12/03/2025
Peregrinação
- Os caminhos e os passos da nossa Vi(r)agem -
Peregrinar é ... ousar sair de si mesmo
Ousámos sair. Saímos. Estamos em peregrinação. Estamos em vi(r)agem. Mais do que apenas sair porta fora, tomar um itinerário traçado e percebido num mapa, estamos a sair. Saímos da monotonia do nosso dia a dia sempre igual, saímos da nossa vontade de não sermos incomodados e de não nos incomodarmos, saímos com o objectivo de chegar a um qualquer local, saímos com um projecto (uma meta, uma realização) como objectivo. E sair é ousar cruzar novos caminhos, os caminhos que nos conduzem até ao objectivo, mas também os caminhos do nosso próprio ser e existir, os caminhos da nossa fé e da nossa relação com Deus e os outros. É uma ousadia, mas a nossa vida faz-se, nas suas diversas dimensões, destas ousadias.
Saímos da casa onde vivemos todos os dias, todas as horas para ver, reflectir, rezar e agir. Saímos de casa e estamos a sair de nós. Sentimos a vontade da partida, prevemos as possíveis dificuldades do percurso, pensamos nas adversidades que se irão interpor, percebemos a riqueza da experiência, vivemos já o fascínio da caminhada feita de paisagens novas, experiências novas e irredutíveis, e, na motivação da esperança, antecipamos a alegria da chegada. E lá onde chegarmos está a nossa nova partida. Sempre. Chegar para partir. Partir porque já se chegou. Todos os dias, todas as vidas, se fazem de partidas, caminhadas e chegadas. E muitas vezes, se não quase sempre, por novos e insuspeitados caminhos.
É assim a peregrinação. E, sobretudo, a peregrinação da fé e da vida. Quem não sentiu já a alegria profunda de, depois de 10, 20, 50, 100, 150 Kms de caminhada com as suas inerentes dificuldades, vislumbrar ainda ao longe o local para onde se dirige ? Quem não sentiu já a comoção de, após dias ou horas de caminhada, perceber no horizonte a torre da Igreja para onde se dirige. É como quem diz “aqui estou, Senhor!”. São experiências de fragilidade, mas também de confiança, de profunda alegria, de memória da vida, de esperança e de verdade e capacidade.
A peregrinação na vida do homem
Peregrinar, caminhar, pertence à nossa condição humana. Gostamos ou não de descrever a nossa vida como uma caminhada ? Desde o nascer até ao morrer é esta a nossa condição, somos caminhantes.
E, de facto, por pouco que nos detenhamos a observar o que se passa à nossa volta, percebemos que tudo o que existe sobre a face da Terra está “a caminho”, tudo está em mudança.
O caminho, em sentido figurado, significa a vida humana. A nossa vida humana é uma caminhada, uma peregrinação, uma vi(r)agem que tem o seu início no nascimento e o fim visível no morrer. Ao olharmos para nós próprios lembramos isto mesmo: estamos de passagem. E durante este caminho, esta passagem, vamos fazendo diversas e múltiplas experiências: trabalhamos e descansamos, amamos e sofremos, divertimo-nos ... e, mais importante, vamos procurando dar sentido a tudo isso. É que não basta só viver. É preciso tentar perceber a razão e o sentido de todo esse viver, encontrar uma meta para onde se dirigir.
A Peregrinação na História da Salvação
A Sagrada Escritura refere-se muitas e muitas vezes a caminhadas, a peregrinações. São caminhadas que levam homens a lugares santos, são caminhadas que levam o homem a experimentar-se a si mesmo para compreender a sua missão no meio de toda a humanidade. Sobressaem na Bíblia, pelo seu simbolismo religioso, as peregrinações dos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob a Siquém (Gen 12, 6-7; 33, 18-20), a Bethel ( Gen 28, 10-22; 35, 1-15) e a Mambré (Gen 13, 18; 18, 1-15) onde Deus Se lhes manifestou e Se comprometeu a dar-lhes a Terra prometida.
É nesse sentido também que o Monte Sinai, o Monte da revelação de Deus a Moisés, tem uma lugar especial na memória do Povo de Deus. Nesse contexto a travessia do deserto teve para o Povo o sentido de uma longa caminhada (e porque não peregrinação ?) até alcançar a promessa de Deus. E Deus, através da Arca e do Tabernáculo (Num 10, 33-36; 2 Sam 7, 6), símbolos da sua presença, acompanhou sempre este povo caminhante.
