23/07/2026
Os Perfumes de Oxum
Dizem os mais velhos que cada orixá tem seus segredos.
Com Oxum não é diferente. Seus mistérios chegam sempre envoltos em beleza, perfume e encantamento.
Naqueles tempos, todo quarto de santo guardava os vidros crespos da Avon, usados para as mães d'água, Oxum e lemanjá. Eram quase parte do ritual, como se o perfume carregasse a própria presença da divindade.
Na Azenha, vivia o famoso Mariozinho da Oxum Panda.
Homem de corpo miúdo, mas de alma vistosa, nunca perdia um batuque. Quando o tambor chamava o locori de Oxum, bastava um instante para sua mãe descer e tomar-lhe o corpo. Então, em meio à dança, ele borrifava perfumes sobre a roda, encantando o povo. Não raro, gastava cinco ou seis frascos em uma única noite. Era espetáculo de arrepiar, e o terreiro se inflamava ao som dos gritos:
- Ora iêiê ô! lêiê ô, minha rica mãe!
Mas, na outra ponta da cidade, no Partenon, havia quem não partilhasse dessa alegria. Chamavam-no Zecão do Lodê, filho da finada Ritinha de Xangô. Açougueiro no Mercado Público, rude de fala e de trato, sustentava mulher e seis filhos com trabalho duro de domingo a domingo. Não gostava de batuque, não gostava de festa.
E, acima de tudo, não gostava das "bixas", como se referia, com desprezo, a Mariozinho e seus filhos de santo.
— Se essa Oxum vier me borrifar perfume, ocupado ou não, eu dou na cara dela! — dizia com rancor.
O destino, porém, gosta de cruzar caminhos. Mãe Leca de lansa, no Passo das Pedras, preparava a festa de trinta e cinco anos de sua vasilha e convidou Ritinha, que chamou todos os filhos para a roda. Inclusive Zecão, que tinha um Bará Lodê bonito como poucos.
O batuque começou forte. O Bará de Zecão chegou, ocupou o filho e incendiou a roda com sua presença. O povo aplaudia, gritava "Alupô, meu pai!" , e o terreiro
vibrava em axé. Mas, após as rezas, Zecão voltou ao pátio para comer uma galinha enfarofada. Foi aí que cruzou de frente com Mariozinho e seu séquito, "parecendo carro alegórico", como ele costumava resmungar. O semblante fechou ainda mais.
O tambor chamou então pelas águas doces. O locori de Oxum ecoou, e a roda estremeceu. A mãe de Mariozinho desceu em corpo cheio de graça, recebeu dois frascos de perfume e começou sua dança. Espalhava aroma e encantamento, borrifando o líquido nos filhos de santo e soprando sobre suas cabeças. O povo, enfeitiçado, empurrava-se para receber aquele axé.
Zecão, já tomado de raiva, sussurrou ao irmão Ze do
Ogum:
— É hoje que eu cumpro minha palavra.
E assim foi. Um borrifo escapou, tocando-lhe o rosto. Num ímpeto, sem medir o peso de seu ato, Zecão ergueu a mão e estapeou o rosto da Oxum Pandá.
O batuque silenciou. O perfume pairou no ar, suspenso.
Mariozinho cambaleou até o quarto de santo, tomou de um gole os frascos que restavam, ajoelhou-se diante do tambor e, em transe profundo, puxou seu axé:
— Axirêlú Pandá mi!
Girou, girou, girou... até parar diante de Zecão. Olhou-o nos olhos e sentenciou com voz que não era deste mundo:
— Essa mão que me bateu, nunca mais tocará em nada.
O tambor cessou. O batuque se encerrou. Cada um voltou para sua casa, levando no coração a marca do ocorrido.
Quatro dias depois, no Mercado Público, Zecão distraía-se um gole os frascos que restavam, ajoelhou-se diante do tambor e, em transe profundo, puxou seu axé:
— Axirêlú Pandá mi!
Girou, girou, girou... até parar diante de Zecão. Olhou-o nos olhos e sentenciou com voz que não era deste mundo:
— Essa mão que me bateu, nunca mais tocará em nada.
O tambor cessou. O batuque se encerrou. Cada um voltou para sua casa, levando no coração a marca do ocorrido.
Quatro dias depois, no Mercado Público, Zecão distraía-se com uma peça grande de carne. No corte mal cuidado, a lâmina desceu fundo e levou junto seu pulso inteiro.
Perdeu a mão que ousara levantar contra a mãe Oxum.
E os antigos concluem, com um sorriso de quem já viu de tudo:
— Toda beleza tem seu perigo. Assim disse Mãe Oxum.