15/08/2026
15 DE AGOSTO -AGUDA
Hoje celebramos a Festa de Nossa Senhora da Graça, à luz da grande Solenidade da Assunção de Maria. A enriquecer esta Festa temos a Matilde que vai receber a Graça do Baptismo. É uma vida que começa, uma vida que é chamada a crescer, até alcançar aquela plenitude que em Maria nos é apresentada já plenamente realizada em Deus. Este Baptismo faz-nos recordar que a vida começa por ser recebida. Ninguém se dá a si próprio a vida. E com a vida, recebemos o amor dos pais, recebemos uma família que nos acolheu, recebemos pessoas que cuidam de nós, recebemos oportunidades. E, para quem acredita, no Baptismo recebemos também a graça de Deus, participação na Vida Divina, pelo Dom do Espirito Santo, que nos é oferecido e que realiza a obra da nossa Filiação Divina. Que Dom extraordinário e maravilhoso!
Graça de Deus…. É uma expressão muito bela e que nós cristãos usamos frequentemente: pedimos uma graça, agradecemos uma graça, dizemos que alguém recebeu uma graça. Mas o que é a Graça de Deus? Podemos dizer que é, antes de mais, o Amor de Deus que se oferece gratuitamente cada um de nós. É Deus que Se dá. É a presença de Deus que nos habita, desde o dia do nosso Baptismo, nos acompanha, nos sustenta, nos transforma e nos conduz. Se é Deus que se dá, então a Graça realiza em quem a O acolhe, a beleza interior de quem deixa que a presença de Deus transforme a sua maneira de ser e de estar na vida. Há pessoas que talvez não tenham uma beleza exterior extraordinária, mas cuja presença nos faz bem. Pessoas cuja maneira de falar transmite paz, cuja capacidade de perdoar nos surpreende, cuja humildade nos desarma, cuja generosidade nos faz acreditar na bondade do ser humano. Essa é uma beleza que não depende da idade. É a beleza de uma vida tocada pela graça, pela presença de Deus. Por isso o anjo se dirige a Maria, na Anunciação com estas palavras: «Salve, cheia de graça, cheia da Beleza de Deus, o Senhor está contigo.» Maria é a Mulher cheia de graça porque habitada por Deus. Por isso está disponível para acolher aquilo que Deus lhe pede: «Eis a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua Palavra.» Maria acolhe a graça e responde com humildade. É isso que canta no seu Magnificat: «A minha alma glorifica o Senhor, porque olhou para a humildade da sua serva.» Porque cheia de Graça, Maria não procura colocar-se acima dos outros. Pelo contrário, chama-se a si mesma serva. Por isso, logo depois da Anunciação, Maria desce ao encontro de Isabel, vai servir, vai ajudar. Leva Jesus consigo. Maria desce em humildade e Deus eleva-A. Desce do seu próprio projecto para acolher o projecto de Deus. Desce para servir. E Deus eleva-A. Por isso, a Assunção de Nossa Senhora ensina-nos, antes de mais, a descobrir que a verdadeira grandeza e beleza da vida, está em descer ao encontro dos outros. Podemos subir muito na vida e, ao mesmo tempo, descer interiormente. Podemos subir profissionalmente, ganhar dinheiro, estatuto, reconhecimento, poder, e tornar-nos pessoas baixas por dentro. Lembremos o Zaqueu.. E podemos fazer precisamente o contrário: podemos descer do nosso pedestal: o orgulho que nos coloca acima dos outros; a necessidade de ter sempre razão; a vontade de dominar; podemos descer do egoísmo; descer ao encontro de quem sofre.; descer para pedir perdão; descer para servir… É este movimento de descida que nos leva a viver uma vida elevada, digna e bela e nos aproxima de Deus… porque para o céu sobe-se, descendo. E Maria ensina-nos isto de uma maneira extraordinária. Aqui entramos na compreensão do significado do Mistério da Assunção: Maria elevada ao Céu em Corpo e Alma, isto é, na totalidade do Seu Ser. Mas não devemos olhar para este acontecimento apenas como uma promessa para o futuro: “Um dia também nós iremos para o céu.” Também é! Mas não é só isso! A Assunção, entendida como movimento de descida que nos eleva para Deus, torna-se programa de vida para o hoje da nossa vida, porque Deus chama-nos a viver uma vida elevada, isto é, uma vida com dignidade, uma vida bela que não rasteje atrás do orgulho, do egoísmo, da inveja, ou da necessidade de dominar ou de ser sempre reconhecida.
