29/07/2026
FELIP BATLLÓ I GODÓ EM PORTUGAL: UM REGISTO INÉDITO DE 1946
Um registo eclesiástico de 3 de Novembro de 1946 permite acrescentar um episódio até agora desconhecido à biografia de Felip Batlló i Godó, industrial, engenheiro têxtil e dirigente político catalão ligado ao regime franquista. Nesse ano, identif**ado na documentação do Patriarcado de Lisboa como Filipe Batló y Godó, encontrava-se residente em Lagos e requereu licença para possuir um oratório privado numa residência situada no Estoril, apresentando um rescrito apostólico obtido junto da Santa Sé.
A notícia, aparentemente inédita, não esclarece ainda as datas exatas da sua permanência em Portugal, a natureza da sua residência no Algarve ou a propriedade da casa do Estoril, mas demonstra uma ligação ao país suficientemente estável para justif**ar a instalação regular de um espaço doméstico de culto.
Nascido em Barcelona, em 1890, e falecido em Madrid, em 1985, Felip Batlló i Godó pertencia a uma das mais influentes famílias da burguesia industrial catalã. Era filho do industrial Josep Batlló i Casanovas e neto do fundador de La Vanguardia. O pai ficou especialmente conhecido por ter encomendado a Antoni Gaudí a transformação da residência familiar no Passeig de Gràcia, a célebre Casa Batlló, hoje considerada uma das obras mais emblemáticas do modernismo catalão.
Formado em engenharia têxtil, Felip Batlló desenvolveu igualmente atividade na indústria automóvel. Em 1917 fundou, em Sant Andreu del Palomar, a Fábrica Nacional de Automóviles, onde foram produzidos automóveis da marca España. Em 1922 associou-se ao engenheiro Wifred Ricart na criação da marca Ricart España, iniciativa representativa das tentativas de implantação de uma indústria automóvel própria na Catalunha durante as primeiras décadas do século XX.
A sua trajetória empresarial foi acompanhada por uma marcada intervenção política. Depois da Guerra Civil de Espanha, tornou-se secretário provincial da Falange Española Tradicionalista y de las JONS em Barcelona, cargo que exerceu a partir de 1939, e foi vice-presidente da Diputación de Barcelona. Integrado na chamada Vieja Guardia do regime franquista, recebeu a medalha do Yugo y las Flechas e, em 18 de Julho de 1965, a Gran Cruz de la Orden Imperial del Yugo y las Flechas, apresentada como reconhecimento culminante da sua carreira política. Foi também agraciado com a Ordem de Isabel a Católica e com a Medalha do Trabalho.
A família partilhava, de resto, uma identidade simultaneamente industrial, conservadora e próxima do campo nacionalista espanhol. O irmão, Josep Batlló i Godó, nascido em Barcelona em 1887 e falecido em 1955, foi empresário têxtil e proprietário da sociedade Godó y Trias, S. A.. Refugiou-se em San Sebastián durante a Guerra Civil e aderiu ao Movimiento Nacional. A irmã, Carme Batlló i Godó, morreu naquela cidade em Abril de 1939, onde se refugiara perante a perseguição de que a família teria sido alvo na zona republicana; pouco depois morreu também a sua filha Mercè Clavell i Batlló.
Mais tarde, Felip Batlló estabeleceu-se em Madrid. Aí manteve instalado um oratório que incorporava uma obra do escultor catalão Josep Llimona, anteriormente existente na Casa Batlló. A presença dessa peça num espaço doméstico de culto revela a continuidade de uma dimensão religiosa e familiar que ajuda a compreender o pedido apresentado em Portugal em 1946. A solicitação de licença para um oratório no Estoril não parece, assim, constituir um ato isolado, mas integrar uma prática devocional privada mantida em diferentes residências.
A partir de Madrid, Batlló colaborou ainda como correspondente de La Vanguardia e manteve ligações à associação Amics de Gaudí, participando na preservação da memória do arquiteto profundamente associado à história da sua família.
O registo português de 1946 levanta novas questões sobre a presença de Felip Batlló i Godó em Portugal. Identif**ado como residente em Lagos, requereu licença para um oratório privado numa residência no Estoril, o que poderá indicar a utilização de mais de uma casa no país, embora se desconheça ainda a natureza dessa ligação. Não existem indícios de exílio político, pois Batlló ocupava então posições de destaque no regime franquista. A sua permanência deverá antes enquadrar-se nas relações entre as elites económicas, políticas e católicas da Espanha de Franco e do Portugal do Estado Novo. O documento adquire particular interesse por testemunhar a presença em Portugal de um membro de uma das mais influentes famílias da burguesia industrial catalã, ligada à Casa Batlló, a Gaudí e ao jornal La Vanguardia. Apesar das lacunas documentais, este registo constitui um dado inédito e abre novas perspetivas para o estudo das relações luso-catalãs no pós-guerra.