23/09/2024
A CADEIRA
"Hoje, com certa apreensão, vejo muitos sentando em mim.
Uns, antes do tempo.
Outros, sem conhecimento.
Muitos, sem preparo.
Alguns, sem maturidade.
A maioria, sem humildade.
Vários, sem equilíbrio emocional.
Em muitas casas, me fazem de trono e quando sentam em mim se comportam como reis e rainhas e, não raro, se sentem mais importantes do que os próprios Orixás.
Às vezes sou pequena e simples e em mim sentam grandes babalorixás e yalorixás. Noutras vezes, sou enorme, um símbolo de poder e ostentação, e em mim sentam pessoas ricas de dinheiro e pobre de espírito.
Em mim já sentaram pessoas que honraram o nome do Orixá e se tornaram referências na religião.
Mas também em mim sentaram e sentam muitos mercadores da fé, pessoas que fazem da religião um comércio e vivem de enganar pessoas.
Antes, para sentar em mim, se levava muito tempo e quem sentava era apontado pelos Orixás, tinham que ter merecimento e quem autorizava a sentar era o Babalorixá ou a Yalorixá, sempre na hora certa.
Agora, qualquer um senta em mim, basta se auto-proclamar zelador ou zeladora, me comprar no mercado e não já não precisam dar satisfação pra mais ninguém .
Saudade do tempo em que o Babalorixá ou a Yalorixá sentava em mim para ensinar fundamentos para os seus filhos, com calma e paciência. Hoje está tudo mudado, são poucos os que ensinam e os que querem aprender não sentam mais à minha frente, preferem sentar à frente do computador."
O trono ou a cadeira do pai ou da mãe-de-santo é símbolo máximo de poder no culto ao Orixá. Mais que isso, símbolo sagrado, diante do qual os filhos se prostram, em cumprimento e respeito. A cadeira é o trono do terreiro, de onde a mãe ou o pai-de-santo governam sua casa. Somente a mãe-de-santo ou Pai de Santo tem cadeira dentro do Ilê e podem se sentar. Sentar-se em cadeira é sinal de hierarquia, alta dignidade, obrigações cumpridas.
Os orixás também se sentam na cadeira, sendo a única excessão. A cadeira marca a diferença de tempo de iniciação, de tempo de santo, tanto para os humanos quanto para os deuses.
Esse costume vem da África, onde somente os reis e membros da alta corte podiam se sentar em cadeiras e bancos. O assento do rei deveria ser mais alto do que os dos demais, como se observa até hoje no cultos como por exemplo o Candomblé. Mas seu uso é mais generalizado, podendo ser observado como prática que vai desde os povos mais antigos até instituições do mundo ocidental moderno.
Além do Babalorixá ou Iyalorixá e dos Orixás da casa, apenas quem senta no trono são padrinhos ou Iyalorixa/Babalorixá do Sacerdote da casa, como respeito e hierarquia dentro do Ilê.
Crédito do texto Pai Abel D'Xangô
Foto da esquerda para direita : Mãe Leda D' Xangô foto acima, Mãe Nica D' Bará, Mario D' Xangô e Mãe Geci D' Oxum .