sido sagrada.

A capela-mor, profunda, como se dizia em 1719, era de abóbada antiga, elevada por dois degraus, com retábulo em painéis do orago e imagem de vulto em nicho central. No altar surgiam, em 1760, imagens de Nossa Senhora da Expectação e de Santo António, sendo a capela integralmente azulejada. Ladeavam o altar-mor dois altares de talha, dedicados a Nossa Senhora do Rosário e a São Sebastião, separados por grades de cruzeiro. A igreja possui pia batismal gradeada e, no exterior, um alpendre aberto, que dá acesso à torre, à porta travessa e a dependências de apoio aos paroquianos.

FUNDAÇÃO DA IGREJA E PARÓQUIA
A sua fundação deve situar-se entre finais do século XV e o decurso do século XVI, num contexto de profunda reorganização administrativa e eclesiástica do vastíssimo território da antiga paróquia medieval de Santa Maria de Loures, situada no extremo norte do termo de Lisboa.

Edificada junto do casal ou lugar das Galés, integrava inicialmente a rede de capelas filiais dependentes da matriz de Loures, respondendo às necessidades espirituais de uma população rural progressivamente afastada da sede paroquial.

Durante o último quartel do século XV e, sobretudo, ao longo do século XVI, os limites da paróquia medieval de Santa Maria de Loures — com cerca de 90 km² — foi sendo desmembrado em novas paróquias. Este processo iniciou-se com a criação de São Pedro de Almargem do Bispo (ca. 1480) e intensificou-se após o Concílio de Trento (1545–1563), quando se separaram da matriz de Loures várias povoações periféricas: Póvoa de Santo Adrião, Odivelas, Santo Estêvão das Galés e, já em fase final, São Pedro de Lousa. A lógica subjacente foi a mesma em todos os casos: a excessiva dimensão da freguesia medieval tornava difícil a administração regular dos sacramentos, obrigando os moradores a criar curatos próprios, sustentados à sua custa.

No caso específico de Santo Estêvão das Galés, a documentação permite fixar com alguma segurança a existência da igreja e da paróquia pelos anos de 1560–1570.
A referência mais antiga conhecida surge no testamento de Estêvão Pires, datado de 25 de Dezembro de 1569, onde já se menciona o «distrito de Santo Estêvão das Galés», implicando a existência do templo e de uma circunscrição reconhecida. Esta cronologia é reforçada por uma sentença de 1601 que declara que os oficiais da igreja estavam «em posse de dez, vinte, trinta e quarenta anos» de administração da fábrica, remetendo a fundação da Capela para cerca de 1560 ou antes.

De facto, uma sentença de 1601, diz-nos que o Juiz, Procurador, e Oficiais «que foram da Igreja de S. Esteuão das Galez termo desta Cidade se agravaram do Vigário geral deste Arcebispado o do Dr. João Saraiva, que estando elles supplicantes, & todos os outros Officiaes que forão na dita Igreja atègora em posse de dez, vinte, trinta, & quarenta annos [< 1561], & de tanto tempo, que naõ há memoria de homens em contrario, de huns tomarem contas aos q. acabão de seruir os ditos cargos, & o dito Vigario os manda notificar dem a elle conta, não lhe pertendendo tomala, por quanto a fabrica da dita Igreja he sómente esmolas que dão os freguezes, & não he fazenda, nem propriedade da dita Igreja, & o dito Vigario geral os não pode constranger dar lhe conta» (PEGAS, 1671: 78).
Todavia não é seguro que a capela, depois da sua fundação, fosse logo erigida em paróquia delimitada sobre si e separada da matriz de Loures, algo que temos por certo no ano de 1571, num assento de batismo de São João de Porqueiros (das Lampas) de 14 de Outubro de 1571, mencionando como padrinho um Fernão Pires morador «nas dos Gales fregª de Santo Estevaõ».