E Jerusalém, mais tarde, a sede da Arca e do Templo, tornou-se a meta de tantas e tantas caminhadas. É a Casa de Deus e, por isso, caminhar até Jerusalém é caminhar até Deus, é encontrar-se com Ele. Três vezes por ano, os homens deviam peregrinar até Jerusalém por ocasião das Festas dos Ázimos (Páscoa), da Festa das Semanas (Pentecostes) e da Festa das Tendas ou Tabernáculos (colheitas).
E o próprio Jesus, submetendo-Se também voluntariamente à Lei, foi peregrino. Com Maria e José, e depois na sua vida pública, Jesus peregrina até Jerusalém (Jo 11, 55-56). O Evangelista Lucas, aliás, apresenta a acção salvífica de Jesus como uma peregrinação cuja meta é Jerusalém. Para Jerusalém tudo converge durante a vida de Jesus e até à sua morte. E de Jerusalém tudo dimana após a ressurreição de Jesus e na consequente missão da Igreja nascente (Lc 9, 51 – 19, 45 e Act 2, 5).
A Peregrinação na vida da Igreja
A vida e a história da Igreja constituem o diário vivo de uma peregrinação que ainda não acabou nem acabará nunca. É esse o ritmo e dinamismo da vida de Jesus e é esse o ritmo e dinamismo da vida dos cristãos. Jesus peregrinou por este mundo para o Pai. Os cristãos seguem-n’O na peregrinação e, como exercício espiritual, realizam peregrinações, caminhadas que lhes representam essa mesma caminhada de toda a vida para Deus e a eternidade ( Cf. Manuel CLEMENTE, A fé do povo (Lisboa: Paulus, 2002) 35.
) .
Nos primeiros três séculos de vida da Igreja, a peregrinação não tinha grande relevo até pelo facto de a Igreja se quer distanciar de práticas religiosas usadas por outros grupos como o judaísmo ou mesmo o paganismo.
É, contudo, nesses mesmos séculos que se lançam as bases de muitas e importantes peregrinações cristãs. Nesse sentido, o culto dos mártires – aqueles que deram a vida por Cristo – determinará uma grande influxo na espiritualidade da peregrinação.
Com destino a Roma ou à Terra Santa, ou ainda em direcção a novos ou velhos santuários consagrados a Nossa Senhora e aos santos, muitas peregrinações se realizaram e dinamizaram.
Essas peregrinações encontraram depois um grande desenvolvimento na época da paz constantiniana e à medida que se forma identificando os locais de martírios ou se forma encontrando as relíquias dos santos.
Na maioria dos lugares santos construiram-se basílicas, igrejas ou mesmo simples ermidas.
A Idade Média será a época das grandes peregrinações. Roma (túmulos de Pedro e de Paulo), Jerusalém ( os lugares santos), Santiago de Compostela ( a partir do séc. IX), Tours (S. Martinho), Cantuária (S. Tomás Becket), o Monte Gargano (Puglia), S. Michele della Chiusa (Piemonte), Mont Saint-Michel (Normandia), Rocamadour e Loreto são dos locais mais peregrinados.
Com a modernidade as peregrinações decrescem um pouco na medida em que a espiritualidade se vai centrar sobre o sujeito e, nesse sentido, se começa a falar de peregrinações espirituais, ou seja, caminhadas interiores ou peregrinações simbólicas.
O séc. XIX e XX vêem, depois, regressar com grande dinamismo, embora com outra fisionomia, as peregrinações: Aparecida, Assis, Caacupé, Chartres, Coromoto, Czestokowa, Fátima, Guadalupe, Loreto, Lourdes, Montevergine, Montserrat, Pádua, etc (Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Directório sobre a piedade popular e a Liturgia, 284 ss. ) .
O sentido e a espiritualidade da Peregrinação
A peregrinação foi sempre um momento significativo na vida dos crentes. É como que uma oração em acto contínuo. Pés a caminho, metas definidas, metas físicas em consonância com metas interiores de conversão fazem da peregrinação um momento de comunhão com Deus e com toda a Igreja. Quando peregrinamos queremos chegar ao santuário que é a meta da peregrinação, mas também queremos uma maior identificação cristã na santidade de vida. Quem peregrina não faz apenas um conjunto de kilómetros, mas é chamado sim a fazer uma mudança de vida. Caminha-se desafiado por esse ideal. E ideal não quer dizer abstracto ou não alcançável. Ideal quer dizer que tem a força suficiente para nos mover de onde estamos até às atitudes e comportamentos que nos identificam com os locais aonde queremos chegar. Por isso o caminho com os pés é uma parábola do caminho interior com a vida e as atitudes.
