19/08/2015
A Grande Dicotomia
Existe uma grande e antagônica dicotomia entre o discurso e a prática de nossos irmãos do axé. Testemunho diariamente a hipocrisia do discurso da união, que precisamos nos unir para nos tornar mais fortes, cinco minutos depois estamos criticando o outro, sem levar em consideração a questão da diversidade. Nossa religião, até bem recente, era baseada na transmissão oral, natural que algo se perdesse, se modificasse, ou fosse acrescentado novos elementos.
Salta aos olhos a questão da rotatividade de nossos iniciados. Cada obrigação é feita em um axé diferente, digo em casas diferentes. E nós, sacerdotes e sacerdotisas, recebemos de braços abertos os filhos de outro axé, sem parar para pensar o que de fato está por trás dessa transferência e pior, muitas vezes estimulamos essa atitude, criticamos o axé do outro diante de um iniciado, só para atrair este para nossa casa. Casos há que filhos de uma casa que, já possui terreiro, incentivam os irmãos mais novos a migrarem para a sua casa.
Não condeno a recepção daqueles que procuram nossa casa. No entanto me insurjo contra a indução, contra a prática do descabeceamento (perdoe-me o neologismo se for o caso). Mais grave ainda é quando tal atitude parte justamente de pessoas que nos são caras.
Nesse contexto, deve-se ainda atentar para a problemática da visitação a outros terreiros. Creio que tal ato deve ser para prestigiar, congratular, participar, estreitar e fortificar laços de amizade. No entanto não é isso que se vislumbra, o que vemos na prática é justamente o contrário, ao deixar o terreiro visitado, sai falando justamente o que não deveria, o que não engrandece ninguém, pior, apenas comenta o que conspurca, o que macula o terreiro que o recebeu e a própria religião como todo.
E assim, viverei o resto do tempo que Oxalá me reservar, na crença utópica de um dia ver a minha mui amada religião livre dessa amarras.
Salvador, 18 de agosto de 2015.
Ângelo Santana