Após a escrita deste texto, fomos informados por João Luís Alves Francisco, a quem penhoradamente agradecemos, que a referência mais antiga que conhecia remontava a 1535 e constava num registo de casamento da Enxara do Bispo, paróquia com alguns dos mais antigos registos paroquiais do Patriarcado de Lisboa, cujos livros mistos começam em 1532.

E, de facto, no 1.º livro dos mistos, fól. 83, dá-se conta de um assento, que adiante transcrevemos (vide abaixo) e cuja imagem parcial publicamos, onde se regista o casamento na Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Enxara do Bispo em 16 de Outubro de 1535, de Maria Afonso, moradora em Monfirre, «freguysya de Samto Steuaõ das galles termo da cydade de Lyxboa».

Assim, tudo leva a crer que a paróquia da capela curada de Santo Estêvão das Galés tenha sido fundada na primeira metade o século XVI, ainda pela Cardeal Dom Afonso, Arcebispo de Lisboa entre 1523 e 1540, em contexto antecedente ao Concílio de Trento, provavelmente por algum contrato ou compromisso de sustentação do cura à custa do povo e moradores dos lugares deste limite, que estavam obrigados à côngrua do mesmo e a pagar anualmente 1$200 reis ao pároco de Loures, de onde se desanexaram, como adiante veremos.

CÔNGRUA, DÍZIMOS, CAPELANIAS E CONFRARIAS DE SANTO ESTÊVÃO DAS GALÉS
De facto, segundo regista o visitador de 1760, Santo Estêvão das Galés era um curato anual cujo pároco era da «apresentação do povo o qual lhe fez de côngrua não sendo esta porção mas sim distribuída conforme a qualidade dos fregueses e número destes dando os lavradores dois alqueires de trigo e um de cevada, os seareiros um alqueire de cevada e duzentos e quarenta reis em dinheiro, e a mesma pensão pecuniária tão somente dão os que não fazem searas. E a fábrica lhe dá casas para residência. Os dízimos da freguesia pertencem ao celeiro da de Loures de quem é filial por cujo reconhecimento paga o Pároco ao de Loures mil e duzentos reis (1$200 reis) em cada um ano».

Assim, tal como noutras freguesias desmembradas de Loures, os moradores de Santo Estêvão das Galés mantiveram-se dizimeiros da matriz, pagando reconhecimento anual ao pároco de Loures. A igreja funcionava essencialmente com base em esmolas e fundações pias, o que explica a existência de numerosas capelanias de missas obrigatórias instituídas nesta igreja entre os séculos XVI e XVII, impostas em terras, casas e casais da região (Galés, Monfirre, Brunheira, Asseiceira, Milharado). Este sistema revela não só a vitalidade religiosa da comunidade, mas também a sua integração numa economia agrária local bem definida.

Por exemplo, sabemos que o Pe. Jordão Afonso, quiçá um dos primeiros curas da Igreja de Santo Estêvão das Galés, fundou um encargo de cinco missas às Chagas de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo na sua igreja, imposto numas casas em Monfirre, que deixou à cunhada Catarina Gomes, sobre o seu jazigo na Igreja de Santo Estêvão das Galés. Esta disposição foi determinada no seu testamento feito em 15 de Janeiro e apresentado em 27 de Janeiro de 1571 por António Pires, Escrivão e Tabelião dos Julgados de Santo Estêvão e Monfirre.
Um João Brás deixou à Irmandade de N.ª Sr.ª do Rosário da Igreja de Santo Estêvão das Galés certos bens com a obrigação de seis missas rezadas e esmola anual de 720 réis. imposta numa terra que chamão a Várgea que está no limite de Monfirre, segundo o seu testamento feito em 1 de Maio de 1657.

