01/06/2023
SOBRE BARÁ
Uma chave não é igual a outra. Cada uma tem sua serventia. Assim são nossos Barás no Batuque do Rio Grande do Sul, que também respondem pelo nome de Exus. Todos eles têm em comum o espírito galhofeiro, o gosto pelo inusitado, pelo inesperado e o forte sentimento de urgência. Aquilo que começa sem agradarmos a Exu nunca termina bem.
Agelu, o mais jovem de todos, é ainda um menino. Um tanto mimado e bastante carente, serve como mediador entre os orixás de praia (Oxum, Iemanjá e Oxalá) ou com forte passagem na praia (como Ibejes e Odé). São orixás que contemplam a vida com o olhar infantil, agindo rápido quando agradados e que gostam de ser louvados sempre de forma a contemplarmos seu lado infantil, com doces e brinquedos. A fome desse orixá pode ser irrefreável, nunca fazemos um axé para os orixás velhos sem aplacar o apetite da criança.
Adague - Orixá de porta, ligado a todos os caminhos (mar, mata, rios, calunga, estrada). São Barás associados à magia, ao trato com os espíritos e à proteção de todos aqueles que lidam com magia. Muito utilizados em axés de limpeza, são poderosos no desfazimento de feitiços e particularmente potentes para combatermos o olho gordo. É um Bará ligado à calunga, e, portanto, é quem trabalha para os orixás que respondem com as almas, como Oiá, algumas qualidades de Ogum, Ossanha, Xapanã e, curiosamente, Oxum Olobá.
Lanã - O mais comedido e sereno de todos os Barás, ainda assim, não é de brincadeira. É um orixá moralizador. Quando a ancestralidade é desobedecida ou o babalorixá é desrespeitado é Lanã quem tranca todos os caminhos. Poderá também se manifestar para corrigir lacunas em rituais ou pedir pela restituição do axé de um local, terreiro ou goa, perdido pelos erros dos homens. É aquele que reclama pela recuperação do conhecimento perdido e do respeito devido nos rituais e, por isso mesmo, dificilmente aplacaremos sua ira se houvermos desobedecido os preceitos que aprendemos. É um orixá guiado pelo conhecimento, que, por sua vez, intermedia a magia.
Lodê - O mais velho dos Barás é também o mais genioso de todos. Ligado à proteção das casas, desfazimento de feitiçarias, proteção dos religiosos e, logicamente, às almas que não foram encaminhadas pelo ritual dos eguns, almas perdidas e almas sofredoras. É, porém, o mais solidário e o mais humano dos Exus, aquele que responde por todos que foram abandonados pela sociedade. Fortemente ligado ao impulso sexual masculino (assim como todos os Barás) é o senhor definitivo da energia masculina. É também ligado à pureza da sacralização e a todos os fluxos puros e cristalinos. Por esse motivo, não tolera a menstruação feminina, na medida que indica que uma vida não se formou, sendo um sangue não saudável, que é eliminado pelo corpo. Engana-se quem pensa que é intolerante ao feminino (se fosse assim, não escolheria filhas mulheres e não aceitaria uma mulher mesmo depois do fim de seus ciclos).
Compreender o axé de Bará, seus mitos e seu arquétipo é fundamental para todos os religiosos.
Alupo meu pai!
Ricardo de Oxum Olobá.