Há, por isso várias dimensões, que a Igreja reconhece e vive nas peregrinações:
- A dimensão escatológica (caminhamos para o céu): A peregrinação é uma parábola da nossa caminhada para a identificação com o Reino de Deus revelado em Jesus Cristo. O cristão é, por excelência, homem a caminho, alguém que se movimenta: entre a obscuridade e a luz, entre o exílio e a libertação, entre o sofrimento e a alegria. O êxodo do Povo de Deus mostra isso mesmo: a vida faz-se sempre de saídas (de certas e determinadas prisões) – caminhadas (por desertos, momentos de luz e de tristeza) – entradas (na Terra da Promessa, na felicidade) que são novas partidas.
- Dimensão penitencial: A peregrinação configura-se com um caminho de conversão. A caminhar para um santuário faz-se melhor a consciencialização do pecado pessoal e da necessidade da conversão, bem como dos caminhos do arrependimento. Pela experiência do jejum, da oração e da penitência, o peregrino avança e caminha no percurso da perfeição cristã, esforçando-se por uma maior vivência da sua vocação cristã à santidade.
- Dimensão festiva: Em cada peregrinação dimensão penitencial coexiste com a dimensão festiva. É a alegria do encontro da paz interior, da serenidade, mas, sobretudo, a profunda alegria do encontro da Casa do Senhor, essa experiência de acolhimento em Deus.
- Dimensão cultual: Cada peregrinação é, essencialmente, um acto de culto, uma acto de oração, de celebração da penitência, de encontro com Deus. No local rumo ao qual se peregrinou, o peregrino cumpre os votos ou promessa, pede perdão, reza em acção de graças ou em louvor, suplica graças.
- Dimensão apostólica: Quando cada peregrino faz a experiência da proximidade de Deus ou da aproximação progressiva do seu Reino, não consegue calar a experiência que é peregrinar, mudar, converter. E aqui a memória do que Deus concede torna-se em ousadia de vida nova concretizada em valores novos. O que se vive anuncia-se.
- Dimensão de comunhão: Qualquer peregrinação é uma experiência de comunhão. É comunhão com todos os que caminham, mesmo que não o façam connosco, no mesmo trajecto, ao mesmo tempo, ou com o mesmo passo. É comunhão com todos os inquietos da vida, com todos os que procuram sentido mais pleno para as suas existências diárias, com todos os que percebem Deus e o seu Reino como o grande desafio que é possível concretizar e fazer realidade. Quando caminhamos em conjunto, o caminho ganha outro sentido e torna-se mais leve a dificuldade de caminhar (ibid.) .
A Peregrinação e a vida
Então a peregrinação recorda a nossa condição de peregrinos nesta terra a caminho da eternidade. E esta caminhada reproduz a nossa condição real – andamos à procura. A nossa existência é um caminho. Do nascimento até à morte cada um vive na condição peculiar de homem a caminho. O peregrino, caminhante nesta terra, assume a perspectiva da provisoriedade e da fragilidade da sua vida. Tudo, ou muita coisa, vai ficando para trás – somos peregrinos de nós mesmos e da Casa do Pai. Não podemos realizar uma peregrinação, longa ou breve, atafulhados de coisas e coisas. Temos de ser livres e partir numa dinâmica de libertação. Tudo passa, só Deus permanece, porque só Deus basta, como diz Sta. Teresa de Jesus. Estar a caminho leva-nos a olhar para horizontes mais largos e dá-nos, em cada passo, a simplicidade e a confiança de quem se sabe amado.
Como é humana, esta vitória cansativa sobre a distância espacial, esta aspiração, esta tensão para um fim a atingir, que não se alimenta apenas com uma alegria terrestre, mas é também aproximação de Deus! Resquícios do Antigo Testamento, quando Jahwé residia no Templo ? Mas os Judeus nãoi ignoravam que “ os céus não O podem conter, e ainda menos a casa que construiu” (1 Reis 8, 27). Jesus, que falou da ruína do Templo e, sobretudo, da adoração em espírito e verdade, não se sentiu dispensado, quer em criança quer já adulto, de ir repetidamente em peregrinação ao Templo e de cantar os salmos de ascensão a Jerusalém. Os santuários católicos têm a graça de deixar partir cada um com a certeza de que esta mesma graça não está ligada a um lugar. Anulam-se depois de se imporem. Foi-nos benéfica a vinda de Jesus para o meio de nós, e foi-nos igualmente benéfico que tivesse voltado para o Pai; sem o que o Espírito Santo não teria vindo ( Hans Urs Von BALTHASAR, Catholique (Paris : Arthème Fayard, 1976) 114, op. cit. in Manuel CLEMENTE, A fé do povo (Lisboa: Paulus, 2002) 36.
