25/07/2017
Quem não vai pelo amor...
W.Torquette
A charrete seguia rápida pela estrada esburacada em direção à fazenda, conduzida pelo negro Fortuna, empregado do coronel Tobias. Voltavam da cidade, aonde o Tobias ia todas as quintas-feiras farrear com os amigos, enquanto Fortuna ficava dormindo na charrete. Fortuna, que se chamava Geraldo, ganhou esse apelido jocoso, depois de achar uma pedra valiosa, que o coronel confiscou por ter sido encontrada em suas terras e deu como recompensa a Fortuna um pedaço de terra, que ele cultivava com a família e os filhos, levando a produção para vender na feira livre da cidade. Apesar dos solavancos, Tobias dormia a sono solto sob efeito do álcool que ingerira,
Na boleia, Fortuna cochilava, vez por outra, sem se preocupar com os cavalos que já conheciam a estrada de cor e salteado.
De repente uma roda se solta do eixo e a charrete tomba fragorosamente numa valeta.
Fortuna foi arremessado longe caindo desfalecido.
Tobias ficou preso nos destroços do veículo, mas não perdeu os sentidos.
Sem poder se soltar, o coronel chamou por Fortuna e não recebendo resposta do chamado, começou a rezar, pois apesar de boêmio era muito religioso. Pediu à Deus, a Nossa Senhora e a todos os santos que conhecia para que o socorro viesse.
Pelo adiantamento das horas sabia que a estrada estava deserta.
Depois de muita súplica, Tobias vê aproximarem-se quatro homens que ele não conhecia levantarem a charrete libertando-o e sem esperar agradecimentos sumiram na escuridão.
O coronel chamou por Fortuna e sem receber resposta, com dificuldade saiu coxeando e avistou na valeta o corpo de seu fiel escudeiro. Vendo-o imóvel e percebendo que ele estava vivo e frio, abraçou-se ao negro para aquecê-lo e acabou caindo no sono. Acordou com o rumor de alguns empregados da fazenda que se aproximavam e se afasta de Fortuna.
Socorridos foram encaminhados ao hospital para serem medicados, pois apesar do acidente não tiveram ferimentos graves. Medicados, voltaram para a fazenda.
Depois desse acidente o coronel Tobias abandonou as noitadas e deu um trabalho mais leve para o velho Fortuna.
Uma noite, passei pela fazenda para cumprir mais uma missão e vi satisfeito o coronel e Fortuna, juntos com familiares e alguns empregados rezando o terço em cumprimento da novena feita em agradecimento por estarem vivos.
Até hoje Tobias e Fortuna não sabem explicar como foram salvos do acidente.
Se Fortuna estava desmaiado, como tirou o coronel das ferragens e como o negro não morreu de frio naquela noite.
Também, nada disso interessa mais.
Quem não vai pelo amor vai pela dor.