26/10/2025
Em Roma, após uma semana de Seminário Internacional sobre a Família e vivência do Jubileu, membros da seção brasileira do Pontifício Instituto participaram da audiência com o Papa Leão! Segue o discurso do Papa Leão proferido no último dia 24/10:
DISCURSO DO SANTO PADRE LEÃO XIV
AOS PROFESSORES E ESTUDANTES DO
INSTITUTO TEOLÓGICO PONTIFÍCIO JOÃO PAULO II
PARA AS CIÊNCIAS DO MATRIMÔNIO E DA FAMÍLIA
Sala Clementina
Sexta-feira, 24 de outubro de 2025
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Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
A paz esteja convosco!
Bom dia, buenos días, good morning!
Queridos irmãos e irmãs,
com alegria dou as boas-vindas a vós, que formais a comunidade acadêmica internacional do Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família. Saúdo o Grão-Chanceler, Cardeal Baldassarre Reina, o Reitor, Monsenhor Philippe Bordeyne, os vice-reitores das seções fora de Roma, os professores, os benfeitores e todos vós, queridos estudantes e ex-alunos vindos de vários países por ocasião do Jubileu. Sejam todos bem-vindos!
Nos diferentes contextos sociais, econômicos e culturais, são diversas as situações que nos desafiam; porém, em todos os lugares e em todos os tempos, somos chamados a sustentar, defender e promover a família, antes de tudo mediante um estilo de vida coerente com o Evangelho. Suas fragilidades e seu valor, considerados à luz da fé e da reta razão, sustentam os vossos estudos, que cultivais em benefício dos noivos que se tornam esposos, dos esposos que se tornam pais e de seus filhos, que são para todos a promessa de uma humanidade renovada pelo amor. A vocação do vosso Instituto, nascido da visão profética de São João Paulo II na esteira do Sínodo de 1980 sobre a família, torna-se assim ainda mais clara: formar um único corpo acadêmico distribuído pelos diversos continentes, a fim de responder às necessidades de formação permanecendo o mais próximo possível dos cônjuges e das famílias. Dessa forma, é possível desenvolver de modo mais adequado dinâmicas pastorais adaptadas às realidades locais e inspiradas na viva tradição da Igreja e em sua doutrina social.
Participando da missão e do caminho de toda a Igreja, o vosso Instituto contribui para a inteligência do magistério pontifício e para a constante atualização do diálogo entre vida familiar, mundo do trabalho e justiça social, enfrentando questões de grande atualidade, como a paz, o cuidado da vida e da saúde, o desenvolvimento humano integral, o emprego juvenil, a sustentabilidade econômica, a igualdade de oportunidades entre homem e mulher — todos fatores que influenciam a decisão de casar-se e gerar filhos. Nesse sentido, a vossa missão específica diz respeito à pesquisa e ao testemunho comum da verdade: ao cumprir essa tarefa, a teologia é chamada a dialogar com as diversas disciplinas que estudam o matrimônio e a família, não se contentando em “falar a verdade” sobre eles, mas vivendo-a na graça do Espírito Santo e seguindo o exemplo de Cristo, que nos revelou o Pai com suas ações e palavras.
O anúncio do Evangelho, que transforma a vida e a sociedade, nos compromete a promover ações orgânicas e coordenadas em apoio à família. A qualidade da vida social e política de um país mede-se, de modo especial, pela maneira como ele permite que as famílias vivam bem, tenham tempo para si, cultivando os laços que as mantêm unidas. Em uma sociedade que frequentemente exalta a produtividade e a rapidez em detrimento das relações, torna-se urgente devolver tempo e espaço ao amor que se aprende na família, onde se entrelaçam as primeiras experiências de confiança, de doação e de perdão — elementos que constituem o tecido da vida social.
Recordo com emoção as palavras do meu predecessor, o Papa Francisco, quando se dirigiu com ternura às mulheres grávidas, pedindo-lhes que conservassem a alegria de trazer ao mundo uma nova vida (cf. Amoris laetitia, 171). Suas palavras encerram uma verdade simples e profunda: a vida humana é um dom e deve sempre ser acolhida com respeito, cuidado e gratidão. Por isso, diante da realidade de tantas mães que vivem a gravidez em condições de solidão ou marginalidade, sinto o dever de recordar que a comunidade civil e a comunidade eclesial devem comprometer-se com constância em restituir à maternidade sua plena dignidade. Para tanto, são necessárias iniciativas concretas: políticas que garantam condições adequadas de vida e trabalho; ações formativas e culturais que reconheçam a beleza de gerar juntos; uma pastoral que acompanhe homens e mulheres com proximidade e escuta. A maternidade e a paternidade, assim protegidas, não são fardos que pesam sobre a sociedade, mas uma esperança que a fortalece e renova.