A Irmandade ou Confraria de N.ª Sr.ª do Rosário de Santo Estêvão das Galés é também beneficiada no testamento de Antónia Cardosa, feito em 22 de Agosto de 1621; e no de Domingues Luis e sua mulher Maria Domingues, que determinaram obrigação de missas aos domingos ou duas missas, por umas terras em Monfirre, que deixaram à Mesa de N.ª Sr.ª do Rosário da Igreja de Santo Estêvão das Galés, por instrumento feito em 19 de Abril de 1727.

Na visita de 1719 e nas memórias de 1758 achou-se que os altares não tinham instituídas quaisquer irmandades ou confrarias, canonicamente constituídas, mas em 1719 estes eram ornados pelos mordomos de Santo Estêvão, Nossa Senhora do Rosário e São Sebastião, que anualmente se elegiam, além dos mordomos do Senhor que fabricavam o vaso sacramental e custódia onde se expunha o Santíssimo.

ALTARES / MESAS E IMAGENS DA IGREJA
Além da mesa da Confraria de Nossa Senhora do Rosário, as demais mesas / altares da Igreja de Santo Estêvão das Galés encontram-se documentadas, desde finais do século XVII e ao longo do século XVIII, época em que os altares e as suas imagens estruturavam a vida devocional da freguesia.

Entre as mais antigas, depois da Senhora do Rosário, destaca-se a mesa das Almas, já referida em 1696, ligada a uma irmandade ou confraria da mesma invocação que possuía património próprio e capacidade de gestão, como demonstra o aforamento de bens em Montemuro realizado por esta em 1770.
No início do séc. XVIII menciona-se também a mesa do Menino Jesus, em 1703, culto cuja permanência é ainda atestada nos inventários de 1911, revelando a continuidade desta devoção ao longo de mais de dois séculos.
Em 1705 encontra-se já estabelecido o altar dedicado a São Sebastião, um dos polos mais importantes da religiosidade local, associado a uma festa anual promovida pelos moradores da freguesia, prática que evidencia a forte ligação comunitária em torno deste culto e que ainda no final do século XVIII merecia registo nos livros da chancelaria patriarcal.

No campo das devoções marianas, a igreja possuía uma imagem de Nossa Senhora do Ó, documentada desde 1723 e ainda presente em 1911, integrando-se no conjunto de invocações ligadas ao ciclo da Encarnação. No início do século XX, os inventários paroquiais registam ainda diversas imagens que enriqueciam o património devocional da igreja de Santo Estêvão, nomeadamente as de Santa Luzia, Santo Amaro, Santo António, São Sebastião, Menino Jesus, Nossa Senhora do Rosário (grande) e Nossa Senhora da Conceição, esta última com particular significado simbólico enquanto padroeira do Reino. Entre o património desta igreja, regista-se também uma cruz de alçar em prata dourada dita de «estylo manuelino» (i.e. tardo gótico), o que pode fornecer uma pista quanto à antiguidade da igreja e do seu culto.

Além destas imagens e diversos objectos de culto, esta igreja tinha ainda diversos foros nos lugares de Galés, Avessada, Rogel, Montemuro, Monfirre, Choutaria, Bocal, Rio Mau, Quintas, Pinheiro de Loures, Santa Eulália e Quinta das Pegas, além de um foro de 1000 reis em Monte Estêvão, pertencente à missa das Almas.
A vida religiosa da freguesia não se limitava, contudo, ao espaço interno do templo, estendendo-se às grandes devoções regionais através dos círios de Nossa Senhora do Cabo e de Nossa Senhora da Nazaré, cuja organização pelos fiéis de Santo Estêvão das Galés está documentada em meados do século XIX, mas é certamente mais antiga, demonstrando a integração da comunidade nos circuitos de peregrinação e religiosidade popular da Estremadura e do litoral português.

