07/06/2026
𝗦𝗼𝗹𝗲𝗻𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗼 𝗖𝗼𝗿𝗽𝗼 𝗲 𝗦𝗮𝗻𝗴𝘂𝗲 𝗱𝗲 𝗖𝗿𝗶𝘀𝘁𝗼 (𝗖𝗼𝗿𝗽𝘂𝘀 𝗖𝗵𝗿𝗶𝘀𝘁𝗶)_𝗔𝗻𝗼 𝗔
A͡ P͡ a͡ l͡ a͡ v͡ r͡ a͡
𝑫𝒐 𝑬𝒗𝒂𝒏𝒈𝒆𝒍𝒉𝒐 𝒔𝒆𝒈𝒖𝒏𝒅𝒐
𝐒ã𝐨 𝐉𝐨ã𝐨 𝟔,𝟓1-𝟓𝟖
Amados Irmãos,
Celebramos hoje a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo (Corpus Christi).
Ignácio de Antioquia, a caminho do martírio em Roma, no início do século II, descreveu a Eucaristia como «remédio de imortalidade, antídoto contra a morte». Era um bispo que sabia o que era ser perseguido; era um homem que caminhava para ser devorado pelas feras no circo, e que, por isso mesmo, compreendia de dentro o que significa receber um alimento que a morte não consegue destruir.
Vivemos numa civilização que soube, como nenhuma outra antes, multiplicar os pães, a produção alimentar global é tecnicamente suficiente para alimentar toda a humanidade, e que, todavia, continua a produzir fome em escala industrial, porque o problema nunca foi apenas técnico mas moral e espiritual. A concentração da riqueza, a lógica do lucro sem limite, as guerras que destroem as colheitas e dispersam as populações… tudo isto revela que a multidão continua a procurar Jesus «porque comeu e se saciou», isto é, por razões instrumentais, sem deixar que o ENCONTRO com Ele transforme a lógica pela qual organiza o mundo.
As ideologias do século XX prometeram pão eterno e deram campos de extermínio. As promessas do mercado global do século XXI prometeram prosperidade universal e geraram desigualdades abissais e guerras por recursos. O pão que perece perece sempre e leva consigo os que nele depositaram toda a esperança. Mas Jesus é o Pão para a vida do mundo (Jo 6,51). Por isso, quando Jesus diz que o pão que dá é a sua sarx (carne), está a dizer que o que se oferece na Eucaristia é a mesma vulnerabilidade que nasceu em Belém, que fugiu para o Egipto, que foi torturada em Jerusalém, que morreu entre dois criminosos. É a carne perseguida, a carne martirizada, a carne que conhece de dentro o que significa ser vítima da violência humana. A carne de Cristo é o pão dos perseguidos precisamente porque é a carne de Alguém que foi perseguido. O Cristo eucarístico oferece o seu corpo a partir da Cruz, a partir do lugar onde a violência humana chegou ao seu extremo e foi vencida não por uma violência maior, mas pelo amor que não cede.
O Cristo que se dá em forma de pão mastigado exige que sua Igreja seja o pão mastigado partido, distribuído, consumido pelo mundo. A relação entre Jesus e o Pai, relação de missão, de vida comunicada, de amor que se dá totalmente, é precisamente o modelo e a fonte da relação entre Cristo e o crente que comunga. Assim, quem recebe a Eucaristia é inserido na circulação de vida que é a própria Trindade, porque entra na intimidade do amor trinitário, torna-se participante da relação entre o Filho e o Pai, é habitado pelo mesmo Espírito que habitou Jesus. E hoje, com a Procissão do 𝗖𝗼𝗿𝗽𝘂𝘀 𝗖𝗵𝗿𝗶𝘀𝘁𝗶, temos a graça de TESTEMUNHAR PUBLICAMENTE a nossa fé em Jesus, Pão da vida!
Para os cristãos que vivem hoje sob perseguição, que vêem os seus irmãos mortos, as suas igrejas destruídas, os seus filhos traumatizados, a promessa da ressurreição «no último dia» é o fundamento último da resistência não violenta, da recusa de entrar na lógica do ódio, da capacidade de perdoar o perseguidor sem por isso capitular diante da injustiça. Porque quem crê na ressurreição sabe que a última palavra não pertence ao carrasco, mas ao Deus que ressuscitou Jesus e que prometeu fazer o mesmo com todos os que COMEM o seu PÃO. Amém!