13/04/2024
Estudo dos fluidos feito em 1873
Pelo Espírito do Dr. Vigneau1
O que é fluido?
Antes de começar o estudo sobre os fluidos de que falais absolutamente como se fôsseis seguir um curso de matemáticas, devo advertir-vos que esse estudo é complicado, difícil, árido; devo prevenir-vos que não iremos muito longe nesse país ainda inexplorado. Comecemos no entanto, pois esses sombrios arcanos são destinados a ser esclarecidos pela ciência, e avancemos tão longe quanto possível nesse domínio do espírito.
O que é o fluido? Falando de maneira geral, é esse oceano que contém o universo inteiro e no qual os mundos absorvem a vida, física e moral.
Pelo lado físico, é esse princípio intocável, invisível, essencial à vida de cada criatura; é o éter no qual se balançam os mundos e que os contém; é a vida universal.
Pelo lado moral, é o sentimento, o pensamento e a infinidade que ela abarca; é o azul, o ideal no qual se movem as criaturas espirituais, eu o repito, é o oceano infinito que contém a vida por tudo.
Os fluidos materiais e os fluidos espirituais
Dividirei esse estudo em duas partes: os fluidos materiais e os fluidos espirituais; e, para ser melhor compreendido, vou servir-me de uma comparação. Comparação não é razão, ireis gritar em seguida? É verdade, e mais vos valeria uma boa razão do que uma tola e bela comparação, mas não sois crianças para nós e não aprendeis bem mais rapidamente com um alfabeto ilustrado? Portanto, às crianças as imagens! Eu vos tomo pela mão e vos levo comigo às margens do Mediterrâneo. O céu é azul, puro, sem nuvem; o sol, vida, luz e calor mergulha seus raios nas ondas. Esse sol que é o cume, o objetivo, a vida, eu o comparo a Deus dominando os Universos. Vejamos!
Ao pássaro, o corpo delicado, aéreo; o pássaro, levado por suas rápidas asas, desde a minúscula andorinha até o gigantesco albatroz, vai e vem, sobe e desce da onda ao azul; eis os Espíritos elevando-se mais ou menos alto, levados pelas asas espirituais mais ou menos ligeiras conforme seu grau de adiantamento. Eis a vida, no que chamo a parte espiritual dos fluidos.
Vejamos ainda, pois não terminamos. Nas ondas que estão na superfície vemos penetrar abundantemente os raios benfazejos, a luz, o calor. Essas ondas são brilhantes, iluminadas, transparentes. Pouco abaixo são mornas, mas ainda iluminadas; mais abaixo elas são frias; nas profundezas são totalmente obscuras; no fundo se agitam seres rastejantes que vivem sem luz, sem calor. Eis a vida na parte material dos fluidos.
Ao Espírito avançado, os fluidos espirituais, como ao pássaro o espaço no qual ele se eleva mais ou menos alto. Ao pobre atrasado, que ainda não sentiu vibrar as cordas ideais das altas aspirações, os fluidos materiais, como ao molusco o fundo do mar.
Estabelecei uma escala de vasta proporção e encontrareis, pelo universo inteiro, sempre a mesma marcha ascendente da matéria ao fluido e do fluido ao espírito.
Assim como o pássaro é conformado para viver no espaço, o habitante dos mundos superiores é dotado de uma organização que lhe permite a vida nos fluidos mais ou menos espiritualizados.
Desde que é preciso sempre fazer a aplicação do que professamos, creio poder dizer-vos que, sem incluir a Terra em meu oceano fluídico no nível dos pássaros, também não a vejo no nível dos moluscos; a César o que é de César.
Denomino então fluido Universal esse princípio de vida física e moral que envolve a criação toda inteira.
Fluido material e fluido espiritual
Eu disse, outro dia, fluido universal contendo a vida, hoje acrescento: fonte de todas as coisas.
O fluido espiritual, já o compreendemos, penetra o fluido material como o ar penetra a água, e, meus pobres amigos, tudo é sempre relativo, porque o que chamais fluido espiritual, os seres mais puros que vós o chamam material; assim, no curso de nosso estudo, não nos extraviemos em busca de uma expressão, evitemos marchar no pico das coisas, lembremo-nos que a letra mata, e busquemos o espírito.