ERMIDA DE SANTA EULÁLIA
A instituição pia mais antiga desta freguesia era, contudo, a de uma ermida ou capela anexa, ao que parece anterior à própria Igreja de Santo Estêvão. Trata-se da Capela e Ermida de Santa Eulália, instituída pelo casal Diogo Vasques e Helena Eanes, moradores em Lisboa, junto da Igreja da Madalena, e proprietário de um casal em Monfirre, junto do qual fundaram este templo, conforme se declara no seu testamento feito a 26 de Julho de 1466, com encargo de uma missa cantada em cada ano no Dia de Santa Eulália imposto no seu Casal «onde chamam Monfirre», então ainda freguesia de Santa Maria de Loures!

Este casal invoca a “devoção” para fundarem uma capela numa “ermida” que eles próprios tinham mandado construir na sua quinta (sic), em Monferrim, na freguesia de Loures. A devoção a Santa Eulália, orago da ermida, seria suficientemente forte para os levar a construir um templo, e a conseguir que aí se celebrasse perpetuamente uma missa cantada no dia da santa, com oferta a pobres. Este motivo os fez certamente ter de ultrapassar dificuldades, demonstra-o o facto de a instituição ser mais tarde, de acordo com Maria de Lurdes Rosa, transferida para a igreja paroquial, Santo Estêvão das Galés (ROSA, 2005: 303), ainda que localmente não haja memória de alguma vez se terem celebrado as missas de obrigação na igreja paroquial, mas sempre na Ermida de Santa Eulália, o que nos leva a supor que se esta transferência ocorreu, terá sido de forma ocasional ou de pouca duração, talvez quando a ermida esteve em obras.

Cosme Feyo, filho de Fernão Feyo e Isabel Dias, casado com Maria Figueira, sucessores dos fundadores, também instituíram uma missa rezada na Ermida de Santa Eulália, ofertada com um alqueire de pão cozido e um almude de vinho distribuído pelos pobres da freguesia de Santo Estêvão, obrigação vinculada aos rendimentos de um casal que deixaram à sua filha Isabel para que «por dia de Santa Olaya na sua Irmida que está junto de Monfirre e perto do dito Cazal (das Galés) e o offereceram a dita missa com hum alqueire de trigo em pam cuzido e hum almude de vinho o qual pam e vinho sera destrebuido por pobres se aly vierem o dito dia e se nam vierem o que tiver e pessuir o dito Cazal pello modo asima dito destribuiram por aquellas pessoas que lhe parecer, que o ham mester e daram de comer aquelle dia ao clérigo que disser a dita missa alem da esmola que por dizer a ditta missa lhe dará, e acabada a missa dirá hum reponço de ffinados com agoa benta isto tudo do modo asima dito se faça para sempre». Esta disposição consta no seu testamento feito por Fernão Nunes tabelião público de notas da cidade de Lisboa em 4 de Junho de 1577.

Nesta ermida ou capela, hoje anexa da paróquia de Santo Estêvão das Galés, encontramos, ainda, diante da capela-mor, a: «S[epultur]A DO P[adr]E VALEN / TIN GOMES CAP[el]AM» de Santa Olaia (GANDRA, 1996), referido numa visita de Santo Estêvão das Galés em 1646. Por ter sido fundada antes da Igreja de Santo Estêvão, embora viesse a pertencer depois ao distrito da sua freguesia, as suas ofertas (esmolas e benesses) e administração estava a cargo do pároco de Loures, visto que a mesma foi fundada, como de costume, sem prejuízo dos direitos do pároco.

Ainda em 1836, o casal de Monfirre, na freguesia de Santo Estevão das Galés, termo desta Cidade, tinha «o encargo de 15 alqueires de trigo á Igreja de Santa Eulalia» (Diário do Governo, n.º 275, de 20/11/1839, p. 4).

Segundo o Dicionário Topográfico de 1842 e as Memórias Paroquiais de Santo Estêvão das Galés de 1758, no Lugar de Santa Eulalia desta freguesia havia então um mercado com «duas feiras no anno huma em doze dias do mez de Fevereiro e outra na primeira segunda feira do mez de Septembro, e cada huma dellas dura por espaço de tres dias e são francas».

