22/06/2026
ABEBÉ
Na tradição gaúcha do Batuque, os mitos dos orixás não são simples relatos do passado; são códigos de conduta e ferramentas de sobrevivência espiritual. Entre esses legados, o confronto entre Oxum e Oyá é fundamental para compreender a gestão do Axé contra as adversidades.
Nos tempos primordiais, Xangô, o deus do trovão, governava junto com suas esposas: Oyá, a impetuosa dona dos ventos e dos raios, e Oxum, a soberana dos rios, do ouro e da fertilidade.
Ao notar a preferência de Xangô pela delicadeza de Oxum, o ciúme de Oyá se acendeu. Ele considerou que a elegância de Oxum era uma fraqueza que deveria ser eliminada. Uma tarde, encontrando Oxum vulnerável às margens do seu rio sagrado, Oyá decidiu atacar. O céu escureceu; o vento soprou fúria enquanto Oyá lançava um raio mortal em direção ao seu rival.
Oxum, longe de se desesperar, percebeu que sua força não estava no choque físico. Com absoluta calma, levantou seu abebê - o espelho dourado - e apontou-o diretamente para o brilho da tempestade.
Nesse momento, a energia destrutiva do raio atingiu o espelho e, longe de o quebrar, ricocheteou. A luz multiplicou-se, encandilando e cegando Oyá, que, humilhada e atordoada, deve ter retirado seus ventos. Oxum, sem um único arranhão, continuou tomando banho na quietude do seu rio.
O mito ensina que estratégia, paciência e diplomacia são infinitamente mais eficazes na resolução de conflitos do que o impulso colérico. Na liturgia do Batuque, o espelho não é um símbolo de vaidade. É um escudo capaz de absorver, reverter e devolver as negatividades diretamente à sua origem.