Eis, pois, minha maneira de ver; é o resultado dos estudos que me foi possível fazer durante minha vida de espírito; não vos digo que façais dele um dogma, ao contrário, recomendo-vos buscar em vós e em torno de vós, refletir, estudar e não crer como eu senão quando estiverdes convencidos de que tenho razão.
Não vejo no fluido espiritual apropriado à Terra senão o desprendimento, a eterização do fluido material; e no fluido material, a transformação da própria matéria. Do barro mais compacto, subindo degrau a degrau se chega ao ar mais puro; do mesmo modo, partindo do fluido de tal modo espesso, que se poderia chamar matéria, chegaremos ao fluido tão puro que se pode chamar espírito.2
Para a Terra, o fluido material e o fluido espiritual são absolutamente necessários um ao outro e indispensáveis um e o outro para a manutenção da lei de harmonia. Eles estão de tal modo amalgamados, se posso me servir dessa expressão, que não se poderia estabelecer um limite exato para o fim de um e o começo do outro, pois não é aqui que se pode encontrar só a matéria ou só o espírito.
Matéria, espírito, polo negativo e polo positivo, marchando para o mesmo objetivo e cujos choques produzem a centelha.3
Chegamos, meus amigos, a perguntar-nos: O que é a matéria? A primeira página da Bíblia nos responderá: 'E Deus fez a matéria do nada'! Nada! O que é esse nada?
As inteligências veladas que escreveram essas palavras fizeram uma confissão de ignorância, pois o nada não existe. Para vós e para nós esse nada é tudo, porque é o fluido universal, esse princípio de criação formado pela divindade. Esse nada, essa coisa invisível, impalpável, da qual sai um mundo, é para nós apenas o fluido condensado.
Materializando esse fluido por um ato de sua vontade, a mão poderosa do Criador estabeleceu por lei, no mesmo instante, a lei do progresso. Lei e direito, pois a inteligência infinita, a vontade perfeita, a vida eterna, ordena que tudo viva, que tudo progrida, que tudo se aperfeiçoe e se eleve para seu princípio, para sua fonte, para Ela enfim. Matéria, instinto, inteligência, espírito, tudo remonta e volta ao Criador, um termina a sua ascensão, outro a começa, eis a diferença; uma certa quantidade de séculos os separam, é tudo.
Qual é então o pensamento que pode colocar no coração da criatura mais amor pelo Criador do que a contemplação dessa vida de utilidade e de trabalho iniciada pela molécula para chegar à inteligência?4
O que há de mais infinitamente justo e bom do que esse Deus que ama toda sua criação do mesmo amor, e não criando senão para a maior felicidade da criatura qualquer que ela seja?
O que pode conduzir o homem à felicidade pelo amor senão a crença nessa confraternidade universal?
A matéria s'intelligente
Objetais que, morrendo os seres orgânicos, a matéria f**a inerte e retorna à matéria? Erro, porque não podendo acompanhar o trabalho das transformações que se operam sem cessar, não vedes que a cada uma delas o ser se despoja um pouco da materialidade e ganha do lado fluídico. Como prova em apoio, dir-vos-ei que do cadáver humano se desprende mais matéria fluídica do que se desprende do cadáver animal. Menos matéria mais fluido, mais inteligência ou mais instinto; é a lei do progresso. Para mim e para muitos Espíritos que buscaram como eu, a matéria s'intelligente (se inteligencia), a matéria sobe, fluido inicialmente, espírito em seguida.5
É preciso a matéria, dizeis ainda, pois quem duvida da necessidade das formas pelas quais toda criação deve passar? Mas é sempre a mesma matéria, ou antes não é ela incessantemente renovada, impulsionada pela imutável lei do progresso e da Criação incessante?
Vede, amigos, como esse assunto é vasto e nos arrasta bem rapidamente para fora dos limites que ainda nos são impostos, mas que ultrapassaremos quando, pelo trabalho, conquistarmos nossa inteira liberdade.
Infelizmente ainda não é na Terra, morada de espera perpétua e de dúvida constante, que chegaremos a compreender a harmonia indescritível da Criação, essa vida universal que emana do princípio mesmo do amor, essa união íntima do espírito e da matéria, essa renovação, essa transformação de cada instante, essa eterna fecundação resultante da vontade do Criador.
