05/10/2017
Um buraco no meio e um vazio dentro.
As vezes tenho vontade de escrever nessa página. Mas o que ainda temos a dizer? O que ainda não foi dito? Não digo apenas por nós, mas por todos aqueles que criticam esse simulacro artificial do que um dia foi o futebol.
Cada vez mais percebo que há menos o que falar. Não existe um aspecto dessa farsa toda que já não tenha sido denunciada, seja no aspecto financeiro, comportamental, técnico, tático, midiático e etc...
Hoje mais que nunca percebo que a luta pelo futebol se trata de uma luta perdida, o futebol morreu e não tenho mais fé de que poderemos resgatar ele algum dia. Nem sequer conseguiremos preservar certos valores que mesmo no chamado "futebol moderno" ainda existiam, portanto a tendência é que qualquer resquício de futebol seja varrido do mapa daqui em diante. O futebol moderno, aquele que lá atrás nós já rechaçávamos e já combatíamos quando muitos sequer conseguiam conceber sua existência e entender de que se tratava, também se acabou. O futebol moderno é hoje um ente igualmente morto ao futebol, estamos iniciando uma nova era, hoje vivenciamos a inauguração do futebol pós-moderno.
Enquanto vamos presenciado o surgimento desse novo ente esportivo, os poucos resquícios de uma era já quase "pré-histórica" para os novos donos do game, vão se extinguindo pouco a pouco. Lembro certa vez, não faz muito tempo, talvez um par de anos, num raro momento que me peguei tentando assistir a algum jogo pela tv e fiquei em choque. O Deportivo Cali jogava pela Copa Libertadores (hoje Liberta como dizem os símios de plantão) contra alguém que não me lembro quem era, só que pra minha surpresa o mandante colombiano não mandava o jogo no Pascual Guerrero, tradicional caldeirão de Cali. O Deportivo pra minha total surpresa havia construído um estádio ridículo e esquisito, ainda que um estádio e não uma arena como possam argumentar uns e outros como isso ainda fizesse diferença hoje em dia. Depois de pesquisar assombrado vi que o Frankenstein de concreto em questão sequer f**ava em Cali, mas sim em Palmira, cidade próxima, e o estádio f**ava literalmente no meio do nada pelas fotos que vi dele. Um horror pra minha mente que a essa altura já não acreditava mais em nada.
Porém a curiosidade me levou a procurar se o América de Cali ainda jogava no Pascual Guerrero, sempre gostei do América desde que comecei a acompanhar de fato o futebol, nos anos 90, lembro que logo de cara me apaixonei pelo fato do time usar um uniforme inteiro vermelho. Minha primeira recordação de ver o time foi justamente contra o Grêmio na semifinal da Libertadores, na época que esse ainda era o maior torneio de futebol do mundo, era porrada, sangue e sacrifício em grau máximo! Assisti o jogo com meu avô gaúcho e gremista (que inclusive foi jogador do Grêmio) mas me encantei com o América ali naquele momento, no que provavelmente deve ter sido o primeiro time estrangeiro pelo qual eu tive um laço de afeto. O que na verdade só contribuiu para me deixar ainda mais irritado quando vi o que fizeram com o Pascual Guerrero, deformado e irreconhecível. Confesso que fiquei triste quando vi as fotos da "reforma" (leia-se estupro) que fizeram nele.
Agora pouco soube da notícia (que já era um boato forte há tempos) de que Uruguai, Argentina e Paraguai pretendem se unir para sediarem a tal "World Cup" em conjunto lá em 2030, curiosamente no centenário da primeira Copa Mundial que teve sede no Uruguai. Nem preciso dizer que com isso o último pingo de dignidade que ainda existe no hemisfério sul será, como já dito, varrido do mapa. Os maravilhosos e vibrantes estádios Charrúas, Porteños e Guaranis darão lugar a essas aberrações de plástico barato que mais se parecem a um shopping center, como de fato já existem algumas por lá vide o que fizeram com Doble Visera e o Estádio moderninho de La Plata.
Pois é, a tal da Tatcher, aquela vagabunda que foi uma das principais responsáveis pela elitização dos Estádios ingleses e o extermínios dos "terraços" está viva na América do Sul, não por acaso os gorilas direitistas saíram do armário por essas bandas.
Verdade que ainda não foi confirmado, porém não há muito o que como torcedores possamos fazer, ainda mais com esses parasitas entreguistas no poder, o Paraguai do golpe de estado, a Argentina do golpe midiático... E todos seguem entorpecidos diante dessa nova ordem do esporte. Nesse cenário o mais possível é que a notícia se concretize.
E tem quem ainda vislumbre alguma coisa nesse cenário macabro que alguns ainda insistem em chamar de futebol... Ou por ser neófito, ou por estar brincando de dar rolê, curtir um som e tomar uma breja.
Lembro que quando eu era mais novo e o futebol estava longe de ser o consenso que parece ser hoje, ainda era um certo tabu para algumas pessoas viver o futebol. Me recordo de chegar na escola e comentar a respeito do jogo com alguns outros colegas que gostavam de futebol (que estavam longe de ser maioria) e éramos olhados como seres de outro planeta. E quando comentava que eu havia ido no estádio então? "Aiii mas cê tem coragem de ver jogo no campo?" diziam os que não eram chegados no futebol...
Confesso que nunca entendi bem essa frase, primeiro porque assistir um jogo no estádio era absolutamente normal pra mim, fazia isso praticamente uma vez por semana, segundo porque sempre tive em mente que os "perigos" que poderiam ocorrer comigo naquele lugar, poderiam igualmente ocorrer em qualquer outro lugar, tragédias infelizmente acontecem, faz parte dessa estranha aventura chamada vida, isso sempre me pareceu meio óbvio. Porém confesso que ao ouvir essa frase eu sempre olhava bem pra cara da pessoa e pensava "Nossa, que id**ta!". Pois é, hoje o quadro mudou e vejo tudo que aconteceu no futebol e percebo essa gente que caiu de paraquedas nesse simulacro, que anda frequentando estádios, jogando cartola, comentando sobre os "golaços" da rodada, falando das contratações bilionárias, indo a barzinho caro tomar cerveja artesenal vendo joguinho com o agasalho do MUFC e etc... A única coisa que eu penso é "Nossa, que id**tas". Realmente não deve ser um acaso que aqueles que lá por 96-2003 não se interessavam por futebol e nos consideravam seres menos civilizados por gostar e viver aquilo estão hoje frequentando os estádios e justif**ando tudo esse simulacro. Esse joguinho novo é pra eles, não pra nós! E o vácuo só aumenta...