17/05/2026
Quando um filho parte, bendita a sociedade que se ajoelha para consolar e ser presença com os pais
Pe. Prof. Ddo. André Varisa
Há dores que não cabem na linguagem humana. A entrega de um filho a Deus é uma delas. Nenhum pai, nenhuma mãe, acorda preparado para vestir o impossível, carregar um pequeno caixão ou devolver ao céu aquilo que um dia embalou no peito. A lógica da vida parece quebrar-se diante dessa experiência, porque filhos deveriam sepultar os pais, não o contrário. Quando essa ordem se rompe, rompe-se também algo dentro da alma. Não é apenas tristeza, é uma desorganização profunda da existência, uma ferida que atravessa o corpo, a memória, a fé e a própria identidade. O luto por um filho é uma experiência de amputação psíquica e existencial (Freud, 1917/2010). A morte de um filho confronta aquilo que, na estrutura emocional humana, é vivido como o curso natural da vida (Bowlby, 1980). E nenhuma dor humana pode ser medida em estágios rígidos ou cronômetros emocionais (Kübler-Ross, 1969).
Vivemos numa cultura que teme a dor e foge do sofrimento como quem foge de um espelho. Há pressa para “superar”, receitas para “seguir em frente” e discursos rápidos que tentam domesticar o luto. A sociedade contemporânea transformou até a dor em algo que deve ser eficiente, discreto e produtivo (Byung-Chul Han, 2017). Entretanto, algumas lágrimas não pedem solução, pedem dignidade. Um pai que entrega um filho a Deus não precisa de frases prontas, precisa de presença. O sofrimento que não encontra espaço para existir fragmenta silenciosamente a alma humana (Bauman, 2001). Ainda assim, mesmo no sofrimento extremo, o ser humano continua buscando sentido para permanecer vivo interiormente (Frankl, 2008).
Na compreensão da fé católica, ninguém deixa de pertencer porque morreu. Todo filho continua existindo no amor de Deus e no coração de seus pais. A morte não destrói a comunhão daqueles que foram unidos pelo amor verdadeiro, ela apenas transforma sua forma de presença (Rm 8,38-39). Quando um filho é esquecido, silenciado ou retirado das memórias familiares para evitar dor, o sofrimento tende a tornar-se ainda mais pesado. Recordar com dignidade não aprisiona ninguém ao passado, pelo contrário, devolve humanidade ao vínculo. Um nome pronunciado, uma fotografia guardada, uma música que fazia sentido, uma oração feita na madrugada, tudo isso pode tornar-se linguagem de continuidade afetiva. A Igreja sempre compreendeu que os laços construídos no amor permanecem para além da matéria e do tempo (Santo Agostinho, 2000). Porque o amor verdadeiro não desaparece, ele muda de forma e aprende a habitar dentro da alma (Winnicott, 1975). Cristo não prometeu ausência de lágrimas, prometeu permanência, “Eu estarei convosco todos os dias” (Mt 28,20). O amor que nasce em Deus jamais termina, porque aquilo que é amado em Deus nunca se perde, apenas retorna ao Eterno (Tomás de Aquino, 2001).
Também a fé cristã jamais tratou a dor humana como espetáculo de força. Jesus chorou diante da morte de Lázaro (Jo 11,35). Cristo não apressou lágrimas, não chamou o sofrimento de fraqueza e nem culpou quem sofria. Ele permaneceu. O Evangelho revela um Deus que entra na dor humana sem humilhá-la (Moltmann, 1974). Talvez esteja aí uma das maiores urgências do nosso tempo, reaprender a sofrer juntos. Uma sociedade verdadeiramente humana não abandona pais enlutados à própria sorte. Ela se ajoelha em comunhão diante daquilo que é sagrado. Porque cada filho entregue a Deus carrega consigo um universo inteiro de sonhos, histórias e futuros interrompidos. E cada pai ou mãe que permanece vivo carrega dentro do peito um amor que continuará existindo até o último suspiro. Amar alguém é permitir que ele continue vivo dentro da memória e do coração (Santo Agostinho, 2000).
Há uma violência silenciosa quando o mundo exige normalidade de quem foi atravessado pelo impensável. O luto não é doença, embora possa adoecer. Não é fraqueza, embora derrube. Não é falta de fé, embora faça a alma gritar perguntas sem resposta. Aprender a viver depois da entrega de um filho a Deus não signif**a esquecer. Signif**a reaprender a respirar carregando uma ausência que agora habita cada canto da vida. A memória deixa de ser prisão quando encontra acolhimento, escuta e sentido. O sofrimento humano precisa ser integrado à consciência para não destruir a própria identidade da pessoa (Jung, 2013). A reconstrução emocional após dores profundas acontece quando o sofrimento encontra espaço legítimo de elaboração (Parkes, 1998). Por isso, psicoterapia, espiritualidade, oração e vínculos humanos podem tornar-se caminhos reais de sustentação emocional e reconstrução subjetiva.
Talvez a maior pobreza espiritual de uma sociedade seja perder a capacidade de chorar junto. Quando um pai entrega um filho a Deus, toda arrogância humana deveria silenciar. Porque naquele instante não existe ideologia, status ou poder que responda à dor. Existe apenas a fragilidade absoluta do amor humano diante do mistério da morte. E ainda assim, mesmo no vale mais escuro, permanece algo que a morte não consegue destruir, o vínculo. A ética nasce quando somos capazes de reconhecer a dor do outro como algo que também nos atravessa humanamente (Levinas, 1988). Nem a morte, nem a vida, nem qualquer outra força é capaz de destruir aquilo que foi amado verdadeiramente (Rm 8,38-39). Um filho nunca morre no coração de seus pais. Ele continua vivendo na memória, na saudade, na oração e no amor que insiste em permanecer. A cidade de Esmeralda chora, mas seu choro alivia e testemunha a dor dos pais que não é vã. Em oração e comunhão, na certeza da Ressurreição.
Referências completas, solicitar.
paroquiaesmeraldapinhaldaserra
prefeituraesmeralda
Jean Kramer de Almeida
Roger Silveira