18/02/2026
O Pampa batuqueiro que a Sapucaí não viu
A Portela e o Raso Espectáculo do Axé Gaúcho
O Carnaval do Rio de Janeiro, em 2026, propôs-se a um desafio necessário: iluminar o "Sul Negro". Com o enredo focado na figura mística do Príncipe Custódio, a Portela tinha em mãos a oportunidade de realizar não apenas um desfile, mas um reparo histórico e teológico. Contudo, para os detentores do saber litúrgico e para a comunidade religiosa do Rio Grande do Sul — estado que detém, proporcionalmente, a maior população de adeptos de matriz africana do país segundo o Censo — o que se viu foi um espetáculo de estética impecável, mas de profundidade minguante.
A Superficialidade do Fundamento
O erro primordial da azul e branco residiu na falta de densidade litúrgica. O Batuque gaúcho é uma construção civilizatória única, uma amálgama de nações (Ijexá, Jeje, Oyó, Cabinda) que sobreviveu à tentativa de branqueamento do sul do país. Ao tratar o Príncipe Custódio e o assentamento do Bará do Mercado Público de forma quase alegórica, a escola pecou pelo "turismo cultural".
Para um religioso, é doloroso ver elementos sagrados do Batuque — que exigem preceito, toque específico e uma cosmogonia própria — serem reduzidos a adereços de fácil digestão visual. A história de Custódio não é apenas a de um aristocrata exilado; é a história da estruturação de uma fé que sustenta milhares de terreiros. O desfile parece ter esquecido que, no Rio Grande do Sul, o axé não é apenas "festa", é a base da resistência de um povo que é líder em números, mas ainda marginalizado em narrativa.
O Despreparo sob os Refletores
Se a escola falhou na pesquisa de campo e na representação fiel dos detalhes que tornam o Batuque distinto do Candomblé e da Umbanda fluminense, a transmissão oficial da Rede Globo foi o ápice do desrespeito intelectual. É inadmissível que comentaristas, em um evento de alcance global, demonstrem tamanho analfabetismo cultural.
Enquanto a avenida tentava — ainda que de forma rasa — evocar a ancestralidade de um Príncipe de Ajudá e a força do povo de terreiro, os microfones da emissora operavam na base do senso comum. Comentários vazios, comparações descabidas com "barzinhos" e uma incapacidade crônica de distinguir os orixás do pampa revelaram um preparo nulo. Onde deveria haver um comentário sobre a importância do Bará na encruzilhada democrática de Porto Alegre, houve um silêncio ignorante ou, pior, a trivialização do sagrado.
Conclusão
A Portela de 2026 estava bonita para os olhos do espectador comum, mas estava vazia para o coração do religioso. Para o Babalorixá e escritor que escreve, e vive o dia a dia do terreiro, o desfile foi um lembrete de que a cultura negra gaúcha ainda é vista pelo centro do país como algo "exótico" e não como uma potência religiosa estruturada que de fato é e impulsiona cada vez mais a economia e fé dentro e fora do país.
O Rio Grande do Sul é o estado do axé, do tambor (ilú) Reduzir isso a uma estética de desfile sem o devido rigor histórico é, no mínimo, uma oportunidade perdida; no máximo, um desrespeito àqueles que, há mais de um século, mantêm acesa a chama de Custódio e os demais sacerdotes que dedicaram uma vida as tradições e fundamentos deixados pelos nossa Ancestralidade. Em reticências, quem sabe em uma próxima oportunidade o maior espetáculo da terra 🌎 possa nos representar, porque desta vez infelizmente não conseguiram....
Texto
Pai Leandro Nação Cabinda
Babalorixá & escritor
51992675465