01/07/2026
O LIVRO DOS ESPÍRITOS
ALLAN KARDEC
III – OBSTÁCULO À REPRODUÇÃO (PERGUNTAS 693 a 694)
CAPÍTULO 4 - LEI DE REPRODUÇÃO
693. As leis e os costumes humanos que objetivam ou têm por efeito criar obstáculos à reprodução são contrários à lei natural?
— Tudo o que entrava a marcha da Natureza é contrário à lei geral.
693-a. Não obstante, há espécies de seres vivos, animais e plantas, cuja reprodução indefinida seria prejudicial às outras espécies e das quais, em breve, o próprio homem seria vítima. Seria repreensível deter essa reprodução?
— Deus deu ao homem, sobre todos os seres vivos, um poder que ele deve usar para o bem, mas não abusar. Ele pode regular a reprodução segundo as necessidades, mas não deve entravá-la sem necessidade. A ação inteligente do homem é um contrapeso posto por Deus entre as forças da Natureza para restabelecer-lhes o equilíbrio, e isso também o distingue dos animais, pois ele o faz com conhecimento de causa. Os animais concorrem, por sua vez, para esse equilíbrio, pois o instinto de conservação que lhes foi dado faz que, ao proverem à própria conservação, detenham o desenvolvimento excessivo e talvez perigoso das espécies animais e vegetais de que se nutrem.
694. Que pensar dos usos que têm por fim deter a reprodução, com vistas à satisfação da sensualidade?
— Isso prova a predominância do corpo sobre a alma e o quanto o homem está imerso na matéria.
IV – CASAMENTO E CELIBATO (PERGUNTAS 695 a 699) –
CAPÍTULO 4 - LEI DE REPRODUÇÃO
695. O casamento, ou seja, a união permanente de dois seres é contrária à lei da Natureza?
— É um progresso na marcha da Humanidade.
696. Qual seria o efeito da abolição do casamento sobre a sociedade humana?
— O retorno à vida dos animais.
Comentário de Kardec: A união livre e fortuita dos sexos pertence ao estado de natureza. O casamento é um dos primeiros atos de progresso nas sociedades humanas porque estabelece a solidariedade fraterna e se encontra entre todos os povos, embora nas mais diversas condições. A abolição do casamento seria, portanto, o retorno à infância da Humanidade e colocaria o homem abaixo mesmo de alguns animais, que lhe dão o exemplo das uniões constantes.
697. A indissolubilidade absoluta do casamento pertence à lei natural ou apenas à lei humana?
— É uma lei humana, muito contrária à lei natural. Mas os homens podem modificar as suas leis: somente as naturais são imutáveis.
698. O celibato voluntário é um estado de perfeição, meritório aos olhos de Deus?
— Não, e os que vivem assim, por egoísmo, desagradam a Deus e enganam a todos.
699. O celibato não é um sacrifício para algumas pessoas, que desejam devotar-se mais inteiramente ao serviço da Humanidade?
— Isso é bem diferente. Eu disse: por egoísmo. Todo sacrifício pessoal é meritório, quando feito para o bem; quanto maior o sacrifício, maior o mérito.
Comentário de Kardec: Deus não se contradiz nem considera mau o que Ele mesmo fez. Não pode, pois, ver o mérito na violação da sua lei. Mas se o celibato, por si mesmo, não é um estado meritório, já não se dá o mesmo quando constitui, pela renúncia às alegrias da vida familiar, um sacrifício realizado a favor da Humanidade. Todo sacrifício pessoal visando ao bem e sem segunda intenção egoísta eleva o homem acima da sua condição material.
V – POLIGAMIA (PERGUNTAS 700 e 701)
CAPÍTULO 4 - LEI DE REPRODUÇÃO
700. A igualdade numérica aproximada entre os sexos é um indício da proporção em que eles se devem unir?
— Sim, pois tudo tem um fim na Natureza*.
701. Qual das duas, a poligamia ou a monogamia, é a mais conforme à lei natural?
— A poligamia é uma lei humana, cuja abolição marca um progresso social. O casamento, segundo as vistas de Deus, deve fundar-se na afeição dos seres que se unem. Na poligamia não há verdadeira afeição: não há mais do que sensualidade.
Comentário de Kardec: Se a poligamia estivesse de acordo com a lei natural devia ser universal, o que, entretanto, seria materialmente impossível em virtude da igualdade numérica dos sexos.
A poligamia deve ser considerada como um uso ou uma legislação particular, apropriada a certos costumes e que o aperfeiçoamento social fará desaparecer pouco a pouco**.
NOTAS:
* O Espiritismo é teleológico, tanto do ponto de vista físico quanto do ético: as coisas materiais e os fatos morais, o mundo e o homem, tudo tem uma finalidade mas não de ordem antropológica. Muitas vezes ela contraria ou escapa ao pensamento do homem. Isso deu motivo à reação antiteleológica da Filosofia moderna. A Ciência, por sua vez, tratando apenas do plano objetivo, não viu mais que “um ângulo do quadro da Natureza” e restringiu-se às “condições determinantes”. Sua natureza analítica não lhe permite abranger o sentido das coisas e dos fatos. Henri Bergson, porém em L’Evolution Creatice desenvolveu a teoria do elã vital, segundo a qual todo o curso da evolução, partindo da matéria mais densa, dirige-se à liberação da consciência no homem, aparecendo este como o fim último da vida na Terra. Essa é a tese espírita da evolução, até aos limites da vida terrena. Mas o Espiritismo vai além, admitindo a “escala dos mundos”, através da qual a evolução se processa no infinito, sempre com a finalidade da perfeição. (N. do T.)
** O impulso poligâmico do homem não é um instinto biológico, mas um simples resquício das fases anteriores de sua evolução. Não sendo irracional, nem controlado pelas leis naturais das espécies animais, ele tem o dever moral de refrear esse impulso e sublimar a sua afetividade através do amor conjugal e familiar. É pela razão e o livre arbítrio que ele se controla, elevando-se conscientemente acima das exigências biológicas e das ilusões sensoriais. Se esse controle lhe parece difícil, maior é o seu dever de realizá-lo, porque maior é a sua necessidade de evolução nesse campo e também porque “o mérito do bem está na dificuldade”, como se vê no item 646 deste livro. (N. do T.)