29/04/2019
"Nos derradeiros capítulos que da 'Subida' nos restam, o Doutor místico, no afã de desapegar a vontade de todo bem criado, ainda que espiritual, traça quadros por vezes humorísticos da devoção de certas boas almas, mais preocupadas com as exterioridades, o aspecto sensível da religião, do que com o mesmo Deus, e que cuidam ser mui piedosas quando na verdade exercitam apenas uma tendência natural, que se aplica às coisas religiosas, como poderia fartar-se igualmente com objetos profanos.
Eis aqui, por exemplo, o devoto de estátuas: preocupa-se com a matéria de que são feitas, a forma, a dimensão, o valor, a colocação que mais agrada; atavia algumas delas com vestes de boneca; confia mais numa do que noutra; toca as raias da idolatria; se porventura lhe tiram a imagem, perturba-se- lhe toda devoção.
Mesmo apego infantil em relação a rosários; querem-nos de tal dimensão e não de outra, de tal cor determinada, preferem um metal a outro, es-colhem tal ou tal ornamento, etc., como se Deus ouvisse mais favoràvelmente a oração feita com este rosário de' preferência àquele.
Outros têm a mania das romarias; nelas procuram aliás mais o recreio que a devoção, e, em virtude do grande concurso de povo, voltam menos recolhidos do que quando se foram.
Ainda mais: “Certas pessoas não se fartam de acrescentar imagens sobre imagens em seu oratório, comprazendo-se na ordem e harmonia com que dispõem tudo, a fim de qúe fique o mesmo oratório bem adornado e atraente. Quanto a Deus não pensam em revéíenciá-lo mais; muito ao contrário, pois o gosto com que se comprazem naquelas figuras pintadas, desviam-nos da realidade viva”.
(Itinerário místico de S. João da Cruz, Pe. Teixeira Leite Penido)