11/05/2026
A noite do homem
no dia, na hora de Deus!
Quando o mundo adormece e o vento se aquieta,
Quando a última lâmpada vacila, pobre e discreta,
E o rumor das cidades desce ao fundo da terra,
É então que o Eterno visita o homem e o encerra.
Não vem no estrondo súbito que despedaça os montes,
Nem no tropel dos reis, nem no ouro dos horizontes;
Mas no silêncio antigo em que a alma, enfim, repousa,
Como a brisa de Horebe entre as pedras e a rosa.
Assim dormiu Jacó sobre a nudez da estrada,
Tendo por travesseiro uma pedra abandonada;
E viu subir aos céus, pela escada infinita,
Os anjos do Senhor em procissão bendita.
A noite era deserto, exílio, pó, cansaço;
Mas Deus pousou estrelas sobre aquele espaço.
E o homem que fugia, ferido e peregrino,
Despertou contemplando a claridade do destino.
Também Samuel, menino, entre véus e cortinas,
Dormia junto à arca das palavras divinas;
E ouviu na madrugada uma voz terna e pura
Chamando-o pelo nome no centro da clausura.
Três vezes levantou-se, pensando ser humano
O chamado que vinha tão manso e tão arcano;
Até que compreendeu, com temor e doçura:
O Senhor atravessava a noite escura.
E José, casto e justo, nas sombras do descanso,
Recebeu do invisível o conselho manso:
“Não temas receber a que traz no ventre a Vida.”
E o sono fez-se templo, e a noite, esclarecida.
Quantas vezes Elias, cansado sob o medo,
Achou no escuro abrigo e no deserto enredo;
E entre o sono e o pão trazido pelas mãos celestes,
Ouviu Deus costurando esperança às suas vestes.
Ó mistério das horas sem voz e sem ruído,
Quando o céu se aproxima do coração ferido!
O homem fecha os olhos à sombra passageira,
E Deus acende eternos clarões na noite inteira.
Porque há revelações que o dia não comporta,
Verdades que somente a madrugada suporta;
Há lágrimas que brilham melhor na solidão,
E encontros que florescem no íntimo do chão.
Feliz aquele que, no silêncio profundo,
Ainda sabe escutar o Criador do mundo;
Pois nunca dorme só quem busca a face eterna:
Deus caminha na noite com sua lâmpada terna.