28/07/2026
*A DIFÍCIL ARTE DE PERMANECER*
Há algo acontecendo no campo evangélico progressista que merece nossa atenção.
Nos últimos anos nasceram comunidades, coletivos e novas experiências eclesiais que acolheram pessoas feridas pelo fundamentalismo, responderam à instrumentalização política da fé e anunciaram que era possível seguir Jesus sem abrir mão da inteligência, da compaixão, da justiça social, da democracia e da dignidade humana.
Isso é uma boa notícia.
Mas há outra realidade, menos celebrada.
Muitas dessas experiências não conseguem permanecer. Algumas encerram suas atividades poucos anos depois de nascerem. Outras sobrevivem apenas como redes de amizade ou plataformas digitais, sem conseguir sustentar uma vida comunitária consistente.
As razões são conhecidas. Vivemos uma cultura marcada pelo cansaço, pela mobilidade constante, pela precarização da vida e pelo individualismo. O capitalismo transformou quase tudo em consumo, inclusive a religião. Além disso, construir uma comunidade progressista em um ambiente majoritariamente conservador exige enorme desgaste humano e financeiro.
Tudo isso é verdadeiro.
Mas talvez exista uma pergunta mais profunda.
Será que aprendemos a construir comunidades?
Durante muito tempo, nossa principal tarefa foi desconstruir. Era preciso denunciar o abuso espiritual, questionar interpretações violentas das Escrituras, enfrentar o racismo, o patriarcado, a LGBTfobia e o autoritarismo religioso. Essa tarefa continua indispensável.
Entretanto, nenhuma casa permanece de pé apenas porque aprendemos a demolir seus muros comprometidos.
Depois da crítica vem uma tarefa mais lenta.
Construir.
E construir comunidades talvez seja uma das artes mais difíceis do Evangelho.
Dietrich Bonhoeffer escreveu que a comunidade cristã não é um ideal produzido por nós, mas uma realidade criada por Deus, da qual participamos pela graça. Isso significa que uma igreja não permanece apenas pela qualidade de suas ideias. Ela permanece porque organiza sua vida em torno de uma Presença.
Talvez seja justamente aqui que esteja um dos nossos maiores desafios.
O primeiro risco: perder o Mistério
Existe uma diferença entre uma igreja comprometida com a justiça e uma igreja cuja fonte continua sendo Deus.
Naturalmente, seguir Jesus implica enfrentar todas as formas de opressão. Não existe Evangelho sem justiça, nem espiritualidade cristã indiferente ao sofrimento humano.
Mas também não existe igreja quando Deus deixa de ser o centro.
Henri Nouwen lembrava que toda ação cristã nasce da contemplação. A compaixão não é apenas um sentimento nobre. Ela brota da experiência de permanecer na presença amorosa de Deus.
Quando perdemos essa fonte, algo começa a adoecer silenciosamente. A oração torna-se acessória. A liturgia perde sua força. A Ceia deixa de ser encontro para tornar-se apenas símbolo. O silêncio desaparece. O assombro desaparece. A adoração desaparece.
Pouco a pouco, a igreja transforma-se em um excelente coletivo de ativismo social.
Mas deixa de ser um lugar onde as pessoas encontram o Mistério.
A justiça precisa de uma fonte espiritual. Caso contrário, transforma-se em exaustão. Ninguém sustenta uma vida inteira apenas pela indignação. Somos sustentados pelo encantamento.
O segundo risco: esquecer que o Reino também precisa de uma mesa
Nossa geração recuperou uma verdade importante: a igreja não é um edifício, mas um povo.
Entretanto, às vezes transformamos essa verdade em outra afirmação que o Novo Testamento nunca fez: imaginamos que qualquer encontro ocasional seja suficiente para produzir comunhão.
Não é.
O livro de Atos descreve uma comunidade que perseverava na comunhão, no partir do pão e nas orações. Havia ritmo, memória, repetição e convivência. Os vínculos não eram produzidos apenas pela afinidade de ideias, mas pela experiência compartilhada da vida.
Byung-Chul Han observa que nossa época sofre uma profunda erosão dos rituais. Perdemos práticas que organizavam o tempo e criavam pertencimento. Tudo se tornou provisório, imediato e descartável.
Talvez isso também tenha alcançado nossas igrejas.
Temos dificuldade de assumir compromissos permanentes. Desconfiamos de qualquer forma de organização. Confundimos liberdade com ausência de responsabilidade.
Charles Vogl demonstra que comunidades duradouras, ao longo da história, cultivam práticas comuns: ritos de acolhimento, histórias compartilhadas, símbolos, encontros regulares e caminhos de amadurecimento. O pertencimento nunca acontece por acaso. Ele é cultivado.
Comunhão não é espontaneidade permanente.
Comunhão é perseverança.
O terceiro risco: acreditar que o Espírito substitui o cultivo
Existe uma espiritualidade sutil que imagina que planejar, cuidar dos recursos, formar novas lideranças e pensar o futuro seria sinal de pouca fé.
Mas o próprio Evangelho oferece outra imagem.
Jesus fala de sementes, videiras, poda, fermento e colheita. Todas essas metáforas apontam para a mesma realidade: nada floresce sem cultivo.
Jean Vanier costumava lembrar que comunidades morrem quando deixam de cuidar das pequenas fidelidades. A mesa preparada. A visita ao enfermo. A acolhida de quem chega. A formação de novas lideranças. O cuidado com os recursos. A celebração das pequenas vitórias.
A sustentabilidade não é apenas uma questão administrativa.
Ela é uma prática espiritual.
Comunidades que não cultivam seu futuro acabam dependendo da energia de poucas pessoas. Quando essas pessoas adoecem ou se cansam, toda a experiência comunitária se fragiliza.
O Reino de Deus nunca dependeu de heróis.
Sempre dependeu de comunidades.
A vocação de permanecer
Vivemos uma época fascinada pelos começos. Gostamos de inaugurar projetos, lançar manifestos e criar novas iniciativas.
O Evangelho, porém, dedica muito mais atenção aos que permanecem.
Jesus não diz apenas: "Venham."
Ele diz: "Permaneçam em mim."
Talvez essa seja a palavra profética para o movimento evangélico progressista.
Não precisamos apenas fundar novas comunidades.
Precisamos aprender a permanecer nelas.
Precisamos cultivar uma espiritualidade suficientemente profunda para que Deus continue sendo o centro da nossa caminhada.
Precisamos redescobrir a beleza da oração, da liturgia, da Ceia, da amizade espiritual, da mesa compartilhada e dos encontros regulares.
Precisamos desenvolver uma cultura de cuidado, formação, sustentabilidade e transmissão da esperança.
Porque comunidades não morrem apenas por perseguição.
Às vezes morrem por exaustão.
Às vezes morrem por improvisação.
Às vezes morrem porque perderam a capacidade de permanecer.
O desafio da próxima década talvez não seja tornar o cristianismo progressista mais relevante.
Talvez seja torná-lo mais enraizado.
Mais contemplativo.
Mais comunitário.
Mais paciente.
Porque o futuro da Igreja nunca pertenceu apenas aos que começaram bem.
Pertence àqueles que, pela graça de Deus, aprenderam a permanecer.
pela redenção baixada,
Vlad…
Enviado pela Priscila Ladeira
CoFundadora da CpV