No entanto, queria dar-vos uma ideia do que cada dia vos ouço nominar, sem que saibais bem ao justo o que vos ocupa. Dei-vos uma noção geral do que se chama fluido, resta agora fazer-vos compreender a melhor maneira de aplicá-lo.
Magnetismo médico e Mediunidade curadora
Todos os dias vejo na terra fazerem-se ensaios que quase sempre são infrutíferos apenas porque não se sabe empregar as forças que se possui e que podem tornar-se nocivas quando são mal dirigidas; quero falar do magnetismo médico e da mediunidade curadora. Na época em que viveis, é a melhor maneira e ainda quase a única de fazer a aplicação dos fluidos. Ocupemo-nos, pois, dela e vejamos o que é preciso para fazer melhor, para bem fazer e para chegar um dia a fazer perfeitamente.
Primeiramente, o que é o magnetismo médico e o que é a mediunidade curadora?
O magnetismo médico é a faculdade de agir sobre as forças ocultas que nos rodeiam e que designais sob o nome de fluidos; é a possibilidade de governar esses fluidos e de apropriá-los conforme o caso ou a doença.
A mediunidade curadora é o meio material do qual se servem os Espíritos quando querem dirigir sobre um encarnado os fluidos dotados de propriedades curativas.
É a mediunidade curadora, que vos vejo buscar cada vez mais, que tratarei de vos explicar e é aos médiuns curadores que vou dirigir-me.
Inicialmente quero explicar-vos, tão bem quanto puder, como nós nos servimos de um médium e como operamos, com o seu concurso, a manipulação dos fluidos.
Nossa primeira operação é dispor o médium conforme o ato que queremos realizar de concerto com ele. Para isso, nós o envolvemos de fluido vital para agir sobre sua natureza física e de fluido espiritual para agir sobre sua natureza intelectual. Para me fazer melhor compreendido, vou ainda me servir de uma comparação.6
Quando abordais alguém e quereis agradar-lhe, atraí-lo, envolveis vosso olhar de fluidos espirituais que denominamos, se bem o quiseres, amabilidade, afabilidade, bondade; se é o efeito contrário que quereis produzir, envolvê-lo-eis necessariamente com fluidos opostos aos que acabei de citar, por conseguinte: severidade, frieza, às vezes dureza. Esses fluidos, puramente espirituais em si mesmos, devem sofrer uma materialização a fim de comunicar ao olhar as expressões diferentes que devem ser expostas e ressentidas no exterior. Pois bem, é assim que nós preparamos o médium que deve servir-nos, e, conforme o organismo, junto de alguns nós aportamos fluidos brandos, calmantes; junto de outros aportamos fluidos vivos, excitantes. O médium sofre essas diferentes influências mais ou menos inconscientemente, do mesmo modo que não percebeis o que se passa em vosso rosto ao refletir vossos pensamentos e sentimentos.
A segunda operação é o que chamo a humanização, a materialização, se quiseres, dos fluidos que acumulamos inicialmente em torno do médium, servindo-nos dele como de um alambique, que saturamos até que estejam bastante materializados para agir sobre a matéria; depois, nós os atraímos novamente fazendo-os passar pelo cérebro onde lhe comunicamos a parte espiritual que lhe é indispensável para ser ef**az e que é proporcionada ao adiantamento do doente. Obtemos essa combinação por um ato de vontade que pode se chamar prece e que tem por resultado reunir aos fluidos materializados e tornados curativos, uma parte dos fluidos moralizantes, absolutamente necessários, eu o repito, à sua eficácia.
Quando tivermos comunicado aos fluidos sua parte espiritual, eles retornam ao corpo do médium pelo qual passam quando devem agir imediatamente e diretamente sobre o doente.
O médium pode, se não se serve de suas mãos como condutores, servir-se de sua vontade que faz então as funções de refletor, fazendo irradiar sobre o doente, em vez de luz e calor, alívio ou cura. É aí sobretudo que nós o ajudamos na direção dos fluidos, a fim de obter por eles o resultado desejado; é então que nos ocupamos do médium tanto quanto do doente, moderando ou excitando o primeiro, e ajudando o segundo a receber a ação magnética.
