26/03/2020
Toda esta confusão causada pela COVID-19 tornou importante a questão da comunhão da Ceia do Senhor. As pessoas estão realmente preocupadas em como farão para tomarem e beberem da ordenança sacramental de Jesus. Esse comportamento revela primeiro (1) a importância da vida em comunidade, (2) e também mostra a incoerência da visão memorialista da Ceia.
(1) Cristãos "desigrejados" não podem receber a Ceia conforme a instuição divina, que inclui necessariamente a comunhão local, e se possuem algum ministro devidamente ordenado em seu meio, ironicamente, possuem uma igreja local e por isso recebem o sacramento.
(2) Se a Ceia é apenas um memorial e nada além disso, não há necessidade de nenhuma preocupação já que ninguém se esquecerá de Cristo em um ou dois meses. Apenas se algo é recebido realisticamente a preocupação com a Comunhão é justificada.
Então, vamos ao ponto: (a) O pastor pode consagrar virtualmente o pão e o vinho em cima da mesa de frente pra TV? (b) Se não, como vamos partilhar o Corpo e Sangue do Senhor?
(a) Não podemos realizar o sacramento virtualmente. E eu explico o motivo: é pecado contra munus apostólico. "Como assim pecado???" Acalme-se, é bem fácil de entender. Quando Jesus diz "fazei em memória de mim" (cf. Lc 22:19, 1 Co 11:24-25) o Mestre não estava se referindo aos elementos, como se o pão e o vinho em si servissem apenas para nos lembrar de Jesus. Esta ordenança se refere especificamente aos gestos feitos por Jesus, que são sete: (4 para o pão) pegar o pão, abençoá-lo, partí-lo e oferecê-lo aos outros, e (3 para o vinho) pegar o cálice, abençoá-lo e oferecê-lo aos outros. Isso é tão verdade que em Emaús os discípulos reconhecem a Cristo pela forma como ele realizou o sacramento. Em uma ministração virtual o pastor não pode realizar a última ação se estiver sozinho (a mais importante pois é o objetivo sacramental), que é oferecer aos outros. Crer que a Eucaristia pode ser celebrada virtualmente é ritualismo. É acreditar que apenas pelo ritual algo acontece, seria um nível de fundamentalismo grande demais para ser crível ou rasoável. Algumas questões surgem, se uma transmissão ao vivo pode consagrar os elementos, qual a necessidade de ir a Igreja comungar? Talvez, só lendo a Bíblia você possa consagrar já que as palavras de Jesus são mais importantes que qualquer vídeo por aí, não é? É complicado. Mesmo se fosse verdade, será que as pessoas teriam reverência? E se alguém pegasse o sacramento e jogasse no chão, ou fizesse um ritual de bruxaria? Vamos entrar em uma questão muito, muito complexa. Como os cristão terão a certeza da eficácia sacramental se criar um método novo para realizá-lo? Pastores não possuem poderes mágicos, e o sacramento não é magia, mas milagre divino. A Comunhão foi estabelecida em uma ordem muito clara. Portanto, cabe ao pastor celebrar a Eucaristia normalmente com sua família, se possível fazer um vídeo ao vivo para que os irmãos distantes acompanhem é o ideal. Esses irmãos não poderão comer do pão, nem beber do vinho.
(b) Então não vamos partilhar? Na verdade, já partilhamos. Somos o corpo de Cristo porque recebemos esta comunhão através da fé e dos meios de graça. Neste momento estamos privados injustamente da Eucaristia, e porque estamos impedidos disso, a fé não aceita que haja separação entre o Cabeça (Jesus) e o membros (nós). Por isso, mesmo que não possamos consumir o sinal visível (pão e vinho) nós receberemos espiritualmente o sinal invisível (corpo e sangue). Jesus compreende nossa grave situação, "de maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.
Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular" (1 Coríntios 12:26,27). Mesmo que nossas bocas estejam impedidas de comer e beber, pela conexão mística que há no sacramento da Comunhão, outros que comerem e beberem estarão comendo e bebendo por nós. Se padecemos todos juntos pela COVID-19, recebemos todos juntos o sacramento da Ceia. Ele prometeu nunca nos abandonar. Então, você sem consumir os elementos fisicamente os recebe espiritualmente e realmente.
Então, o que fazer?
Duas opções (1) orar e adorar ao Senhor sem Eucaristia, se não for possível, e seremos alimentados espiritualmente com nossa oração e a oração do pastor, (2) consagrar e enviar paras pessoas.
Ambas são válidas e bíblicas.
Que o Senhor tenha piedade de nossa situação, e lembre-se irmão:
"Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados,
Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor,
Procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.
Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação;
Um só Senhor, uma só fé, um só batismo;
Um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós.
Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo."
(Efésios 4:1-7)