04/05/2026
Numa tarde calma, daquelas em que o tempo parece parar, a varanda de uma velha choupana de madeira rangia suavemente ao som do vento. O cheiro do mato molhado subia da terra, e ali, sentados em seus banquinhos baixos, estavam Pai Joaquim, Vovó Benedita e Vovó Maria Conga, cada um com seu ca****bo, deixando a fumaça subir devagar, como se levasse junto histórias de muitas vidas.
Pai Joaquim, com seu olhar profundo e sereno, foi o primeiro a falar, com aquela voz mansa que parecia abraçar quem escutava: "Ocês sabe.. sofrimento que a gente passou na terra num foi castigo não...foi escola. Cada dor ensinou um pedaço de amor que hoje a gente pode dar." Ele puxou o ca****bo, soltando a fumaça com calma, como quem libera memória antiga.
Vovó Benedita, com seu lenço branco bem amarrado na cabeça, sorriu de lado, com aquela doçura firme de quem já viu muito da vida. "É isso mesmo, fio... povo pensa que preto velho só fala manso, mas num sabe da força que tem por trás dessa mansidão. A gente aprendeu a transformar lágrima em reza..e reza em cura." Ela passou a mão no próprio peito, como quem lembrava de algo profundo, e completou: "E é por isso que quando a gente chega na vida de alguém, não chega pra julgar.. chega pra ensinar com amor."
Vovó Maria Conga, mais firme, com presença forte e olhar que atravessava a alma, bateu levemente o ca****bo na madeira da varanda e disse: "Mas também num pode passar a mão na cabeça de tudo não...tem gente que sofre porque precisa acordar. Preto velho ajuda, sim...mas também puxa a orelha quando precisa. Amor de verdade também corrige."
Ela olhou para frente, como se enxergasse alguém ali, e continuou: "Tem muita gente pedindo caminho aberto, mas num quer mudar por dentro...e sem mudança, meu fio, num tem milagre que sustente.
O silêncio que se seguiu não era vazio - era cheio de
presença. A energia dos três envolvia tudo ao redor, como um abraço invisível, acolhedor e ao mesmo tempo firme. Era como se aquela varanda fosse um ponto de encontro entre o mundo espiritual e o mundo dos vivos.
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