Sendo o médium curador quase sempre ignorante em matéria médica, somos nós os encarregados de comunicar aos fluidos que ele reenvia as propriedades curativas; não temos grande dificuldade com isso, pois temos apenas que combinar de uma certa forma para obter o remédio. No entanto, acrescento que preferimos nos servir de um médium que pode nos ajudar, não somente com sua vontade, mas com seu saber; isso torna o nosso trabalho mais fácil e acresce uma força a mais pela confiança do médium em si mesmo e pela unidade de pensamento que se estabelece entre o Espírito dirigente e ele. Ademais, um médico que oferecesse uma organização física maleável e própria à materialização dos fluidos seria um médium perfeito, e creio poder assegurar que numa proporção de cinquenta por cento, bastar-lhe-ia aproximar-se de seu doente para aliviá-lo ou curá-lo.
Após o trabalho de materialização que se operou no corpo do médium, nós sempre o ajudaremos fortalecendo e reparando o seu organismo.
Para toda manifestação os Espíritos precisam de um canal humano
Saiamos um pouco do assunto mesmo e tratemos de uma maneira geral o fato da mediunidade, que é sempre, na mediunidade curadora também, uma separação maior ou menor do perispírito do corpo.
Há três separações do perispírito, a separação simples, que é o sono, a separação extrema, que é a mediunidade, e a separação total, que é a morte.
Ocupemo-nos da segunda separação e digamos logo que a palavra extrema da qual me utilizei para expressar meu pensamento, mas que o faz de maneira insuficiente, não pode ser tomada no sentido absoluto, porque os efeitos produzidos são sempre diferentes e o extremo dessa separação não é sempre semelhante; longe disso, os limites são mais ou menos estendidos e nós poderíamos, abusando de nossas forças e ultrapassando esses limites, matar certos médiuns para obter, por uma separação muito grande para o seu organismo, efeitos, resultados, que não obteríamos facilmente com outros sem ir até a extremidade dos limites impostos.
Para toda manifestação nós precisamos de um canal humano, ou seja, de um médium; mas na mediunidade curadora a presença do médium perto do doente não é sempre absolutamente necessária, pois nos basta materializar certa quantidade de fluidos, que deixamos de reserva, para servir-nos deles quando quisermos, e os transportamos para onde julgarmos necessário. Explico-me: quando houvermos humanizado uma certa quantidade de fluidos, isto é, quando os tornamos próprios a impressionar a matéria e não iremos servir-nos deles imediatamente, habitualmente os deixamos no meio onde veio a realizar-se o trabalho, e dali nós os retomamos quando necessário, mesmo que seja no fundo desse oceano onde os fluidos são quase materiais por si mesmos. Isso explica porque a chegada de um médium muitas vezes basta para o alívio do doente; assim ocorre porque, como compreendeste, ele é quase sempre envolto em fluidos prontos a servir, e chega coberto dessa atmosfera fluídica da qual o doente sente imediatamente a influência.
Ação direta dos Espíritos nas curas
Existe um caso muito raro, do qual talvez eu não devesse falar-vos, pois apenas tocaria, mas o faço porque, fazendo-vos refletir, essas poucas palavras irão conduzir-vos mais tarde a outros estudos que poderão ter a sua utilidade. É quando, de maneira toda excepcional, nós agimos diretamente, isto é, sem nos servir de um médium. Esse caso, eu o repito, é excepcional, no entanto, eis como chegamos nós mesmos a materializar os fluidos: servimo-nos do nosso próprio perispírito que, no fluido universal, impregnamos de fluidos humanos, e deles nos servimos como o faríamos de um médium. Todavia, compreendereis sem dificuldade que esse trabalho é penoso para nós e que certas organizações espirituais não se prestariam a isso.
Mediunidade curadora
Após essa digressão, que não é completamente inútil para vossos projetos de estudo sobre os fluidos, eu retomo meu assunto.
A organização física ajuda muito no desenvolvimento da mediunidade curadora, que está em gérmen em todos os encarnados, pois ela é uma propriedade humana. Isso me leva naturalmente a falar-vos das qualidades físicas e das virtudes morais que devem facilitar e desenvolver essa mediunidade.
