05/09/2026
𝕏𝕏𝕀𝕀𝕀 𝔻𝕠𝕞𝕚𝕟𝕘𝕠 𝕕𝕠 𝕋𝕖𝕞𝕡𝕠 ℂ𝕠𝕞𝕦𝕞 _ Ano A
A͡ P͡ a͡ l͡ a͡ v͡ r͡ a͡
𝑫𝒐 𝑬𝒗𝒂𝒏𝒈𝒆𝒍𝒉𝒐 𝒔𝒆𝒈𝒖𝒏𝒅𝒐
𝐒ã𝐨 𝐌𝐚𝐭𝐞𝐮𝐬 𝟏𝟖 , 15-20
Irmãos e irmãs, amados no Senhor,
O Evangelho deste Domingo insere-se no contexto do Discurso Eclesiológico (sobre a Igreja), sendo, portanto, um texto fundacional de eclesiologia mateana.
No texto, o verbo OUVIR ocorre efectivamente quatro vezes, ainda que sob duas formas (v. 15-16, «se ouvir / se não ouvir» e v. 17, «se não os ouvir», «se não ouvir também a igreja»), que em grego bíblico tem a ver com a recusa obstinada, de desprezo da palavra ouvida, não um simples «não escutar», mas um «fazer orelhas moucas». O quatro, na simbologia bíblica, remete-nos à totalidade terrestre, como os quatro cantos da terra (Is 11,12; Ap 7,1), os quatro rios do Éden (Gn 2,10-14), os quatro ventos (Ez 37,9; Dn 7,2), os quatro seres viventes que sustentam o trono, mas que representam também a criação (Ez 1; Ap 4). O quatro é o número do mundo criado, do espaço humano, em contraste com o «três» (plenitude divina/trinitária) e com o «sete» (totalidade sagrada, união de céu e terra).
À luz do texto, os quatro «ESCUTARES» (vv. 15-17) desenrolam-se precisamente no plano terrestre e eclesial: o processo humano, gradual e mediado (a sós, com testemunhas, diante da comunidade) de procurar recuperar o irmão. É a «terra» do v. 18 («o que ligardes na terra») que, de facto, é prefigurada lexicalmente pelo quádruplo apelo à ESCUTA. Só depois, nos vv. 18-20, o texto sobe ao nível divino («será ligado no céu», «Pai que está nos céus» e a presença do Ressuscitado «no meio»). Assim sendo, a comunidade é convocada a esgotar primeiro, por quatro vezes e em movimento crescente, todas as vias terrestres da escuta, antes que a Igreja invoque a ratificação celeste. A correcção fraterna é, neste sentido, um exercício profundamente encarnado, pois não se salta para o céu sem que antes se tenha percorrido, com paciência quaternária, o caminho da terra. Na verdade, o importante será sempre a recuperação de um vínculo familiar dentro da ecclesia (igreja).
O erro do outro não o transforma em estranho ou em inimigo; continua, apesar do pecado, a ser irmão. É essa identidade prévia e irrevogável que funda o próprio dever da correcção; aliás, corrige-se precisamente PORQUE é irmão, e corrige-se PARA QUE continue a sê-lo em plenitude. E, com efeito, como podemos aferir no v. 20, aquele que era «teu irmão» torna-se, através do processo comunitário, aquele em cujo meio, juntamente com os outros, Ele, o Senhor, SE FAZ presente. A fraternidade horizontal (recuperar o irmão) é o espaço concreto onde se verifica a promessa vertical (a presença de Cristo). Não há, em Mateus, presença do Ressuscitado que não passe pelo cuidado efectivo com o irmão. Corrigir o outro será sempre um acto de AMOR, um acto de CURA, que devemos praticar não para o humilhar, mas para o RECUPERAR. O objectivo não é vencer uma discussão, mas ganhar um irmão.
Nos dias que correm, tendemos a considerar que corrigir um irmão ou irmã errante é inadequado para uma sociedade liberal e tolerante. Temos um sentido exagerado de autonomia pessoal e de independência recíproca. Esquecemos que todos somos INTERDEPENDENTES e que as nossas vidas estão intrinsecamente ligadas umas às outras. Grosso modo, torna-se imperioso mencionar a palavra «UBUNTU», que, na filosofia africana, significa «EU SOU PORQUE SOMOS», e recordar a bela expressão de São Paulo segundo a qual todos formamos «um só corpo». Para o bem ou para o mal, as nossas vidas têm impacto umas nas outras. Frequentemente, o que nos impede de falar a verdade, com amor, a um irmão ou a uma irmã é o nosso medo de rejeição e de conflito. Não queremos CORRER O RISCO de COLOCAR EM RISCO o nosso relacionamento com quem amamos. Mas um relacionamento construído sobre a rejeição de todo o confronto, e não sobre a verdade, está às portas da cova. Existe um conflito saudável que leva ao crescimento, assim como há uma paz pouco saudável que, na verdade, é outra palavra para indiferença.
Assim, em vez de tolerar todo o tipo de comportamento não cristão e destrutivo, o Evangelho de hoje desafia-nos a CORRIGIR, com coragem, uns aos outros em amor e respeito, para que toda a comunidade cristã possa glorificar o ESPANTO e a BELEZA de Deus, que nos fez a cada um à Sua imagem e que nos chama a viver como Seus filhos. Amém!