22/06/2025
PROVOCAÇÕES EPICURISTAS
Tenho a impressão de a Graça Comum de Deus seja muito pouco estudada, infelizmente.
De modo simples, ela é a bondade divina estendida sobre todas as pessoas, indistintamente. A inteligência, fruto intelectual da graça comum, é vista tanto em boas pessoas quanto em estelionatários. É por ela que a humanidade desenvolveu a ciência, a medicina, a tecnologia. Aliás, lembremos que a Filosofia (amor à sabedoria) surge num ambiente politeísta e estranho à Aliança. Goste você disso ou não, o fato é que muitos bons conselhos e algumas das mais sublimes verdades nos foram reveladas por filósofos que sequer ouviram falar do Deus de Israel.
Um deles chamava-se Epicuro (341 – 270 a. C.). Ao perceber que seus contemporâneos estavam desorientados e inseguros quanto à vida, Epicuro inicia uma séria reflexão sobre o prazer, sobre onde – e como – as pessoas desfrutar de uma vida de contentamento. Para ele, de forma simples, ser feliz era sentir prazer. Mas não qualquer prazer. Era necessário experimentar o “prazer real”, duradouro, que alimenta a alma. Uma pessoa feliz precisa desejar as coisas que promovam a verdadeira felicidade.
Em suas reflexões, Epicuro entendeu que há três tipos de desejos: i. naturais e necessários: comer, beber, dormir...; ii. naturais e desnecessários: comer alimentos refinados, tomar bebidas especiais, dormir em lençóis de seda...; iii. não naturais e desnecessários: riqueza, fama, poder, não morrer... A nossa vontade precisa tender para os primeiros, os desejos naturais e necessários, pois, os demais, podem nos fazer sofrer ou ficar frustrados, satisfazendo-os ou não.
É claro que, para ele, nem todos os prazeres contribuem para uma vida feliz. Há coisas que oferecerem sensações agradabilíssimas, mas o seu fim é triste e desgostoso. Sempre que vejo alguém com um v**e, penso nisso. Um único cigarro eletrônico equivale a, mais ou menos, 20 ci****os tradicionais. Será que as pessoas nos bares, nas ruas, nas escolas, conversando alegremente e ostentando seus coloridos aparelhos de nicotina, sabem que o uso desses ci****os eletrônicos pode causar câncer, doenças respiratórias e cardiovasculares, como infarto, morte súbita e hipertensão arterial?
Pois é, nem todos os prazeres contribuem para uma vida feliz!
Epicuro tem uma frase perturbadora: “Lembre-se de que aquilo que você tem hoje, um dia esteve entre as coisas que desejava”. Será que uma pessoa que esteja sofrendo com alguma doença decorrente do uso excessivo de bebidas ou ci****os se lembra de que, um dia, o cigarro e a bebida estavam entre as coisas que ela desejou?
Outra forma de dizer isso é: “cuidado com o que você deseja!”
Isso vale para outras coisas que hoje nos fazem sofrer, mas que foram tão desejadas – e buscadas – por nós, um dia!
Se Epicuro tivesse lido o Eclesiastes, certamente teria concordado com o rei Salomão (século X a. C.): “Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas.” (Ec 11.9).
Salomão e Epicuro concordam neste ponto: Vivemos para ter prazer. O bom (e correto) prazer!
Rev. Renato Arbués.