Como escutámos no Evangelho, depois de receber a graça da maternidade divina, Maria parte para visitar Isabel, porque a graça recebida torna-se graça oferecida. Esta é outra grande lição desta festa: aquilo que Deus nos dá, não é para guardarmos apenas para nós mas é para partilhar com os outros. Isto é, o acolhimento da Graça de Deus, faz-nos Dom para os irmãos e isso pode passar por gestos muito simples, mas cheios de beleza, cheios de graça: uma palavra amiga pode ser graça para alguém. Uma visita a quem está sozinho pode ser graça. Um perdão pode ser graça. Uma mão estendida pode ser graça. Uma palavra que devolve esperança pode ser graça. Talvez haja pessoas que Deus colocou na nossa vida para que nós sejamos a graça que elas precisavam de encontrar. A graça recebida torna-nos Dom para os outros. Mas a graça acolhida e oferecida não deve servir para nos gloriarmos a nós mesmos! Reparemos que no Magnificat Maria não diz: "Vejam aquilo que eu consegui." Diz: «A minha alma glorifica o Senhor...porque o Todo-Poderoso fez em mim maravilhas.» É sempre o Senhor quem faz, em Maria e em nós e através de nós.
Maria reconhece que a sua vida é uma história de graça. E talvez esta festa nos convide a fazer o mesmo. Olhar para a nossa própria história e perguntar: Onde esteve a graça de Deus na minha vida? Antes de mais, no Baptismo. Talvez tenha estado numa pessoa que apareceu no momento certo. Numa mão que nos levantou quando estávamos caídos. No dom de um filho. Numa amizade. Num perdão celebrado no Sacramento da Reconciliação. Na força que apareceu quando julgávamos já não conseguir. Na paz que experimentámos no meio de uma situação difícil. Talvez tenhamos chamado a tudo isso "sorte", "acaso" ou "coincidência". Mas hoje a fé convida-nos a olhar mais fundo e a dizer: «O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas.» Maravilhas vai fazer também o Senhor já de seguida através do Sacramento do Baptismo que esta menina vai receber. Pelo Graça do Baptismo, Deus vai habitar nela como habitou em Maria e em cada um de nós. Se já soubesse falar, bem poderia cantar, “ a minha alma glorifica o Senhor…” Cabe aos seus pais e aos seus padrinhos a bela missão de lhe ensinar tão bonita oração cantada por Nossa Senhora. Que um dia a Matilde o possa cantar também connosco!
Peçamos hoje à Senhora da Graça que nos ensine a descer em humildade, para que possamos subir em dignidade. Que nos ensine a servir, para que a nossa vida seja verdadeiramente bela. E que, olhando para Maria elevada ao céu, compreendamos que o céu não é apenas o lugar para onde um dia esperamos ir. É também o horizonte para o qual, hoje devemos orientar a nossa maneira de viver. Por isso, levemos connosco esta frase: Para o céu sobe-se, descendo. E que, um dia, depois de uma vida vivida na graça, na humildade, na beleza e no serviço, também nós possamos entrar na plenitude daquela vida que Maria já contempla. Então compreenderemos plenamente aquilo que hoje celebramos: a graça recebida tornou-se beleza vivida, a beleza tornou-se serviço, o serviço tornou-se caminho e o caminho conduziu à glória.
Nossa Senhora da Graça, rogai por nós. Ámen.