) .
Fazer vi(r)agem, fazer peregrinação, é pois um processo constitutivo da nossa identidade. Estamos, permanentemente a caminho. É isto que nós somos. Estamos à procura. Vivendo, amando, querendo, reflectindo, descobrimos os outros, descobrimos as estradas da vi(r)agem, e sentimos a transcendência do Mistério que nos habita e impulsiona: Deus. Viajar faz-nos criar cumplicidade: cumplicidade uns com os outros porque temos de nos ajudar mutuamente a chegar ao fim, e cumplicidade entre os lugares de onde partimos e os lugares aonde queremos chegar e aonde vamos chegando. Esta é a cumplicidade do caminho. Desta cumplicidade se faz o nosso caminho. Dentro e fora de nós. Com Deus. Com os outros. Connosco próprios.
As Tentações do Caminhante – uma parábola da vida
Diz uma história que podemos assumir como parábola da nossa vida que um velho caminheiro, de rosto já enrugado, experimentado nos caminhos da vida, com muitos quilómetros (interiores e exteriores) percorridos, partilhava, num serão à antiga, com o seu neto, um jovem cheio de vigor e entusiasmo, a sua visão e sabedoria acumulada sobre o “caminho” e as “tentações do caminhante”, a saber:
1. A tentação de caminhar sem bússola, sem saber onde se quer chegar, sem porquê, para quê ou para quem.
2. A tentação de querer chegar à meta sem ter percorrido todo o caminho, de querer a vitória sem o esforço, a felicidade sem a fidelidade diária a cada passo.
3. A tentação de fazer o caminho que todos fazem, abdicando do sentido crítico ou da própria vontade / liberdade.
4. A tentação de fazer o caminho completamente sozinho, apoiado na arrogância das próprias forças, sem aceitar a ajuda dos outros a fazer o próprio caminho.
5. A tentação de preferir os atalhos para evitar confrontos ou de fazer o percurso mais difícil ou ainda a tentação de escolher o caminho da fama sem glória.
6. A tentação de fazer o caminho carregando com a mochila com todas as “seguranças” habituais.
7. A tentação de não aceitar as leis do caminho: caminhar passo a passo, aceitar as bolhas, o suor, as quedas, dar sentido às dificuldades, fazer das adversidades oportunidades.
8. A tentação de ficar parado a meio do caminho, de o abandonar quando surgem algumas dificuldades ou de o fazer à custa dos outros.
9. A tentação de pensar que se pode fazer o caminho sem erros, desvios, sem becos sem saída.
10. A tentação de pensar que o caminho se faz sozinho, ou que Deus não se faz companheiro de caminho. A tentação de querer que Deus faça o caminho por nós ( Carlos CARNEIRO, As tentações do caminhante in Mensageiro. ) .
O caminho nosso de cada dia - reflectir as nossas caminhadas
Com os pés na estrada ou com o sentido na vida e atentos a opções, acasos, surpresas e ideais, todos caminhamos. Caminhamos na fé e caminhamos na vida. E uma e outra caminhada vão de mão dada e, se mutuamente se desafiam, também mutuamente se ajudam. Quem somos, de onde vimos e onde pretendemos chegar são questões próprias do caminhante da vida e da fé, questões próprias de quem tem ideal. Então, individualmente ou em grupo, podemos reflectir algumas questões:
- Qual é o ideal mais profundo da minha vida ? Onde pretendo chegar?
- Na vida e na fé sinto-me imobilizado ou em dinamismo permanente de renovação ?
- Caminho sempre sozinho ou sou capaz de caminhar em comunidade, nomeadamente a comunidade eclesial e paroquial ?
- Que “bagagens” preparo para as minhas caminhadas ?
- Quando foi a última vez que fiz uma peregrinação ? Como me preparei e como a vivi ? Transformou em alguma coisa a minha vida ?
- O que procuro quando peregrino ? Que diferença posso estabelecer entre um “caminhante” e um “turista” ?
Repetindo, peregrinar, caminhar, pertence à nossa condição humana. Gostamos ou não de descrever a nossa vida como uma caminhada ? Desde o nascer até ao morrer é esta a nossa condição, somos caminhantes.
P. Emanuel Matos Silva