A Capela de Santa Eulália tinha, em 1911, imagens da padroeira, de Santa Catarina, Santa Júlia e Nossa Senhora do Paraíso, além de duas imagens de Nossa Senhora da Conceição de ouro, pequenas, e uma cruz de alçar com haste em prata com a imagem de Santa Eulália. Além destas imagens e diversos objetos de culto, esta capela tinha também um foro na Choutaria, um pardieiro junto da Ermida de Santa Eulália e o “Cerrado da Santa” no mesmo lugar.

OS LUGARES E CASAIS DA FREGUESIA
Os lugares da paróquia de Santo Estêvão das Galés incluíam, em 1876: Lugares — Santo Estêvão, Galés, Valduge ou Baldojo ou Valdoja ou Valdejo, Avessada, Quintas, Rugel ou Rogel, Ribeira, Monte Muro ou Montemuro, Choutaria, Bocal de Cima e Bocal de Baixo ou Borcais ou Bocais *, Azenhas **, Monfirme ou Monferrim ou Monfirre, Santa Eulália ou Santa Olaia (a maioria dos fogos pertencem a Almargem do Bispo), Rio Mau ou Barromão ou Verrumão, Godinheira; Casais — Moxarro ***, da Serra ou Pé da Serra **, e da Abegoaria ***.
* Estes lugares são omitidos em 1758 e em 1842, mas aparecem unidos como "Borcais" ou “Bocais”. Sabemos que a Quinta do Bocal era antiga, pois encontra-se documentada desde o século XVI.
** Este lugar é omitido em 1758.
*** Estes casais são mencionados como lugares em 1758, que também menciona o lugar de Ribeira Pequena.

Existem diversos registos antigos em que estes lugares ainda são mencionados como simples casais ou quintas:
O Casal de Montemuro, Monte Mouro, ou de Santa Eulália a Santo Estêvão das Galés sita no distrito de Loures era foreiro à Obra da Sé de Lisboa e depois foi incorporado na fábrica da Sé andando aforado no século XVIII a um José Pacheco de Abreu em 2ª vida.
Outro Casal de Monte Muro ou Montemuro, era foreiro à Capela de Maria Dias da Igreja de Santo Estêvão das Galés (1575).
O Casal do Rogel, foi comprado pelo Convento da Trindade para fundo da Capela que nele instituiu Miguel de Azevedo e que depois de andar arredando foi aforado em 1735 a um António da Costa morador no mesmo lugar. O nome deverá provir de um “Rio da Rogel”, aqui referido em 1597.
O Casal das Galés era foreiro ao Mosteiro de São Bento de Xabregas e a uma capela de Frei Ventura Pereira.
Outro Casal das Galés era foreiro a Capela de Garcia de Castilho, que administravam os Condes de Vila Nova.
O Casal de Barromão ou Rio Mau era foreiro ao Hospital Real de Todos os Santos.
O Casal das Quintas do Valdojo era foreiro ao Hospital Real de Todos os Santos.
O Casal do Mocharro era foreiro ao Hospital de São Lázaro de Lisboa, emprazado a um Sebastião Lourenço em 20 de Abril de 1508.
O «Cazal nas quintas de Valdoja freguezia de Santo Estevaõ das gualez» era foreiro ao Hospital de São Lázaro de Lisboa, emprazado a um Pero Lourenço em 23 de Outubro de 1562.
A Terra da Buzunheira, junto do Lugar das Quintas, era foreira à Comenda de São Brás da Ordem de Malta tinha umas terras de pão.
Um Casal de Monfirre no termo da cidade de Lisboa, era foreiro à Capela de D. Helena Vasques instituída no Colégio de N. Sr.ª da Estrela dos Monges de S. Bento em 1660.

