01/05/2025
Estudos De Umbanda OFC
Pai João da Angola 🖤
Dizem que a alma de um ancião guarda mais do que lembranças, ela guarda os segredos do mundo.
Pai João nasceu em solo africano, nas matas densas de Cabinda, quando ainda se chamava N’Golo. Era um homem forte, de olhos que miravam longe, e mãos que conheciam os segredos das folhas e raízes. Curandeiro respeitado entre os seus, vivia em paz com a natureza, até o dia em que o barulho dos grilhões e os gritos dos caçadores de gente interromperam sua jornada.
Foi acorrentado e jogado nos porões escuros de um navio negreiro, onde o ar era feito de fungo e medo. Durante a travessia, muitos dos seus companheiros morreram, mas N’Golo, mesmo em dor, murmurava preces em sua língua ancestral. A fé foi seu único alimento.
Ao chegar ao Brasil, virou João. Pai João, só muitos anos depois.
Foi vendido a uma fazenda de cana-de-açúcar na Bahia. Lá, conheceu a brutalidade do sinhô, o chicote do feitor, e a dor da fome, pois o prato que lhe davam era quase sempre angu ralo com farinha e, quando muito, um pedaço de carne dura. Dormia no chão de terra batida da senzala, ao lado de outros irmãos e irmãs, todos marcados pelo ferro e pela ausência de esperança.
Mas João era diferente.
Com o tempo, a feitoria notou que, ao cair da noite, muitos iam até ele para receber chá, oração ou só um silêncio cheio de co***lo. Começaram a chamá-lo de “velho feiticeiro” às escondidas, pois João sabia curar, sabia escutar, e sabia calar. Nunca gritou. Nunca rogou praga. Mas seus olhos falavam de um mundo que estava por vir.
Ele cuidava de todos, até mesmo de um menino branco, filho do sinhô, que certa vez caiu doente. Foi Pai João quem colheu folhas de arruda, macerou com mel de engenho, e rezou três noites seguidas. O menino sarou. E por isso, Pai João ganhou o direito de plantar uma horta pequena atrás da senzala. Ali, crescia mais do que plantas, ali florescia a resistência.
Mas o tempo chegou. Pai João envelheceu. O reumatismo lhe agarrou as juntas, a tosse lhe cortava as madrugadas, e um dia ele apenas deitou e não acordou. Morreu como viveu: em silêncio.
Contam que, na hora de sua morte, o galo não cantou e a noite ficou mais fria. O feitor, que não gostava de negros mortos dentro da senzala, mandou que o enterrassem no mato, sem reza, sem nome, sem cruz.
Mas a mata sabia o nome dele.
Hoje, Pai João de Angola volta em ponto de cigarro de palha e café coado na cuia de barro. Vem devagar, curvado, com um lenço amarrado na cabeça e os olhos marejados de lembrança. Ele não amaldiçoa, ele ensina. Ele não julga, ele acolhe.
E quando fala, suas palavras curam feridas que nem a alma sabia que carregava.
Texto: Maria Padilha /
Foto: Desconhecida.