Um corpo esponjoso, se posso empregar essa expressão, será o mais apropriado à absorção e à saturação dos fluidos. Ele os atrairá e os [direcionará] facilmente, fazendo-os, de certa forma, irradiarem-se em torno dele.
Um corpo menos penetrável será um médium menos bom, o que se compreende sem explicação. Doutras vezes, o que se opõe ao exercício dessa faculdade é uma natureza inflamável ou tão impressionável que seria preciso modif**ar os fluidos sem cessar, ou ainda adicionar o que poderia ser retirado por uma tensão de espírito muito grande ou um ardor violento, ao equilíbrio do organismo.
Um corpo delicado, quase frágil, será mais maleável e mais facilmente impregnado, mas é de se temer que esse trabalho de materialização o fatigue, pois todo instrumento se gasta e, se é forçado, pode mesmo alterar-se gravemente. Além disso, eu não iria mais longe sem dar àquele que pratica a mediunidade curadora o conselho de desligar-se imediatamente do magnetizado, desde que o tenha aliviado. Deve fazê-lo, já que acaba de executar a função de bomba calcante e aspirante. Se ele não se sente forte o suficiente para reagir contra a má influência pela vontade, deve fazê-lo por meio de passes.
O médium deve agir assim não apenas consigo mesmo, mas com aqueles aos quais ele é chamado a dar alívio e aos quais não deve faltar por consequência de uma negligência.
Aqui se apresenta também naturalmente uma recomendação quanto ao tempo da magnetização. Sua duração, mais ou menos longa, deve ser decidida pelos guias, que terão apreciado o temperamento do doente e a força do médium. Mas, regra geral, tão logo o médium sinta essa espécie de lassidão habitual a todos, ele deve suspender imediatamente e retomar, se necessário, mesmo que várias vezes. Essa precaução quase não é útil, senão num caso perigoso e urgente, mas aí sobretudo o médium deve ter o cuidado de se afastar a cada suspensão.
O médium, sendo apenas um instrumento, não comunica aos fluidos um mal-estar que sinta ou uma doença de seu corpo.7 Ele também não precisa acreditar que seja um mau instrumento se não tiver sucesso na sua busca pela cura. Há provas que não terminam senão com a morte e contra as quais todas as tentativas são inúteis. Há também temperamentos de doentes que não estão em harmonia com o do médium. Eu me explico: se o organismo do doente é mais material que espiritual, um médium apto a tornar os fluidos muito materializados será bem sucedido, um outro faria menos. Se acontece precisamente o contrário, se o doente possui uma organização onde o espiritual domina o material, o primeiro médium não obteria muita coisa e, entretanto, aí não será menos bom. Além disso, compreendei-o bem, o médium curador deve ser verdadeiramente desprendido de satisfações pessoais que lhe dariam os sucessos e estar pronto ao mesmo devotamento, sem desencorajar-se nunca, ainda que não consiga o que desejava.
Quando o homem, impulsionado pelo progresso, houver se aperfeiçoado, terá mais ação sobre a matéria e poderá pedir a essa faculdade, ainda rara hoje, resultados mais decisivos, e certamente conseguirá também generalizá-la, pois ela é, pela lei de caridade, propriedade de todos.
Cheguei ao final desse trabalho, ou antes, desse resumo, desse programa de trabalho futuro, e vou terminá-lo com alguns conselhos que dirijo àqueles dentre vós que querem aliviar os males da humanidade.
O emprego da faculdade curadora é, na vida de um encarnado, um ato bastante grave, que ele nunca deve cumprir de maneira leviana e sem haver implorado a assistência de um guia seguro e devotado. Sendo então chamado a prestar grandes e reais serviços, ele deve, tanto quanto possível, ter se despojado de todo sentimento egoísta. Quanto mais ele for espiritualizado, mais ele terá poder; quanto mais ele for devotado, melhor curará. Além disso, ele nunca deve tentar curar se é animado por algum mau sentimento, ou melhor, deve antes fazer um ato de vontade sobre si mesmo e dele livrar-se momentaneamente.