Outro Casal de Monferrim (ou Monfirre) era um prazo foreiro à Capela de Santa Olaya instituída por Cosmo Feyo no termo da cidade, que Vicente Gonçalves da Costa aforou, porque então queria ir para o Alentejo onde tinha outra fazenda, em 22-1-1597. Partia então com a fonte do lugar e outras terras e com terra da Confraria de Santo Isidro (da Ermida do Bocal), caminho da Igreja e Rio da Rogel.

O Casal da Choutaria era um Prazo foreiro ao Morgado de Belas instituído por Rodrigo Afonso em 1501.

QUINTA DO BOCAL E A ERMIDA DE SANTO ISIDRO / SÃO DINIS
A Quinta ou Lugar do Bocal andou associada a uma terceira ermida ou templo da freguesia de Santo Estêvão das Galés, menos conhecido, mas cuja referência mais antiga surge em 31 de Julho de 1589, num assento de baptismo da vizinha paróquia de São Pedro de Almargem do Bispo, realizado na «Ermida de S. Izidro do Boqual».

A propriedade passou por vários proprietários ao longo do século XVII, sendo vendida por Francisco Dias de Leão a Pedro Pestana de Lima e sua mulher Leonisa Fróis de Azevedo, em 1657, os quais por sua vez a venderam, em 17 de Outubro de 1663, ao Pe. Álvaro de Serpa de Murzelo, que a vinculou à Capela de Catarina Anes, viúva de Afonso Peres, fundada em São Domingos de Lisboa e São Nicolau.

A quinta compreendia casas, vinha, olival, pomares e terras de pão, sendo posteriormente aforada, em 1740, a António Froes de Oliveira Azevedo. Este proprietário obteve licença para restabelecer o culto numa ermida então dedicada a São Dinis, entretanto arruinada por incêndio e restaurada em 1752. A ermida voltou a ser destruída pelo terramoto de 1755, mas foi depois reedificada em 1760, reabrindo ao culto com nova provisão episcopal e dotação anual, cumprindo funções religiosas de proximidade para a população local.
No século XIX, esta propriedade pertenceu a Sebastião Vicente, lavrador, e sua mulher Maria do Carmo, como senhorios úteis do prazo da mesma quinta de que era senhorio directo Francisco de Paula Raposo de Sousa de Alte Espargosa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em síntese, a Capela — depois Igreja Paroquial — de Santo Estêvão das Galés constitui um exemplo paradigmático da reorganização paroquial quinhentista no termo de Lisboa: nasce de uma capela rural, provavelmente ligada a um casal agrícola, afirma-se como curato autónomo na primeira metade do século XVI e consolida-se como freguesia filial de Loures, mantendo com esta uma relação económica e jurisdicional que perdurou ao longo da Época Moderna.

Termino, recordando aqui uma velha lenda, lembrada em 1949 por Raul Agostinho de Almeida, no Boletim da Junta de Província da Estremadura: «Conta-se que, quando se pretendeu construir a igreja em honra de Santo Estêvão, o quiseram fazer no vale, entre o sítio das Cruzinhas e o lugar de Monfirre, mas a imagem do santo, que o povo ali colocava, desaparecia para, no dia seguinte, ser encontrada no alto, onde, hoje, a igreja se eleva. E, tantas vezes este facto se repetiu que o povo, já desesperado, passou a correr o santo à pedrada, para o vale, sem, contudo, nada conseguir, pois ele voltava sempre a aparecer no alto, até que, vencida a teimosia do povo, o templo foi construído no local da sua predilecção.
Então, o santo, todo cheio de bondade, transformou as pedras em pães e ofereceu-os aos seus apedrejadores, o que deu origem à instituição da interessante Festa dos Merendeiros que data de tempos remotíssimos e, como já dissemos, se realiza em dia de Natal, véspera da sua festa litúrgica».
(ALMEIDA, 1949: 386)

De acordo com Tânia Florêncio, a quem agradeço os oportunos comentários críticos à primeira versão deste texto, a festa dos merendeiros organiza-se, há muito, no Dia de Santo Estêvão, Proto-mártir, dia 26 de Dezembro, e não no dia de Natal.

