10/05/2026
Igreja em Células ou PGM (modelo dos 12): Esse é Mesmo o Ideal Bíblico?
De tempos em tempos, o meio evangélico é apresentado a supostas “novas descobertas” sobre o ideal de Deus para a sua igreja. Geralmente, essas propostas trazem métodos considerados eficazes para o crescimento e amadurecimento espiritual do povo de Deus, afirmando com ousadia que tais práticas não são novas, mas já eram utilizadas pelos apóstolos e podem ser encontradas no Novo Testamento.
A partir daí, seus proponentes apresentam os chamados “textos-prova”, dando início a interpretações muitas vezes forçadas, tentando sustentar ideias que não são claramente ensinadas nas Escrituras.
Nos últimos décadas, um desses modelos em evidência é o das igrejas em células (PGM) — um formato em que a igreja local se divide em pequenos grupos que se reúnem, geralmente, nos lares, sob a liderança de alguém, com o objetivo de reproduzir ali a vida da igreja, novos discípulos e novas igrejas. Em alguns casos, essas células chegam a operar com alto grau de autonomia, tomando decisões e definindo rumos próprios.
Esse modelo costuma ser defendido com base na afirmação de que a igreja do Novo Testamento se reunia nas casas. Contudo, surge uma pergunta importante: será que isso realmente significa que a igreja primitiva era estruturada em células? Essa conclusão merece ser analisada com cautela.
Antes de tudo, é importante destacar: não há nada de errado em realizar cultos nos lares ou pontos de pregação (congregações). Essa prática pode ser extremamente saudável e edificante — e, inclusive, é algo que muitos valorizam. O problema não está na prática em si, mas na tentativa de transformá-la em um modelo normativo bíblico por meio de interpretações forçadas do texto sagrado.
Ao observarmos o Novo Testamento, não encontramos evidências de que a igreja primitiva funcionava como um sistema de células. O fato de os cristãos se reunirem em casas não implica, necessariamente, que estavam divididos em pequenos grupos independentes. Essa ideia parte do pressuposto de que as casas da época eram pequenas, comportando poucas pessoas — o que nem sempre corresponde à realidade.
O livro de Atos mostra que muitas reuniões aconteciam em espaços amplos dentro das residências, especialmente nos chamados cenáculos (salas no andar superior). Em Atos 1:13-15, por exemplo, cerca de 120 pessoas estavam reunidas em um desses ambientes. Já em Atos 20:6-9, vemos toda a igreja de Trôade reunida em um cenáculo no terceiro andar para ouvir o apóstolo Paulo.
Esses exemplos demonstram que era possível reunir toda a igreja em um único local, sem a necessidade de fragmentação em pequenos grupos.
Além disso, mesmo quando a igreja em Jerusalém cresceu significativamente, alcançando milhares de pessoas, o padrão não foi a divisão em células. Pelo contrário, o livro de Atos registra grandes ajuntamentos onde os cristãos participavam juntos da vida da igreja: nas orações (Atos 4:31), na comunhão (Atos 4:32), no ensino e nas decisões (Atos 6:1-2,5).
Textos como Atos 2:46 e 5:12 mostram que esses encontros frequentemente aconteciam em locais amplos, como os pátios do templo, onde grandes multidões podiam se reunir.
Outro exemplo marcante é o concílio de Jerusalém, descrito em Atos 15, que contou não apenas com apóstolos e presbíteros, mas com toda a igreja (Atos 15:22). Isso reforça a ideia de que a igreja primitiva valorizava reuniões coletivas, envolvendo a totalidade dos seus membros.
Diante disso, algumas verdades precisam ser reafirmadas:
a) Nada substitui a Igreja.
b) Nada deve enfraquecer ou desvalorizar a Igreja.
c) Não existe estrutura eclesiástica-Bíblica que exista paralela a Igreja.
Historicamente, movimentos que absolutizam modelos específicos — como o sistema celular — já geraram distorções e problemas quando elevados à categoria de padrão bíblico. Quem se converteu no início da década de 90 sabe os males que esse movimento causou a igrejas sadias e a cristandade de um modo geral, agora ele voltou como uma mutação.
Resumindo:
1. A igreja primitiva se reunia em casas (Atos 2:46; Romanos 16:5; Colossenses 4:15; Filemom 1:2), mas isso não significa que estava dividida em células ou pequenos grupos multiplicadores, pois muitos desses locais comportavam grandes grupos;
2. Mesmo em contextos com grande número de cristãos, como Jerusalém, a igreja se reunia coletivamente para viver sua vida eclesiástica, sendo os encontros esporádicos (cultos) nos lares apenas algo ocasional, e não o modelo dominante;
3. Não há base bíblica clara para afirmar que o modelo de igrejas em células ou PGM seja o padrão ideal estabelecido no Novo Testamento;
4. O que se observa em Atos é um padrão de ajuntamento coletivo, no qual todos os crentes participavam intensamente da comunhão, do ensino e da vida da igreja (Atos 4:32-35).
Pr. Marcelo Lima