20/04/2025
Na noite de Páscoa, o irmão Matthew encontrou todos os que estão em Taizé e disse:
Sejam todos bem-vindos, vocês que vieram passar estes dias connosco, enquanto recordamos a decisão de Jesus de amar até ao seu último suspiro. Ao fazê-lo, Jesus mostra-nos quem é Deus e assegura-nos que nada nos pode separar do amor de Deus: nem a vida nem a morte, nem o sofrimento nem a violência.
Ao longo desta semana, seguimos os passos de Jesus desde a sua entrada em Jerusalém, a sua última ceia com os amigos, o julgamento e condenação injustos, até ao momento em que entregou a vida por todos na cruz. Hoje, esperamos em silêncio pela confirmação final desse amor sem limites, que reabre caminhos de perdão e comunhão, conduzindo-nos a todos à vida eterna.
Vieram em grande número da Alemanha, França, Portugal, Suécia, Itália e Espanha, mas gostaria de saudar especialmente os Palestinianos de Belém que estão connosco esta semana, assim como os jovens da Ucrânia. A vossa presença aqui encarna o nosso desejo de lembrar todos aqueles que são afetados pela guerra e pela opressão neste nosso mundo tão atribulado. Pensamos também nas pessoas que lutam por justiça sob regimes autoritários. Gostaria de pedir ao Joël, de Belém, e à Anna, de Kiev, que nos dirigissem algumas palavras:
Joël, de Belém:
"Senhor Deus, somos filhos e filhas da Terra Santa, hoje marcada pela guerra, pela injustiça e pela destruição. No entanto, foi essa mesma Terra que visitaste no nascimento, vida, morte e ressurreição do teu Filho Jesus – e ainda hoje caminhas fielmente connosco, dando-nos esperança de muitas formas, uma esperança que sentimos quando visitamos a Basílica da Natividade...
Estamos gratos pelas nossas famílias e amigos, que nos apoiam, escutam, protegem, encorajam e ajudam a continuar o nosso caminho nesta vida. Eles dão-nos esperança e força.
Estamos gratos pela arte, pela música e, em especial, pelo nosso coro, que nos dá um espaço para nos reunirmos e expressarmos, com voz unida, tanto a dor como o louvor através da música; sabemos que nos ouves. Isto dá-nos esperança e força.
Estamos gratos pela tua Palavra viva no Evangelho, em especial pelas Bem-aventuranças, que nos recordam que, apesar das dificuldades do presente, prometes dias melhores; prometes o Reino de Deus. Isto dá-nos esperança e força.
Estamos gratos pelos corações e mentes que usamos para servir os outros sem esperar retorno, construindo uma comunidade de esperança e força que nos ajuda a perseverar."
Anna, da Ucrânia:
"Chamo-me Anna e sou da Ucrânia. Estou grata aos irmãos por me darem a oportunidade de dizer algumas palavras esta noite.
Estive em Taizé pela última vez há três anos, também durante a Semana Pascal. Foi apenas alguns meses após a invasão russa em larga escala da Ucrânia. Essa semana tornou-se um marco importante na construção do meu alicerce de resiliência e esperança, a par de muitos outros dons inesperados que recebi.
Hoje, Taizé é, para mim, um lugar onde podemos oferecer uns aos outros o co***lo e a esperança de que todos precisamos, especialmente nos momentos difíceis."
Os jovens palestinianos e ucranianos levaram a cruz na sexta-feira e, esta noite, levaram o ícone onde vemos Jesus a puxar Adão, o primeiro homem, em direção à luz. Amanhã, levareis o círio pascal no início da Eucaristia. Deste modo, ajudais-nos a rezar por aquilo que Jesus nos promete com o seu regresso à vida: o sofrimento e a morte nunca terão a última palavra.