Rui Manuel Mesquita Mendes
28/12/2025

Documento:
FREGUESIA DE SANTO ESTÊVÃO DAS GALÉS (1535)
«Aos xbij dyas do mês de oytubro de 1535 anos Reveby Eu Bertolamey fernandez cura da Jgreja de nosa Sõra da Emxara do Bpõ a porta da dyta Jgreja a Steuaõ afomso filho de Afomso anes e de Maria afomso sua molher moradores em Mõfyrre freguysya de Samto Steuaõ das galles termo da cydade de Lyxboa com Catarina mateus fylha de Mateus fernandez e de maria anes sua molher moradores em Vyla pouca freguysya da dyta Igreja e foram testemunhas Afonso Lourenço e Afonso alluarez e Gyam martinz e Bellchior Rybeyro todos moradores na dyta Enxara do bpõ e Pero fernanzdez barbeyro morador em Vyla pouca e Joane anes mor em barrymaõ e Rodrigo anes morador em Mõte muro freguyzya de Samto Steuaõ e outros muitos e por verdade asyney aquy logo dya e mês e Era supra &ca Bertolamey ffernandez (ass.)
(Livros mistos de Enxara do Bispo (Mafra), Livro 1º, Fl. 83)
Nota: Devemos o conhecimento deste registo a João Luís Alves Francisco, a quem agradecemos.

Figuras:
https://ciriodapratagrande.com/santoestevao/images/santoestevao.jpg
Registos Paroquiais de Enxara do Bispo (Mafra), Mistos, Livro 1º, Fl. 83.

Fontes:
Isaías da Rosa Pereira – Subsídios para a história da diocese de Lisboa do século XVIII, Lisboa : Academia Portuguesa da História, 1980, pp. 75-76. Vide: AHPL, Ms. 54: Descrição das Igrejas pertencentes às Vigararias da Vara de Sintra, Cascais, Arruda, e parte do termo de Lisboa, sendo visitador o Dr. Félix Dantas Barbosa, Prior em a Patriarcal Colegiada e Matriz de Santo Antão do Tojal. Ano de 1760
Manuel J. Gandra (coord.) – Da Vida, da Morte e do Além: aspectos do Sagrado na região de Mafra. 1996.
Maria de Lurdes Pereira Rosa – «As Almas Herdeiras». Fundação de capelas fúnebres e afirmação da alma como sujeito de direito (Portugal, 1400-1521). Tese de Doutoramento em História Medieval apresentada à École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, e à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Lisboa, 2005.
Raúl Agostinho de Almeida – «O Natal na Freguesia de Santo Estêvão (Mafra): A Festa dos Merendeiros», in Boletim da Junta de Província da Estremadura, s. 2, n. 22, Set.-Dez. 1949, p. 385-87). Vide também o texto de Joaquim Pedro Bravo in < https://www.facebook.com/groups/1214881496112687?multi_permalinks=1753254205608744 >
Rui Manuel Mesquita Mendes – "A Paróquia de Santa Maria de Loures no século XVIII: algumas notas inéditas a partir de uma visitação feita em 1719", Comunicação apresentada no «Colóquio Igreja de Santa Maria de Loures: Descodificar o Passado, Projectar o Futuro», no Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte | Loures, org. Pe. Duarte Nuno Morgado (Paróquia de Santa Maria de Loures) e Sílvia Ferreira (Instituto de História da Arte/FCSH/NOVA) (14-4-2018).
Rui Manuel Mesquita Mendes – "Santa Maria de Loures no primeiro quartel do século XVIII: Descrição da igreja a partir de uma visitação feita em 1719", A Igreja Matriz de Loures, coord. Sílvia Ferreira, Câmara Municipal de Loures (2023), pp. 111-144.

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