Queridos professores e estudantes, a vossa contribuição ao desenvolvimento da doutrina social sobre a família corresponde à missão confiada ao vosso Instituto pelo Papa Francisco na carta Summa familiae cura, onde ele escreve: “A centralidade da família nos percursos de conversão pastoral de nossas comunidades e de transformação missionária da Igreja exige que — também no âmbito da formação acadêmica — na reflexão sobre o matrimônio e a família jamais faltem a perspectiva pastoral e a atenção às feridas da humanidade”. Nestes anos, o vosso Instituto acolheu as orientações da constituição apostólica Veritatis gaudium, para uma teologia que cultive um pensamento aberto e dialogal, uma cultura “do encontro entre todas as autênticas e vitais culturas, graças à troca recíproca de dons no espaço de luz aberto pelo amor de Deus por todas as suas criaturas” (n. 4b). Por isso, procurais exercer, à luz da Revelação, um método inter e transdisciplinar (cf. ibid., 4c). Nessa perspectiva, a sólida base de estudos filosóficos e teológicos enriqueceu-se no diálogo com outras disciplinas, permitindo explorar novos e importantes campos de pesquisa.
Entre esses, gostaria de recordar, como ulterior compromisso, o de aprofundar o vínculo entre família e doutrina social da Igreja. O percurso poderia desenvolver-se em duas direções complementares: inserir o estudo sobre a família como capítulo imprescindível do patrimônio de sabedoria que a Igreja oferece sobre a vida social e, reciprocamente, enriquecer esse patrimônio com as experiências e dinâmicas familiares, para compreender melhor os próprios princípios do ensinamento social da Igreja. Essa atenção permitiria desenvolver a intuição, evocada pelo Concílio Vaticano II e reiterada diversas vezes por meus predecessores, de ver na família a primeira célula da sociedade, enquanto escola originária e fundamental de humanidade.
No âmbito pastoral, por sua vez, não podemos ignorar as tendências, em muitas regiões do mundo, a não valorizar ou mesmo rejeitar o matrimônio. Gostaria de convidar-vos a estardes atentos, em vossa reflexão sobre a preparação para o sacramento do Matrimônio, à ação da graça de Deus no coração de cada homem e de cada mulher. Mesmo quando os jovens fazem escolhas que não correspondem aos caminhos propostos pela Igreja segundo o ensinamento de Jesus, o Senhor continua a bater à porta do coração deles, preparando-os para receber um novo chamado interior. Se a vossa pesquisa teológica e pastoral se enraizar no diálogo orante com o Senhor, encontrareis a coragem de inventar novas palavras que possam tocar profundamente as consciências dos jovens. De fato, o nosso tempo é marcado não apenas por tensões e ideologias que confundem os corações, mas também por uma crescente busca de espiritualidade, de verdade e de justiça, sobretudo entre os jovens. Acolher e cuidar desse desejo é, para todos nós, uma das tarefas mais belas e urgentes.
Desejo, enfim, encorajar-vos a continuar o caminho sinodal como parte integrante da formação. Especialmente em uma universidade internacional, é necessário exercitar a escuta recíproca para discernir melhor como crescer juntos no serviço ao matrimônio e à família. Bebeis sempre “da vocação batismal, colocando no centro a relação com Cristo e a acolhida dos irmãos, a começar pelos mais pobres” (Discurso à Diocese de Roma, 19 de setembro de 2025). Assim, fareis como em toda boa família, aprendendo da própria realidade que quereis servir. Como afirma o Documento final da última Assembleia do Sínodo dos Bispos, “as famílias representam um lugar privilegiado para aprender e experimentar as práticas essenciais de uma Igreja sinodal. Apesar das fraturas e sofrimentos que as famílias experimentam, continuam sendo lugares onde se aprende a trocar o dom do amor, da confiança, do perdão, da reconciliação e da compreensão” (n. 35). Há realmente muito a aprender no que se refere à transmissão da fé, à prática cotidiana da escuta e da oração, à educação para o amor e a paz, à fraternidade com o migrante e o estrangeiro, ao cuidado do planeta. Em todas essas dimensões, a vida familiar precede o nosso estudo e o ilumina, especialmente através de testemunhos de dedicação e santidade.
Queridos estudantes, queridos professores, iniciai, portanto, com esperança, o novo ano acadêmico, certos de que o Senhor Jesus sempre nos sustenta com a graça de seu Espírito de verdade e de vida.
A todos vós concedo de coração a bênção apostólica.
Obrigado.