É preciso ao médium curador uma vontade enérgica, perseverante, um completo esquecimento de si, um ardente desejo de fazer o bem. É necessária a ele uma fé profunda na divindade a quem ele deve implorar antes de servir-se de sua faculdade e agradecer após.
Como eu falo a espíritas convictos e desejosos de bem fazer, digo que bem-aventurado é aquele que exerce essa faculdade, faculdade que pode, que deve aumentar de poder com o número de existências; mas digo ainda que não seria demasiado trabalhar para desenvolvê-la, e desenvolver em si a prática do bem, pois, aceitando esse dever, essa missão, devo dizer, ele aceita também uma certa responsabilidade e quase sempre uma vida de devotamento. Nenhum sacrifício deve parecer-lhe muito grande e, em seu coração aberto a todos, todos os sofrimentos devem encontrar nele um eco!
Se o médium se aperfeiçoa, ou se, missionário do alto, chega à Terra com qualidades adquiridas, se seu objetivo é o santo e grande amor fraternal, pode estar certo que Espíritos poderosos e superiores virão ajudá-lo, que Espíritos avançados o sustentarão, que progredirá na sua tarefa e obterá bons resultados.
O exercício da mediunidade curadora não é um favor, mas geralmente o prêmio por um certif**ado de devotamento e de trabalho, é dizer-vos que todos aqueles que já se devotaram podem possuir essa faculdade e desenvolvê-la; mas um dia virá em que todos os homens terão adquirido a possibilidade de aliviar as dores. A Terra terá, então, retirado seu manto glacial de egoísmo; a Terra, hoje morada de trabalho duro, será um abrigo calmo e bendito, onde virão habitar aqueles que houverem merecido uma existência de repouso, de paz e de fraternidade!
Num campo de trigo, entre as espigas balançadas pela brisa, sempre há as que amadurecem primeiro, há as que já estão douradas, enquanto outras estão verdes, e algumas mal formam espiga. A Terra é campo onde os Espíritos estão em diferentes graus de germinação, de crescimento, de maturidade. Amigos, felicitai-vos, aqueles que hoje já se destinam ao devotamento, à causa humana, pois podem ser contados entre as espigas que amadurecem. Regozijai-vos, pois, mas lembrai que todas as espigas f**arão amarelas a seu tempo.
A terra é fecunda, o orvalho abundante, o sol resplandecente e vivif**ante para todos, todos serão fonte de vida. Somente as espigas amadurecidas primeiro serão colhidas antes, e já terão servido para semear outros campos quando se colherem as últimas amadurecidas.
Aconselhamos, portanto, aos médiuns em geral, aos médiuns curadores em particular, a aceitar com alegria e agradecendo a Deus a sua missão de devotamento.
Toda mediunidade é um apostolado e, para cumprir integralmente seu mandato, o encarnado que a possui deve colocar-se completamente acima das fraquezas da existência; deve incessantemente purif**ar seu pensamento e trabalhar para melhorar-se, e deve compadecer-se de todos os males e "passar fazendo o bem".
Dr. Vigneau
Observação: todas as referências bibliográf**as das obras de Allan Kardec inseridas neste artigo foram aí colocadas pela equipe desta Revista Espírita, com objetivo de aprofundar o entendimento do tema estudado.
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1 Extraído do livro Rayonnement de la vie spirituelle, pela Sra. Krell, médium, feito em 1873 e publicado em 1876. Traduzido do francês pela equipe do Geak.
2 Revista Espírita, maio de 1865 - Sobre as criações fluídicas.
3 O Livro dos Espíritos - Parte Primeira - Das causas primárias, cap. IV - Do princípio vital - Seres orgânicos e inorgânicos
4 O Livro dos Espíritos - Parte Segunda - Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos, cap. IX - Da intervenção dos espíritos no mundo corporal - Ação dos Espíritos sobre os fenômenos da natureza, item 540
5 O Livro dos Espíritos - Parte Primeira - Das causas primárias, cap. II - Dos elementos gerais do universo - Espírito e matéria
6 Revista Espírita, maio de 1865 - Dissertações espíritas - As ideias preconcebidas.
7 Vejam-se as instruções de Allan Kardec na Revista Espírita, setembro de 1865 - Da mediunidade curadora.