20/08/2026
Quando o próximo instante não nos pertence
Pe. Prof. Dr. André Varisa
Você já saiu de casa dizendo “até mais” sem imaginar que aquela despedida poderia tornar-se definitiva? Na madrugada de 19 de agosto, pessoas partiram de Imbituva em busca de exames, consultas e tratamentos. Havia horários, documentos, expectativas e o desejo simples de retornar. Contudo, na BR-373, o caminho foi atravessado pelo imprevisível. Vinte e três vidas foram interrompidas. O acontecimento recorda, dolorosamente, que planejamos a existência, mas não possuímos o instante seguinte. (Frankl, 2006; Heidegger, 1962)
Reconhecer essa fragilidade não é pessimismo, fraqueza religiosa ou pensamento mórbido. É consciência da condição humana. A morte costuma permanecer escondida enquanto produzimos, respondemos mensagens e adiamos encontros, perdões e afetos. Entretanto, um acidente rompe essa proteção imaginária e nos obriga a encarar uma verdade desconfortável: não controlamos todas as circunstâncias, mas somos responsáveis pela qualidade da presença que oferecemos enquanto estamos aqui. (Becker, 1973; Giddens, 1991)
Diante de uma morte repentina, o cérebro procura desesperadamente uma explicação. Reconstitui horários, imagina possibilidades e repete perguntas: “E se tivessem saído depois?”, “E se outro motorista estivesse conduzindo?”. Essa busca não é falta de fé. É uma tentativa psíquica de reorganizar um mundo que perdeu, de maneira abrupta, sua coerência. No luto traumático, a pessoa não sofre apenas pela ausência; sofre também pelo modo inesperado como a realidade foi despedaçada. (Bowlby, 1980; Parkes, 1996)
A sociedade contemporânea intensifica esse sofrimento. A notícia chega primeiro pela tela, acompanhada por imagens, comentários apressados e julgamentos de pessoas que desconhecem os fatos. Antes que as famílias consigam compreender o ocorrido, a tragédia já circula como conteúdo. Nossa cultura, tão eficiente para transmitir informações, revela-se frequentemente incapaz de sustentar o silêncio, respeitar a espera e permanecer ao lado de quem não possui respostas. (Han, 2015; Rosa, 2019)
Para os enlutados, o acidente não termina quando a rodovia é liberada. Ele continua na cadeira vazia, no telefone que não tocará, na roupa que conserva um perfume e nos projetos escritos no futuro. O luto não é doença nem ausência de vontade; é o trabalho humano de aprender a viver quando alguém indispensável já não pode ser encontrado como antes. A dor oscila: algumas horas permitem respirar; outras devolvem a perda com violência. Cada pessoa precisará construir seu próprio ritmo. (Neimeyer, 2001; Stroebe & Schut, 1999)
Talvez a pergunta decisiva não seja se estamos preparados para morrer, quase ninguém está, mas se estamos aprendendo a viver de maneira que a morte não consiga apagar tudo. Amar, perdoar, servir e dizer o que importa são formas de deixar uma permanência ética no coração dos outros. Na fé cristã, a morte não recebe a palavra final; ainda assim, a esperança da ressurreição não elimina o choro: atravessa-o. Hoje, Imbituva chora, o Paraná silencia e todos somos convocados a cuidar melhor da vida, dos vínculos e das estradas que compartilhamos. O amanhã é promessa; o amor precisa ser hoje.
(Frankl, 2006; Neimeyer, 2001)
Referências completas, solicitar.