20/05/2026
Foi um amigo de longa data, o Ricardo, quem estendeu o convite. Ele tinha um terreiro de umbanda na cidade e, certa vez, disse para Camila que queria que ela conhecesse o espaço.
Camila hesitou. Não era exatamente aquele tipo de ambiente que ela frequentava, e havia uma parte dela que ainda carregava um certo estranhamento com o que não conhecia de perto.
Os seus mentores espirituais, o casal que a acompanhava desde a infância, disseram que ela devia ir. Que seria importante. Que não havia nada a temer.
Camila foi.
Só que na hora em que chegou na frente do portão, percebeu que o casal havia parado. Ela caminhou mais alguns passos e se virou, esperando que eles entrassem junto. Mas eles f**aram do lado de fora, estáticos, e explicaram com calma que não tinham permissão para entrar naquele espaço. Aquilo foi o tipo de coisa que ela não esperava ouvir, especialmente vindo de quem sempre a havia orientado em tudo. Então ficou ali, na metade do caminho, olhando para eles do lado de fora e tentando decidir se entrava sozinha.
Entrou.
Quando cruzou o portão, o primeiro coisa que chamou sua atenção foi algo invisível mas muito perceptível para quem tem sensibilidade: uma egrégora enorme pairando sobre o terreiro. Era bonita de um jeito difícil de descrever, densa, organizada, resultado de anos de fé, de trabalho espiritual e de devoção coletiva. Camila parou por um instante só para observar aquilo, sentindo uma mistura de admiração e de algo que ela mesma reconheceu como inveja, não do tipo que machuca, mas do tipo que revela o quanto se deseja algo. Ela nunca havia construído nada assim em volta de si. Não tinha capa, não tinha espaço consagrado, não tinha egrégora visível. Tinha apenas o conhecimento acumulado em anos de ensinamento com o casal, guardado dentro dela e mais em lugar nenhum.
Então viu Ricardo. Ele estava incorporado com um Exu, usando uma capa longa, com aquela presença específ**a de quem empresta o corpo para uma energia muito maior do que a própria. E ali, naquele momento, Camila sentiu o quanto havia de força naquele espaço construído com intenção e dedicação.
Na saída do terreiro, o casal voltou a acompanhá-la normalmente, como se nada tivesse acontecido. E foi aí que vieram as explicações que ela não esperava. Eles disseram que a questão não era qual espaço era mais certo ou mais legítimo, mas que cada religião acessa uma frequência específ**a, e que cada frequência atende a uma necessidade. Que o problema não era a umbanda, nem o espiritismo, nem o catolicismo, e sim quando a pessoa depende de qualquer estrutura externa para se conectar com o que é sagrado. Quando a fé está fora, a pessoa f**a refém. Quando está dentro, ela pode entrar em qualquer espaço e sair preenchida, sem precisar se tornar fanática nem exclusiva de nenhuma porta.
Foi ali que Camila entendeu o conceito que f**aria com ela para sempre: ser a própria igreja. Não no sentido de se colocar acima de nada, mas no sentido de ser tão inteira em quem é que qualquer lugar onde entre possa apenas complementar o que já existe dentro. A partir daquele dia, o preconceito que ainda carregava sem perceber foi se desmanchando. Ela passou a olhar para as diferentes religiões com a curiosidade de quem reconhece que todas carregam uma parcela do mesmo fogo, aceso de formas diferentes, por razões diferentes, para pessoas diferentes.
E soube que o casal não havia entrado no terreiro não por restrição, mas para que ela pudesse entrar sozinha e aprender o que só se aprende quando não há ninguém para responder as perguntas antes que elas sejam feitas.