Não podemos separar a Cruz da Ressurreição. Mas muitas vezes encontramo-nos como povo do Sábado Santo. Ficamos presos num tempo de espera. Conhecemos talvez o nosso próprio sofrimento, mas também o sofrimento das nossas sociedades, os diferentes contextos de guerra no mundo e a criação ferida que partilhamos. Há tantas pessoas à nossa volta a passar por experiências devastadoras.
Ansiamos por uma cura, por paz. Ansiamos por um verdadeiro regresso à vida. O Sábado Santo diz-nos que, apesar do aparente silêncio, Deus está de algum modo a agir e a trazer esse regresso à vida.
Amanhã de manhã, reunir-nos-emos para escutar leituras da primeira parte da Bíblia, que nos falam do poder criador do amor de Deus, do seu desejo de libertar o seu povo, dando origem a uma esperança para além de toda a esperança. Ao escutá-las, que essas palavras nos abram o coração a essa mesma esperança.
Nem todas as leituras são fáceis de compreender, mas dizem-nos que existe um lugar melhor, um mundo mais belo, que a liberdade é possível. Mostram-nos também que esse caminho passa pelo deserto.
Todos precisamos de ser libertos de uma forma ou de outra – seja daquilo que nos aprisiona interiormente, seja das dificuldades nas nossas sociedades, ou de situações de aflição em que a vida, a liberdade ou a liberdade do nosso país estão em risco.
Toca-me o exemplo do profeta Jeremias. Quando estava preso e Jerusalém ameaçada, comprou um campo naquela cidade. Para mim, gestos proféticos como esse demonstram a nossa fé na fidelidade de Deus. Algo dentro dele dizia-lhe que um futuro era possível. A nossa fé na Ressurreição diz-nos que uma vida nova é possível, mesmo onde antes não havia sinal de vida.
O que significa isto, concretamente? Que gestos somos chamados a fazer como sinal de confiança num futuro de paz? Que passos podemos dar, em oração, para recordar essas diferentes situações onde, neste momento, só parece haver morte? Quem são as pessoas que sofrem e que vivem perto de nós, às quais poderíamos estender uma mão amiga?
Será que isso implica sair da nossa zona de conforto para estar onde ninguém quer ir? Ou talvez estar com pessoas diferentes de nós? Ou manter contacto com pessoas que vivem em contexto de guerra? Estas são as perguntas que hoje me coloco. Talvez as possa partilhar convosco.
E pode não haver soluções imediatas que possamos oferecer, mas, pela nossa presença, algo inesperado acontece. Ao longo do último ano, os nossos irmãos visitaram regularmente jovens na Ucrânia. Também foram feitas visitas ao Líbano, a Jerusalém e à Cisjordânia. E essas visitas continuarão.
Durante tais visitas, dá-se uma experiência transformadora de ambos os lados, pois as pessoas percebem que não foram esquecidas e nós descobrimos a coragem que habita nelas. A nossa confiança é renovada e algo volta a viver em nós.
Uma última nota: de 28 de dezembro a 1 de janeiro, esperamos poder contar convosco no nosso encontro europeu anual de jovens. Depois de estarmos em Talin no início deste ano, o próximo encontro será em Paris e na região envolvente da Île-de-France.
Fomos convidados para este encontro pelos bispos da província, incluindo o arcebispo de Paris, bem como por líderes protestantes e ortodoxos. Em Talin, o arcebispo disse-nos que a catedral de Notre-Dame acolher-nos-á de portas abertas, para que possamos encontrar Cristo, que nos espera. Este encontro será também um sinal do nosso desejo de paz e fraternidade na família humana – sim, de uma esperança para além de toda a esperança.
Agora continuaremos com a oração, mas antes de voltarmos a cantar, sussurremos à pessoa ao nosso lado: “Cristo ressuscitou!” – e ela poderá responder: “Ressuscitou verdadeiramente!”
E, a partir de amanhã e nas semanas que se seguem, saudai os vossos irmãos e irmãs na fé com esta saudação. Ousai acreditar no sinal do túmulo vazio. Então, a paz e a alegria de Cristo Ressuscitado estarão com todos nós!